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Beagá, 16 de junho de 2003 d.C.
 
Saudade dos tempos que não voltam mais
Há trinta anos, um trio de rapazes maquiados revolucionou a música, e nem era o Kiss
Por Lulu Carabina
 

Hoje, vou tratar de um assunto pouco presente nesta coluna: música. Essa intromissão em um assunto que não costuma ser a minha área tem um motivo, muito bom por sinal. Neste ano, comemoram-se 30 anos do lançamento do primeiro disco da banda Secos e Molhados.

Sim, é algo para se comemorar. Há três décadas, o trio formado por Ney Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo mostrou que era possível fazer algo original e criativo na música brasileira, em plena ditadura e com um sucesso de público incomparável.

Ainda hoje, o disco agrada aos nossos ouvidos. Para quem escuta pela primeira vez, a sensação é de estar ouvindo uma música de outros tempos, outras épocas. Mas ainda sim de qualidade. Os arranjos são harmoniosos e ricos. As letras são pura poesia, da mais "viajada" mesmo, e a voz de Ney Matogrosso desde aquela época era impressionante.

Pena que não durou. Em 1974, eles gravaram o segundo disco e, devido a "divergências empresariais", a banda acabou. Bem, começar do fim é dureza. Vou contar esta história direito.

No início, tinha o começo

O Secos e Molhados foi formado em 1971. Por um ano foram apenas ensaios, até que eles tocassem em público no teatro do Meio do Ruth Escobar, que virou um misto de bar-restaurante chamado "Casa de Badalação e Tédio", lugar onde Ney já havia se apresentado como ator. O sucesso foi muito grande, as apresentações atraíam centenas de pessoas, inclusive o futuro empresário, e geraram um convite para que eles gravassem o primeiro LP.

Em maio de 1973, entraram no estúdio "Prova". Na época, a gravação era feita em apenas quatro canais. Secos e Molhados foi lançado em agosto e, apesar de toda a simplicidade técnica, o disco vendeu 300 mil cópias em apenas dois meses.

Então os caras saíram em turnê nacional. E por onde passavam eram sucesso absoluto, lotando teatros e até mesmo o Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, o grupo fez uma breve turnê internacional, inclusive com uma apresentação histórica na televisão mexicana. Depois, entraram novamente em estúdio para gravar o segundo LP. Mas já nesta época o clima estava ruim, e Ney Matogrosso e Gerson Conrad resolveram deixar o grupo antes que virassem "empregados" de João Ricardo, que compôs quase todas as músicas. Uma semana depois que o disco chegou às lojas, a banda se separou.

Mas o trabalho deles marcou época.

Cada um na sua

O Ney Matogrosso ainda está nas paradas, atualmente divulgando seu mais recente cd, onde canta composições de Cartola. Gerson Conrad também tentou, mas não teve o mesmo espaço na mídia. Tocou a vida pra frente e tornou-se arquiteto e, eventualmente, produtor musical.

João Ricardo tentou ressuscitar o Secos e Molhados com várias outras formações, até que só sobrou ele mesmo. Continua pirando por aí, e dá até pra comprar os trabalhos da carreira solo dele pela internet.

Para aproveitar a data, até o fim do ano chega às lojas um tributo ao Secos e Molhados com nomes como Titãs, Frejat, Capital Inicial, Los Hermanos, Falamansa e Maskavo Roots cantando as canções do álbum de 1973. É esperar para ver no que isso vai dar.

Curiosidades curiosas

O impacto causado pelo álbum Secos e Molhados já começava mesmo pela capa. A fotografia é de Antonio Carlos Rodrigues, um ex-repórter fotográfico do diário carioca Última Hora.

João Apolinário, pai de João Ricardo, era colega de redação de Antônio Carlos na revista Fotoptica e sugeriu ao filho e a seus parceiros que a capa do primeiro disco fosse algo parecido com aquelas fotos de cabeça de mulher servida num prato de papelão prateado assinadas por Antonio.

Eles gostaram da idéia e, pouco tempo depois, lá estavam os rapazes cerrando placa de compensado para fazer a mesa em que posariam decapitados em meio a lingüiças, cebolas, broa, biscoitos e grãos de feijão, um cenário que sugeria uma seção de secos e molhados de armazém. Além do trio, o baterista e percussionista Marcelo Frias completa o banquete inquisitorial.

Antonio Carlos gastou uma madrugada inteira para criar o clima desejado, com os músicos sentados o tempo todo em cima de tijolos e passando o maior frio por debaixo da mesa.

Tanto trabalho valeu a pena e o resultado entrou para a história. Numa enquete promovida em 2001 pela Folha de São Paulo com 146 personalidades da área artística e do jornalismo, a capa de Secos e Molhados foi considerada a melhor da música brasileira em todos os tempos, à frente de Todos os Olhos, de Tom Zé, Índia, de Gal Costa, Tropicália ou Panis et Circensis, de Gil, Caetano, Mutantes e companhia, Minas, de Milton Nascimento, dentre outros.

Depois que "o gato preto cruzou a estrada, passou por debaixo da escada", só nos resta saciarmos nosso desejo com as regravações: Secos e Molhados - Série Dois Momentos, o primeiro e o segundo álbuns do grupo num mesmo cd, compilado pelo titã Charles Gavin; Secos e Molhados 25 anos, lançado pela Warner; e outras possibilidades que você vai ter que procurar na internet.

Bem, é isso aí. E que aquilo que é verdadeiramente bom dure para sempre!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor), estudante de Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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