Beagá, Segunda, 29 de julho de 2002 d.C.

E-mail para esta coluna: sukrilius@abacaxiatomico.com.br

Discos fundamentais - parte 16,5

Vou terminar minha análise sobre Beggar's Banquet (1968), dos Rolling Stones:

Mick Jagger - vocal
Keith Richards - guitarra, violão e piano
Charlie Watts - bateria
Bill Wyman - baixo e violão
Brian Jones - guitarra e "quebrava o galho" nos outros instrumentos quando estava presente.

Após a rápida (e desleixada) escalação da banda, vamos logo para as faixas:

"Sympathy for the Devil": já falei um pouco sobre ela na coluna anterior. Sobre a música em si, há pouco o que dizer: o baixo é magnífico; o piano, a percussão e o vocal te hipnotizam; você entra em transe e acompanha todo o ritual até se surpreender com a guitarra, irresistível. Então você tem absoluta certeza de que Mick Jagger era Lúcifer. Há um videoclipe (uma apresentação ao vivo da banda executando esta música, durante o projeto Rock'n'Roll Circus) que virou disco e já foi citado por aqui. Nota-se que Jagger está irreconhecível, parece possuído. Na platéia Lennon, Yoko e McCartney aplaudem. Ah, eu falei que Jagger ERA Lúcifer - ele voltou a ser bonzinho. Uma prova é a (boa) música intitulada "God Gave Me Everything", presente no seu último (e irregular) disco Goddness in the Doorway.

"No Expectations": clima folk. Música serena, bem bonitinha. Destaque para os violões, o vocal e o baixo.

"Dear Doctor": country de primeiríssima qualidade. Os Stones pedem uma ajuda ao doutor, um medicamento, algo assim. Mas quem deu a receita do remédio, sem dúvida, foi Bob Dylan.

"Parachute Woman": blues básico, com uma levada mais antiga, antes dos anos 60. A banda volta às origens, fazendo o bom e velho blues.

"Jig-saw Puzzle": também merece destaque. Começa calma e depois fica nervosa. Preste atenção no piano e baixo, bem sutis. Depois, empolgue-se com a guitarra, vocal e bateria.

"Steet Fighting Man": uma das mais célebres canções de protesto. Para vocês terem uma ideía, até o Rage Against the Machine já regravou essa música, o Oasis também. Mas a melhor versão é a original, ou a regravação feita pela própria banda em Stripped (1995). Aí vai uma parte da letra deste hino do rock:

"Ev'rywhere I hear the sound of marching, charging feet, boy
'cause summer's here and the time is right for fighting in the streets, boy
but what can a poor boy do
except to sing for a rock'n'roll band
'cause in sleepy London town
there's no place for street fighting man".

Outros trechos, que provocam suspiros em qualquer membro dos Diretórios Acadêmicos das Universidades Federais:

"Hey! Think the time is right for a palace revolution
hey! Said my name is called disturbance
i'll shout and scream, i'll kill the king, i'll rail at all his servants".

Jagger escreveu esta canção após desistir de se candidatar ao Parlamento Inglês, pois ele se identificava com a ideologia das ruas, mas era um burguês que vestia calças de veludo e morava em um palácio.

"Prodigal Son": novamente a banda explora suas raízes. Bem r&b (quando r&b era boa música, quando realmente significava "blues rítmico"). Meio country, meio blues. Os violões se destacam.

"Stray Cat Blues": blues nervoso, mais rock'n'roll. Bateria forte, solos de guitarra, piano junto com o vocal não te deixam quieto. A letra é meio maldosa... Deixa pra lá...

"Factory Girl": uma das melhores canções country que a banda já fez. Prato cheio para quem gosta de um country bem tocado, com influência do blues.

"Salt of the Earth": emocionante, linda, cativante. Impossível fechar o disco com uma canção melhor. É aquele tipo de música que você escuta várias vezes e não enjoa. Uma das mais bonitas canções que os Rolling Stones já gravaram, mas creio que eles não sabem disso, pois ela é praticamente ignorada nos shows. Ah, o coral no final é de arrepiar!

         

Rock Steady, recente disco do No Doubt, é uma luxuosa porcaria. A banda é boa, já fez um bom ska. Mas depois do fraco e comercial Return of Saturn, a moçada se superou. Fez um disco ainda mais comercial, colocou a (linda) vocalista Gwen Stefani como símbolo para ver se o cd vende bem, mas no seu interior salvam-se duas faixas, com boa vontade. Possui bons músicos, que estão sendo desperdiçados. Ou melhor: que querem ganhar grana e mostrar pouco serviço.

Maladroit, o novo disco do Weezer, é bem... Weezer! Sem novidades no front, continua bem legal, com aquele vocal característico, guitarras pesadas... Diversão garantida! E você ainda pode assistir sete videoclipes e instalar o Quick Time. Bom exemplo, ao contrário de bandas que colocam dispositivos contra a pirataria.

