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Beagá, 02 de janeiro de 2006 d.C.
 
Pessoas
Por Jerônimo Pseudônimo
 

Vi um cara falando. Assisti a fala de um cara. O apelido é Maneco, acho que é professor de universidade, mas isso não importa. É que houve um caso estranho em uma penitenciária em Sergipe, e ninguém sabe direito o que fazer com isso.

Papo antigo e repetitivo: morreu um dentro do presídio, daí as autoridades competentes precisavam de algum culpado; os presos mais “malvados” exigiram que algum ladrão de galinhas tomasse responsabilidade pela tal morte. Repetição virou diferença: os ladrões de galinhas expulsaram do presídio os “malvados”; afinal, não é possível que 18 dominem 700. Então, foram expulsos do presídio.

Essa história não aconteceu ontem, mas há uns dois anos. Nós brasileiros - ou melhor - o Estado Brasil não soube ainda como retomar sua soberania ali dentro. O tal Maneco foi o cara que entrou nesse presídio e filmou o que rola lá dentro. Por um lado, impressiona muito ver as imagens daquelas pessoas completamente soltas dentro dos muros do presídio. Por outro lado, a ênfase das filmagens foram as condições precárias de infra-estrutura (ponto negativo pro Maneco).

Um lance, que eu nunca tinha visto antes, foi o Maneco freando um cara: o cara queria pensar em alguma coisa além do Estado, em alguma alternativa, uma opção. É um impulso típico de intelectual... acostumado a pensar. O Maneco disse: são tempos de trincheira, e tu tem é que se cuidar, bicho!

Isso me parece muito pertinente: cuidado com o que as instituições querem fazer de você. Por exemplo, tente imaginar como você seria apresentado em um jornal, programa de TV, entrevista. Na capa da Veja, li: “Sou bi, e daí?” Fabrica-se o indivíduo, e você pode ser facilmente fabricado também. A Cidade dos Sábios, de Luis Antonio Baptista. Cada pessoa é um presídio como o do Maneco. No presídio, o Estado dá comida, água, eletricidade e vigias no perímetro. Experimente ir a um shopping prestando atenção à segurança, se quiser experimentar a sensação de ser vigiado. Não há quem não se reduza a um personagem da cidade.

Quem faz de pessoas personagens? Padres, jornalistas, psicólogos, médicos. São amoladores de facas de A Cidade Dos Sábios. Não é impossível evitar participar disso, mas é muito fácil se implicar aí. Cá entre nós, o que mais me interessou nesse livro foi a “burguesia asséptica”. O título do livro é emprestado de um conto-ensaio que o compõe, e que fala de algumas personagens que viram e fizeram cidades crescerem.

 
Jerônimo Pseudônimo tem um cabelo pra lá de esquisito, é estudante de engenharia, trabalha como quebra-galho/faz-tudo de
cursinho e gosta de escrever sobre trivialidades filosóficas e
psicologismos genéricos. E-mail: jeronimo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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