Motivos para não escrever: é
algo cansativo, pode ter efeitos adversos (quando se escreve algo
que outras pessoas não gostariam de ouvir), não há
como “desescrever” algo: desde que foi escrito, a coisa
tem vida própria e cada um que lê entende o que bem
quiser entender. Motivos para escrever? Nenhum, exceto a possibilidade
de que os escritos movam algo ou alguém.
Meu interesse pela guerra no Iraque é tão grande
como meu interesse às críticas de CPI, mensalão,
Lula. Não me interessam porcaria nenhuma. Ambos, no entanto,
estão ligeiramente conectadas à escrita, ou à
lingüística. A guerra do Iraque é vista por nós
como simples burrice (em busca de money) por parte de George W.
Bush, graças ao que lemos por aí. A parada do mensalão,
“escândalo” do PT e a imprensa pegando no pé
do Lula, brigando pra diminuir a popularidade do Lula.
Vários jornalistas querendo o rabo do presidente. Todos
em concordância procurando por detalhes obscuros, apontando
sujeiras, rindo de dólares escondidos em cuecas. Políticos
corruptos são muito mais educados que jornalistas indiscretos.
Jornalistas vivem achando que podem mover as pessoas, só
porque escrevem. Jornalistas escrevem como pessoas simples, para
que possam ser entendidos rapidamente, superficialmente. Tudo que
lemos (e ouvimos) é uma espécie de comando, uma palavra
de ordem. Ordens estúpidas, organizações estúpidas:
o Estado (que finge controlar essa coisa toda via constituição),
o PT, a imprensa, o Delúbio (que não se arrepende
de nada). Quanto a George W. Bush, bem que ele poderia montar um
esquema de corrupção qualquer - quem sabe o Brasil
não poderia prestar consultoria na área? -, em vez
de sair fazendo discursos ridículos justificando a invasão
do Iraque.
Certa feita, em uma fala para público, o escritor Ignácio
de Loyola Brandão disse que escrever para ele era uma forma
de ser querido. Usar a escrita como um ridículo apoio - um
encosto - para que as pessoas gostassem dele “através”
de seus textos.
Usar a escrita como dispositivo de moralização é
uma coisa absurdamente comum nos meios de saúde. Os médicos-padres
(moralizadores) escrevem que os casos de câncer de boca aumentaram
nos últimos anos, assim como também aumentou o uso
de piercing na língua. Sua conclusão óbvia,
advinda de sua autoridade, é que o piercing deve causar câncer.
A partir daí traçam-se hipóteses dos mecanismos
de funcionamento. Ora discute-se sobre os materiais que compõem
as jóias dos piercings, ora sobre o impacto físico
da jóia se esfregando na boca. Nunca li nada a respeito de
pesquisas que estudem a possibilidade de que os aparelhos ortodônticos
(aqueles trecos nojentos) possam causar câncer, apesar de
ambos fatores citados estarem presentes também nesse caso.
Contar histórias de sucesso pessoal vende. Peter Drucker
é o um nome que me vem à cabeça agora, ou “Sete
Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes”, ou Jack Welch.
Escrever para “auto-ajudar” é a desculpa desses
caras. Dizem (ou escrevem) como atingiram o sucesso, palavras importantes,
formas de agir, guias de comportamento. Estabelecer um modelo que
funcionou e vendê-lo a quem puder comprar o livro.
Escrever para mover, causar movimento, indeterminar direção
ou objetivo, comprar óculos de indie, ler “A Arte da
Guerra Para Quem Mexeu no Queijo do Pai Rico”.
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