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Beagá, 03 de abril de 2006 d.C.
 
Experimentações
Por Jerônimo Pseudônimo
 

Não estava parado, mas parecia que estava: deitado seminu (só não estava nu, pois nunca tirava suas tatuagens), apoiado sobre os cotovelos, daquele jeito que faz as omoplatas se juntarem, como quando um felino caminha. Mirava seus contornos dentro do negro daqueles olhos que olhava bem de perto. Estava deitado, mas não estava parado. Aliás, quanto mais parado estava, mais absoluto era seu movimento: sua cabeça girava mais rápido quando estava parado.

Naquele momento, não havia necessidade de contar-lhe nada sobre si mesmo, aliás, não havia necessidade nenhuma de dizer-se nada. Simplesmente olhava a si mesmo dentro de seus olhos, e continuava a saltar dentro de sua vertigem. Saltar dentro de dois buracos negros simultaneamente não era coisa pra qualquer um, mas naquele caso os buracos negros não estavam mais girando juntos. Nesse negro não era mais impossível sobreviver, respirar.

Levantou-se para acender um cigarro, e olhou pela janela que dava para o morro. Não estava com vontade de fumar, mas fumava de qualquer forma - e caminhava pelo cômodo -, tentando se esquivar um pouco do que sentia. Queria, mas não queria, gostava, mas não gostava, fazia, mas não devia. “Não devia” era uma sensação física opressora que constrangia seu corpo. Ora olhava aflito pela janela, vendo as luzes da noite carioca, ora agitava-se passeando pelo cômodo, pelas roupas espalhadas no chão, ora fixava seu olhar sobre o corpo nu que havia dormido, cansado do sexo, sobre o colchão estirado no chão mal cuidado.

Estavam em um barraco como qualquer outro daquela favela: tudo improvisado e sujo, as separações entre os cômodos eram feitos de pedaços de madeira que se acha no lixo, a vista era incomparável. O barraco tinha um telhado ineficaz, que deixava seu interior úmido pelo cair do orvalho da madrugada. Imaginou por um instante onde deviam estar sua esposa e sua família: estariam bem protegidos? Hoje morava em um bairro decente, apesar de já ter vivido em uma favela como aquela, em um morro como aquele, no convívio diário do crime. Não aceitou constituir família antes de mudar-se da favela, coisa que conseguiu sem ajuda de ninguém, só com o seu próprio estudo e trabalho. Há muito tempo não se misturava mais às pessoas das favelas, havia vencido a pobreza: morava em Belford Roxo agora. Não era uma casa de tijolos, ninguém morava ali; era um barraco a ponto de cair, um lugar afastado, privacidade: estavam apenas os dois ali.

Em Belford Roxo é que devia estar sua família agora: suas duas filhas, o mais velho e sua esposa, todos dormindo seguros em casa. Parou de pensar em casa, quando sua cabeça girou tão forte que precisou se apoiar na lateral da janela, se é que se pode chamar de janela a um buraco numa parede feita de remendos: não devia ter se envolvido com essa gente da favela de novo. Bem que tentou, na primeira vez que viu aquele rapaz, evitar que a coisa se desenrolasse. Tragou o cigarro, soprou a fumaça pela janela, olhou o corpo nu na cama: não evitou coisa alguma, afinal.

Não devia ter se deixado envolver, não devia ter cheirado, não podia continuar ali. Pensava se havia forma limpa de se livrar daquilo tudo. Podia fugir, sumir da favela, torcer para que não fosse reconhecido por nenhum comparsa daquele traficante. Fugir significaria também sair de seu trabalho... Não poderia fugir e continuar no mesmo trabalho. Entretanto, não podia simplesmente pegar sua arma - que estava jogada no chão, junto a seu uniforme policial - e eliminar o traficante que lhe atormentava. Deu um trago, sentiu gosto de filtro e tossiu forte. Seu companheiro se ajeitou na cama, e ele acendeu outro cigarro.

 
Jerônimo Pseudônimo tem um cabelo pra lá de esquisito, é estudante de engenharia, trabalha como quebra-galho/faz-tudo de
cursinho e gosta de escrever sobre trivialidades filosóficas e
psicologismos genéricos. E-mail: jeronimo@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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