Procuro não me apressar na hora
de criticar, até porque criticar não pode se resumir
simplesmente a falar mal, pegar no pé ou coisa que o valha.
A proposta desse artigo é, pois, fazer uma crítica
que escape às categorizações típicas.
Uma primeira constatação é a mudança
no modo de funcionamento nas igrejas evangélicas, com relação
à igreja romana católica apostólica ortodoxa.
Uma segunda constatação diz respeito a toda uma leva
de bandas recentes ou novas, cujo discurso guarda muitas similaridades
com o discurso dessas igrejas evangélicas. Por fim, o modo
como os fãs e os fiéis se comportam parece guardar
uma relação semelhante.
No catecismo, aprende-se que Deus não interfere no mundo
a não ser por milagres, e que Deus não é o
mundo sensível. Entretanto, a promessa das igrejas evangélicas
atuais não concerne mais a um Deus que age fora do mundo
atual, nem muito menos a uma recompensa post mortem no
reino dos céus. O discurso que atualmente arrebanha multidões
para cultos diz respeito ao agora, e - mais especificamente - a
ganhar dinheiro agora: livrar-se de uma dívida causada por
uma força maligna que impede a salvação divina
de encher as contas bancárias dos fiéis.
Charlie Brown Jr. (CBJr) em si não apresenta nada de novo,
nem nada de mais, trata-se, pois, de um tipo de música equiparável
aos novos grupos sertanejos. Convém a distinção
que faço entre novos sertanejos e velhos sertanejos: Wanessa
Camargo e Sandy & Júnior são esses inconsistentes
novos sertanejos; enquanto que Chitãozinho e Xororó
fazem parte de uma leva mais antiga, e menos pasteurizada da música
sertaneja, dentre os quais também estão Renato Teixeira,
Pena Branca e Xavantinho. Nessa linha, o CBJr é menos que
um subproduto de rock (ver Cazuza): enquanto a Sandy canta ao público-alvo
dos pré-adolescentes de interior, CBJr é o mesmo,
mas com os skatistas como público-alvo. Cito duas ocasiões:
num primeiro momento, um show em Divinópolis na Festa da
Cerveja, num segundo momento, domingo à noite assistindo
o Faustão (irc!). No meio do show, o Chorão se virou
para o público dizendo: "tô falando de Deus...
perdi meu pai... se você tem pai... se você tá
perdido... tem que acreditar..." No Domingão do
Faustão, Chorão disse mais do mesmo: "acho
que a mensagem que eu mais tenho que passar é que você
pode vencer se uma cara que tava ali com você venceu..."
A semelhança dos discursos acima se resume em um apelo pobre:
tenha fé na sua vitória! Quanto aos fãs de
CBJr e aos fiéis de igrejas, as semelhanças principais
é que ambos têm discursos completamente desconexos
e absurdamente chatos. Como se pagar o dízimo ou andar de
skate pudessem por si só servir pra algo...
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