Não raro, me surpreendo em comportamentos
e atitudes que outrora condenava sem julgamento. Me olho no espelho
e penso: “putz, como fui cair nessa?” Outro dia mesmo
me peguei pensando sobre como gostaria de trabalhar. Atenho-me ao
que conheço: meu próprio caso...
Estudo engenharia, e não vejo muita poesia nisso. Tenho
grande facilidade, e até gosto de certas áreas, mas
não são as ciências exatas a minha principal
fonte de orgasmos intelectuais. Descobri há pouco tempo uns
caras que mexeram comigo: Deleuze, Foucault, Almodóvar, Nietzsche,
Jean-Paul Jeunet, Clarice Lispector. Esses caras me fazem tremer,
extasiar e não pela beleza acadêmica insípida,
mas porque senti vida pulsando ali.
Eu, que sempre achei extremamente pedante ficar falando frases
de pensadores consagrados, me vi citando Foucault. Vi minha vida
passar a minha frente: na quarta série, quando fiquei conversando
na aula de história; no segundo ano, no elevador matando
aula e falando mal do professor afeminado de filosofia; no banheiro
do cursinho, sacaneando o cara que parecia o professor de literatura.
Parei, pensei, respirei fundo e disse: “Where do your loyalties
lie?”
Opa, então agora é assim que vai ser: sou um pedante
intelectual. Posso aproveitar os óculos pra faze charme,
e não preciso me ocupar com modismos, porque sempre vou me
vestir ao estilo clássico. Se me perguntarem de uma banda
nova ou escritor obscuro, haverá sempre a desculpa de que
ninguém é alguém perto dos clássicos.
Por um lado, vou ganhar respeito dos mais velhos, porque vou me
parecer com eles. Por outro lado, vão me chamar desdenhosamente
de “nerd”, “CDF” e esquisitão...
coisa que não sou.
Ah, mas não vou me permitir cometer tal traição
à ignorância! Me deixei levar pelas palavras envenenadas
dos meus algozes. Quem está no poder – e decide, em
parte, meu destino – se baseou nesses caras pra fazer a porcaria
que fez. Eu prefiro ganhar minha graninha fazendo o que sei fazer
se esforço, e o resto que se dane. Perdi tempo lendo um monte
de maluquices que não me dizem respeito e que são
inúteis... mas eu gostei.
“Where do my loyalties really lie?” Eu preciso ser
alguma coisa? Não posso levar minha vida de forma tranqüila?
Por que preciso me explicar? |