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Beagá, 03 de outubro de 2005 d.C.
 
Carimbos e Diplomas
Por Jerônimo Pseudônimo
 

Há um sistema educacional usado atualmente, e que está longe de ser bom, apesar de estar operando. Atualmente, há uma grande procura por educação - uma febre por diplomas - que motiva o aparecimento de tantas faculdades privadas. Infelizmente, essas faculdades privadas - de forma geral - são de qualidade muito ruim. O pressuposto de que o problema é “o sistema” é de um simplismo atordoante. Não é nada disso. Nem se trata de defender os “indivíduos indefesos” das garras desse suposto “sistema”. Pra esta discussão, os temas são: a fotografia, a engenharia e a escola.

Há que se reparar a escolha da fotografia, que é uma profissão dessas que ficam na berlinda da sociedade formal. Um fotógrafo pode fazer vários cursos ou nenhum, e pode ser competente ou não, independentemente de haver estudado. Ainda há mais um fator nessa discussão: o estilo, a criatividade, o lado artístico, estético, o estilo do profissional. Na fotografia, esse fator subjetivo é muito pertinente.

Na engenharia, eminentemente prática, há todo um esquema de formação, que passa necessariamente por uma faculdade. A faculdade, ao entregar um diploma de engenheiro, está como que a aplicar um carimbo na testa do sujeito, com os dizeres: “esse é um engenheiro dos meus”. Aliás, mesmo antes de conseguir arrancar da universidade um diploma, os alunos já têm um carimbo, e isso é especialmente válido nas universidades mais disputadas (USP, UNICAMP, UFMG, UFRJ, ITA, IME, UFRGS, FGV).

No momento em que alguém passa em um vestibular difícil, acontece como que uma descoberta por parte de todos os que conviveram com esse alguém até ali: nossa, ele é um gênio e eu não sabia! Por um lado, é inimaginável que o tal alguém retruque essa percepção: não virei gênio não, continuo burro. Por outro lado, é necessário ser extremamente babaca pra soltar uma frase como essa. Há uma lógica babaca em dar valor demais a uma aprovação (ou reprovação) no vestibular. Essa lógica, quando levada através da faculdade para a vida profissional, é o que atribui tanto valor a um diploma, ao carimbo de uma logomarca na testa. De fato, seria mais apropriado fazer o caminho contrário: a escola é um resultado do que ocorre na vida profissional.

A vida profissional presente é feita de empresas - grandes ou pequenas -, em que quem se dá melhor sempre é quem está mais carimbado. As instituições empresariais, assim como as instituições de ensino, costumam ser grandes e burras. Dizer isso significa criticar a forma de funcionamento dessas instituições, que acabam determinando a existência da maldita febre de diplomas.

Acerca da engenharia, a faculdade é ainda mais questionável, já que pouquíssimos engenheiros (estudantes) se tornam de fato engenheiros (profissionais). Não se trata de nenhum segredo, nem para o mercado, nem para a universidade: empresas de consultoria estão cheias de engenheiros. Isso é muito crítico dentro da universidade: pra que ensinar engenharia a estes estudantes, se eles não serão engenheiros? A fotografia, por sua vez, não requer diploma de quem é fotógrafo, requer um portfolio.

Com isso em vista, há de ressaltar que não há culpado. As empresas requerem diplomas porque quem conseguiu um diploma teoricamente está mais “amestrado” e preparado para trabalhar. As instituições de ensino tentam ser parcimoniosas com quem admitem como alunos, e para quem entregam seus diplomas... é adequado racionar educação e ensino? Agora trata-se de perceber que ensino é esse. Na fotografia, cada profissional se constitui de forma diferente, geralmente passando por vários professores (que são colegas profissionais). A profissão não está colada àquele carimbo.

O ponto crítico da comparação entre engenharia e fotografia é a avaliação de um estudante. À primeira vista é extremamente natural atribuir uma nota (um número) a uma prova de engenharia, ou de matemática, ou de qualquer outra ciência exata. Atribuir um número a um trabalho qualquer de fotografia é menos natural. A reprovação de um estudante de engenharia é justificada em suas notas, mas como se justificaria a uma reprovação em fotografia? Novamente, mais vale utilizar a lógica inversa: o valor atribuído ao diploma é o que justifica que certos alunos sejam privados do ensino. O problema não são os alunos, mas sim a valorização babaca de certos carimbos.
 
Jerônimo Pseudônimo tem um cabelo pra lá de esquisito, é estudante de engenharia, trabalha como quebra-galho/faz-tudo de
cursinho e gosta de escrever sobre trivialidades filosóficas e
psicologismos genéricos. E-mail: jeronimo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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