First things first: comparando o livro
e o filme, além das diferenças que necessariamente
surgem entre os dois formatos, ainda existem - sim - variações
na história de cada uma das versões. Quero dizer que
alguns eventos, algumas das cenas estão deslocadas ou acontecem
de forma diferente no filme e no livro. Ainda falando da história,
em ambas versões há algo que me desagrada profundamente:
o Projeto de Ações Violentas, ou Project Mayhem. O
que me desagrada é que a máquina que funcionaria por
trás daquilo tudo não me parece completamente desenvolvida,
ou talvez ela me desagrade por que não estou envolvido em
nada parecido. Já escrevi a respeito do personagem do Edward
Norton no filme, e que há uma incongruência, ou mais
uma dessas coisas que me incomodam: a partir de um certo ponto do
filme, parece que o Ed sofre uma regressão, e passa a se
comportar como uma criança chorona... Argh! Isso não
se passa no livro, que - aliás - leva muita vantagem em certos
aspectos.
O filme desencadeia certas forças que não poderiam
ser desencadeadas por um livro, a esse propósito, recomendo
a leitura do texto “O
Divã do Pobre”, de Félix Guattari. Por um
lado, o filme é maravilhoso, cria um Tyler Durden com o rosto
do Brad Pitt, tem Edward Norton, mostra o loirinho todo detonado,
exibe flashes de Tyler antes que haja um encontro de fato entre
os dois. Por outro lado, o livro não tem aquela quebra de
ritmo do filme, não precisa se preocupar em caber em duas
horas e - por conta disso - se esbanja em vários momentos
que ficam inexplorados no filme. Um ponto que poderia ser considerado
negativo é a tradução do livro. O autor, Chuck
Palahniuk, tem o estilo típico norte-americano de escrever:
frases curtas, períodos entrecortados, pobreza narrativa.
Esse estilo já foi qualificado como uma falta de estilo (e
eu não deixo de concordar com isso), no entanto a narrativa
é construída de uma forma que se presta a esse estilo
pobre. A vantagem de ser pobre é que dá pra ler-se
o livro em uma única sentada.
A comparação entre livro e filme não me parece
tão importante frente a outras questões que se desenrolam
na narrativa. Por exemplo, o fato de que nosso anti-herói
recorre àqueles grupos deprimentes, em que buscam conforto
os doentes de câncer, de parasitas sanguíneos, de tuberculose.
A esse propósito, no videoclipe “When I´m Gone”
do Eminem, a idéia é também a participação
de Eminem em um desses grupos que poderiam se intitular de “auto-ajuda”.
Em resumo, é como se o tema principal do Clube da Luta fosse
o lixo: os doentes são lixo humano, os explosivos são
feitos de lixo, a casa em que se desenvolve muito da narrativa é
um espaço-lixo. Trata-se de uma potência do lixo, ou
melhor: o que se pode fazer do lixo rejeitado constantemente pelo
consumismo? Quanto a mim, fico sinceramente tocado por isso: roubar
carros, fabricar explosivos, a explosão de violência
nos subúrbios franceses, vender sabonetes.
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