Vi um cara falando. Assisti a fala
de um cara. O apelido é Maneco, acho que é professor
de universidade, mas isso não importa. É que houve
um caso estranho em uma penitenciária em Sergipe, e ninguém
sabe direito o que fazer com isso.
Papo antigo e repetitivo: morreu um dentro do presídio,
daí as autoridades competentes precisavam de algum culpado;
os presos mais “malvados” exigiram que algum ladrão
de galinhas tomasse responsabilidade pela tal morte. Repetição
virou diferença: os ladrões de galinhas expulsaram
do presídio os “malvados”; afinal, não
é possível que 18 dominem 700. Então, foram
expulsos do presídio.
Essa história não aconteceu ontem, mas há
uns dois anos. Nós brasileiros - ou melhor - o Estado Brasil
não soube ainda como retomar sua soberania ali dentro. O
tal Maneco foi o cara que entrou nesse presídio e filmou
o que rola lá dentro. Por um lado, impressiona muito ver
as imagens daquelas pessoas completamente soltas dentro
dos muros do presídio. Por outro lado, a ênfase das
filmagens foram as condições precárias de infra-estrutura
(ponto negativo pro Maneco).
Um lance, que eu nunca tinha visto antes, foi o Maneco freando
um cara: o cara queria pensar em alguma coisa além do Estado,
em alguma alternativa, uma opção. É um impulso
típico de intelectual... acostumado a pensar. O Maneco disse:
são tempos de trincheira, e tu tem é que se cuidar,
bicho!
Isso me parece muito pertinente: cuidado com o que as instituições
querem fazer de você. Por exemplo, tente imaginar como você
seria apresentado em um jornal, programa de TV, entrevista. Na capa
da Veja, li: “Sou bi, e daí?” Fabrica-se
o indivíduo, e você pode ser facilmente fabricado também.
A Cidade dos Sábios, de Luis Antonio Baptista. Cada
pessoa é um presídio como o do Maneco. No presídio,
o Estado dá comida, água, eletricidade e vigias no
perímetro. Experimente ir a um shopping prestando atenção
à segurança, se quiser experimentar a sensação
de ser vigiado. Não há quem não se reduza a
um personagem da cidade.
Quem faz de pessoas personagens? Padres, jornalistas, psicólogos,
médicos. São amoladores de facas de A Cidade Dos
Sábios. Não é impossível evitar
participar disso, mas é muito fácil se implicar aí.
Cá entre nós, o que mais me interessou nesse livro
foi a “burguesia asséptica”. O título
do livro é emprestado de um conto-ensaio que o compõe,
e que fala de algumas personagens que viram e fizeram cidades crescerem.
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