Não estava parado, mas parecia
que estava: deitado seminu (só não estava nu, pois
nunca tirava suas tatuagens), apoiado sobre os cotovelos, daquele
jeito que faz as omoplatas se juntarem, como quando um felino caminha.
Mirava seus contornos dentro do negro daqueles olhos que olhava
bem de perto. Estava deitado, mas não estava parado. Aliás,
quanto mais parado estava, mais absoluto era seu movimento: sua
cabeça girava mais rápido quando estava parado.
Naquele momento, não havia necessidade de contar-lhe nada
sobre si mesmo, aliás, não havia necessidade nenhuma
de dizer-se nada. Simplesmente olhava a si mesmo dentro de seus
olhos, e continuava a saltar dentro de sua vertigem. Saltar dentro
de dois buracos negros simultaneamente não era coisa pra
qualquer um, mas naquele caso os buracos negros não estavam
mais girando juntos. Nesse negro não era mais impossível
sobreviver, respirar.
Levantou-se para acender um cigarro, e olhou pela janela que dava
para o morro. Não estava com vontade de fumar, mas fumava
de qualquer forma - e caminhava pelo cômodo -, tentando se
esquivar um pouco do que sentia. Queria, mas não queria,
gostava, mas não gostava, fazia, mas não devia. “Não
devia” era uma sensação física opressora
que constrangia seu corpo. Ora olhava aflito pela janela, vendo
as luzes da noite carioca, ora agitava-se passeando pelo cômodo,
pelas roupas espalhadas no chão, ora fixava seu olhar sobre
o corpo nu que havia dormido, cansado do sexo, sobre o colchão
estirado no chão mal cuidado.
Estavam em um barraco como qualquer outro daquela favela: tudo
improvisado e sujo, as separações entre os cômodos
eram feitos de pedaços de madeira que se acha no lixo, a
vista era incomparável. O barraco tinha um telhado ineficaz,
que deixava seu interior úmido pelo cair do orvalho da madrugada.
Imaginou por um instante onde deviam estar sua esposa e sua família:
estariam bem protegidos? Hoje morava em um bairro decente, apesar
de já ter vivido em uma favela como aquela, em um morro como
aquele, no convívio diário do crime. Não aceitou
constituir família antes de mudar-se da favela, coisa que
conseguiu sem ajuda de ninguém, só com o seu próprio
estudo e trabalho. Há muito tempo não se misturava
mais às pessoas das favelas, havia vencido a pobreza: morava
em Belford Roxo agora. Não era uma casa de tijolos, ninguém
morava ali; era um barraco a ponto de cair, um lugar afastado, privacidade:
estavam apenas os dois ali.
Em Belford Roxo é que devia estar sua família agora:
suas duas filhas, o mais velho e sua esposa, todos dormindo seguros
em casa. Parou de pensar em casa, quando sua cabeça girou
tão forte que precisou se apoiar na lateral da janela, se
é que se pode chamar de janela a um buraco numa parede feita
de remendos: não devia ter se envolvido com essa gente da
favela de novo. Bem que tentou, na primeira vez que viu aquele rapaz,
evitar que a coisa se desenrolasse. Tragou o cigarro, soprou a fumaça
pela janela, olhou o corpo nu na cama: não evitou coisa alguma,
afinal.
Não devia ter se deixado envolver, não devia ter
cheirado, não podia continuar ali. Pensava se havia forma
limpa de se livrar daquilo tudo. Podia fugir, sumir da favela, torcer
para que não fosse reconhecido por nenhum comparsa daquele
traficante. Fugir significaria também sair de seu trabalho...
Não poderia fugir e continuar no mesmo trabalho. Entretanto,
não podia simplesmente pegar sua arma - que estava jogada
no chão, junto a seu uniforme policial - e eliminar o traficante
que lhe atormentava. Deu um trago, sentiu gosto de filtro e tossiu
forte. Seu companheiro se ajeitou na cama, e ele acendeu outro cigarro.
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