Untouchables, novo do Korn, não foge à regra. Mais do mesmo. Quem gosta, vai continuar gostando, quem não gosta... O Korn está mais pesado e com menos rap, o que pode atrair uma parte dos "puristas do metal". Por isso, leva vantagem sobre porcarias feitas para vender, como Linkin Park e Limp Bizkit. Agora, "mais ou menos" nesse estilo, ouça Incubus e Tool, que são bem melhores. Ou melhor, ouça a referência básica: Faith No More.

Já o Echo & The Bunnymen lançou um ótimo disco do vivo. Consolo para quem não foi aos shows por aqui... Mais detalhes na seção Corra Atrás.

E o Sonic Youth em Murray Street acerta em cheio e volta a ser o bom e velho Sonic Youth. A primeira faixa do disco ("The Empty Page") é uma das coisas mais mainstream que essa cultuada banda do underground já fez. Traduzindo para os leigos: a primeira faixa poderia tocar no rádio, o que é difícil de encontrar na discografia desta banda da década de 80.

David Bowie lançou Heathen, que é infinitamente superior ao chatíssimo Hours... (1999), mas que ainda está distante dos melhores momentos do camaleão do rock.

Last Broadcast, é o novo disco do Doves, que mantém o mesmo (bom) nível do disco anterior. É Radiohead na fase The Bends, mas os originais são melhores...

Uma banda chamada The Flaming Lips lançou um disco chamado Yoshimi Battles the Pink Robots. A crítica está elogiando horrores. É um som eletrônico, sem ser dançante. Para mim faltou tempero mas, em princípio, confesso que não entendi o álbum... As canções não chamam a atenção, não são tão boas nem são ruins... Vou escuta-lo mais vezes, mas por enquanto é um disco "confuso". É o famoso disco "conceitual".

Mas o maior destaque vai para Handcream for a Generation, da banda inglesa Cornershop. Continua o sotaque indiano, mas misturado com música eletrônica, black music e as tradicionais pitadas de rock e psicodelia. Algo como "quase um Primal Scream". E canções com títulos bem legais. Falando em Primal Scream, em agosto deve chegar mais um petardo dessa ótima banda!

Estou ouvindo neste momento By the Way, novo do Red Hot. Está me agradando, mas acho que muita gente não vai gostar... Falo sobre ele na próxima coluna, e também sobre o novo do Oasis, que também está freqüentando meu cd player.

         

Caro Cajabis Cannabis: já que você gostou tanto da coletânea do Smashing Pumpkins, vá atrás dos discos originais. O melhor é o Mellon Collie and the Infinite Sadness. Para muitos, o primeirão, Gish, é o destaque. Siamese Dream também é recomendável. Experimente o "eletro-acústico" Adore, tão injustiçado que até virou texto para uma das minhas colunas. Depois, pegue o derradeiro Machina: The Machines of God.

         

Nosso governante FHC, no dia 17 de julho, vetou o projeto pela numeração de cds e livros, para que os artistas possam ter um controle mais apurado de seus direitos autorais. Parabéns, nobre sociólogo, por mais um gol contra. Continuarei xerocando livros e copiando cds, que eu alugo.

         

A gente sempre fala mal da MTV, pois ela anda pisando na bola na sua programação, dando maior ênfase aos programas de auditório e deixando a (boa) música em segundo plano.

Mas o "Show de Horror do Intervalo" do Rock e Gol é o que há de mais engraçado em toda a televisão brasileira (sem contar o The Osbournes, claro).

         

Na próxima coluna: Let It Bleed, outro clássico dos Rolling Stones.

         

Links do Sukrilius:

www.uol.com.br/folha/pensata - coluna do jornalista Lúcio Ribeiro. Música, cinema, televisão, só coisas boas. Claro, sempre há uma banda que ele "enche a bola" e não é nenhuma maravilha, mas na maioria dos casos só grandes bandas que poucos conhecem são recomendadas por ele.

www.screamyell.com.br - ótimo site sobre cultura pop em geral. Música, cinema, teatro, livros. Tudo que é interessante e bom está lá.

www.6emeia.cjb.net - zine com ótimos textos, reflexões, críticas de shows, discos, livros, filmes... Comandado pelo genial LF, grande amigo, sofredor e DJ. Foi meu companheiro no antigo site Gritonline (www.gritonline.cjb.net).

www.soundmagazine.com.br - outro site muito legal, que fala principalmente sobre música.

www.britrockgroup.hpg.ig.com.br - Britrockgroup é uma lista de discussão do Yahoogrupos sobre rock britânico e eu sou um dos moderadores desta lista.

Sukrilius é tenista arrependido e escreve neste espaço às segundas-feiras.

 

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