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Hoje,
vou tratar de um assunto pouco presente nesta coluna: música. Essa
intromissão em um assunto que não costuma ser a minha área tem um
motivo, muito bom por sinal. Neste ano, comemoram-se 30 anos do
lançamento do primeiro disco da banda Secos e Molhados.
Sim,
é algo para se comemorar. Há três décadas, o trio formado por Ney
Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo mostrou que era possível
fazer algo original e criativo na música brasileira, em plena ditadura
e com um sucesso de público incomparável.
Ainda
hoje, o disco agrada aos nossos ouvidos. Para quem escuta pela primeira
vez, a sensação é de estar ouvindo uma música de outros tempos,
outras épocas. Mas ainda sim de qualidade. Os arranjos são harmoniosos
e ricos. As letras são pura poesia, da mais "viajada" mesmo, e a
voz de Ney Matogrosso desde aquela época era impressionante.
Pena
que não durou. Em 1974, eles gravaram o segundo disco e, devido
a "divergências empresariais", a banda acabou. Bem, começar do fim
é dureza. Vou contar esta história direito.
No
início, tinha o começo
O Secos
e Molhados foi formado em 1971. Por um ano foram apenas ensaios,
até que eles tocassem em público no teatro do Meio do Ruth Escobar,
que virou um misto de bar-restaurante chamado "Casa de Badalação
e Tédio", lugar onde Ney já havia se apresentado como ator. O sucesso
foi muito grande, as apresentações atraíam centenas de pessoas,
inclusive o futuro empresário, e geraram um convite para que eles
gravassem o primeiro LP.
Em
maio de 1973, entraram no estúdio "Prova". Na época, a gravação
era feita em apenas quatro canais. Secos e Molhados foi lançado
em agosto e, apesar de toda a simplicidade técnica, o disco vendeu
300 mil cópias em apenas dois meses.
Então
os caras saíram em turnê nacional. E por onde passavam eram sucesso
absoluto, lotando teatros e até mesmo o Maracanãzinho, no Rio de
Janeiro. No ano seguinte, o grupo fez uma breve turnê internacional,
inclusive com uma apresentação histórica na televisão mexicana.
Depois, entraram novamente em estúdio para gravar o segundo LP.
Mas já nesta época o clima estava ruim, e Ney Matogrosso e Gerson
Conrad resolveram deixar o grupo antes que virassem "empregados"
de João Ricardo, que compôs quase todas as músicas. Uma semana depois
que o disco chegou às lojas, a banda se separou.
Mas
o trabalho deles marcou época.
Cada
um na sua
O Ney
Matogrosso ainda está nas paradas, atualmente divulgando seu mais
recente cd, onde canta composições de Cartola. Gerson Conrad também
tentou, mas não teve o mesmo espaço na mídia. Tocou a vida pra frente
e tornou-se arquiteto e, eventualmente, produtor musical.
João
Ricardo tentou ressuscitar o Secos e Molhados com várias outras
formações, até que só sobrou ele mesmo. Continua pirando por aí,
e dá até pra comprar os trabalhos da carreira solo dele pela internet.
Para
aproveitar a data, até o fim do ano chega às lojas um tributo ao
Secos e Molhados com nomes como Titãs, Frejat, Capital Inicial,
Los Hermanos, Falamansa e Maskavo Roots cantando as canções do álbum
de 1973. É esperar para ver no que isso vai dar.
Curiosidades
curiosas
O impacto
causado pelo álbum Secos e Molhados já começava mesmo pela
capa. A fotografia é de Antonio Carlos Rodrigues, um ex-repórter
fotográfico do diário carioca Última Hora.
João
Apolinário, pai de João Ricardo, era colega de redação de Antônio
Carlos na revista Fotoptica e sugeriu ao filho e a seus parceiros
que a capa do primeiro disco fosse algo parecido com aquelas fotos
de cabeça de mulher servida num prato de papelão prateado assinadas
por Antonio.
Eles
gostaram da idéia e, pouco tempo depois, lá estavam os rapazes cerrando
placa de compensado para fazer a mesa em que posariam decapitados
em meio a lingüiças, cebolas, broa, biscoitos e grãos de feijão,
um cenário que sugeria uma seção de secos e molhados de armazém.
Além do trio, o baterista e percussionista Marcelo Frias completa
o banquete inquisitorial.
Antonio
Carlos gastou uma madrugada inteira para criar o clima desejado,
com os músicos sentados o tempo todo em cima de tijolos e passando
o maior frio por debaixo da mesa.
Tanto
trabalho valeu a pena e o resultado entrou para a história. Numa
enquete promovida em 2001 pela Folha de São Paulo com 146
personalidades da área artística e do jornalismo, a capa de Secos
e Molhados foi considerada a melhor da música brasileira em
todos os tempos, à frente de Todos os Olhos, de Tom Zé, Índia,
de Gal Costa, Tropicália ou Panis et Circensis, de Gil, Caetano,
Mutantes e companhia, Minas, de Milton Nascimento, dentre
outros.
Depois
que "o gato preto cruzou a estrada, passou por debaixo da escada",
só nos resta saciarmos nosso desejo com as regravações: Secos
e Molhados - Série Dois Momentos, o primeiro e o segundo álbuns
do grupo num mesmo cd, compilado pelo titã Charles Gavin; Secos
e Molhados 25 anos, lançado pela Warner; e outras possibilidades
que você vai ter que procurar na internet.
Bem,
é isso aí. E que aquilo que é verdadeiramente bom dure para sempre!
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