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Beagá, 25 de abril de 2005 d.C.
 
Eu não pareço com você
Por Jerônimo Pseudônimo
 

Não raro, me surpreendo em comportamentos e atitudes que outrora condenava sem julgamento. Me olho no espelho e penso: “putz, como fui cair nessa?” Outro dia mesmo me peguei pensando sobre como gostaria de trabalhar. Atenho-me ao que conheço: meu próprio caso...

Estudo engenharia, e não vejo muita poesia nisso. Tenho grande facilidade, e até gosto de certas áreas, mas não são as ciências exatas a minha principal fonte de orgasmos intelectuais. Descobri há pouco tempo uns caras que mexeram comigo: Deleuze, Foucault, Almodóvar, Nietzsche, Jean-Paul Jeunet, Clarice Lispector. Esses caras me fazem tremer, extasiar e não pela beleza acadêmica insípida, mas porque senti vida pulsando ali.

Eu, que sempre achei extremamente pedante ficar falando frases de pensadores consagrados, me vi citando Foucault. Vi minha vida passar a minha frente: na quarta série, quando fiquei conversando na aula de história; no segundo ano, no elevador matando aula e falando mal do professor afeminado de filosofia; no banheiro do cursinho, sacaneando o cara que parecia o professor de literatura. Parei, pensei, respirei fundo e disse: “Where do your loyalties lie?”

Opa, então agora é assim que vai ser: sou um pedante intelectual. Posso aproveitar os óculos pra faze charme, e não preciso me ocupar com modismos, porque sempre vou me vestir ao estilo clássico. Se me perguntarem de uma banda nova ou escritor obscuro, haverá sempre a desculpa de que ninguém é alguém perto dos clássicos. Por um lado, vou ganhar respeito dos mais velhos, porque vou me parecer com eles. Por outro lado, vão me chamar desdenhosamente de “nerd”, “CDF” e esquisitão... coisa que não sou.

Ah, mas não vou me permitir cometer tal traição à ignorância! Me deixei levar pelas palavras envenenadas dos meus algozes. Quem está no poder – e decide, em parte, meu destino – se baseou nesses caras pra fazer a porcaria que fez. Eu prefiro ganhar minha graninha fazendo o que sei fazer se esforço, e o resto que se dane. Perdi tempo lendo um monte de maluquices que não me dizem respeito e que são inúteis... mas eu gostei.

“Where do my loyalties really lie?” Eu preciso ser alguma coisa? Não posso levar minha vida de forma tranqüila? Por que preciso me explicar?

 
Jerônimo Pseudônimo tem um cabelo pra lá de esquisito, é estudante de engenharia, trabalha como quebra-galho/faz-tudo de
cursinho e gosta de escrever sobre trivialidades filosóficas e
psicologismos genéricos. E-mail: jeronimo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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