Beagá, Segunda, 22 de julho de 2002 d.C.

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Discos fundamentais - Capítulo 16

Beggar's Banquet (1968), dos Rolling Stones, é o disco que vou analisar nesta coluna. Nesta não, na próxima. Hoje vou apenas contar alguns episódios ocorridos antes, durante e após a gravação deste disco. Na próxima vez eu falo sobre o disco propriamente dito.

Mick Jagger e Keith Richards decidiram gravar o disco praticamente sóbrios, pois no último ano o ácido tinha tirado a dupla do "rumo musical correto", segundo Jagger. Mas Brian Jones continuava a irritar os demais Stones. Eles estavam cansados de pedir para Brian trabalhar e diminuir um pouco as drogas. Para pressioná-lo a trabalhar, resolveram chamar alguns amigos, entre eles Eric Clapton, para assistir as gravações. Diante da constante pressão em casa (por causa da perseguição da polícia) e no trabalho (por falta de reconhecimento, pois as composições da dupla Jagger-Richards tinham preferência), Brian ficava ainda mais paranóico.

Brian sempre desabafava com John Lennon, que possuía uma paciência incrível, principalmente para os telefonemas importunos durante as madrugadas. Em um clube, com Lennon, Brian foi enfático em suas queixas: "Eles falam comigo como se eu fosse um imbecil. Eu enfrentei e questionei Jagger e sabe o que ele me disse? Que eu era um pé no saco e nem era um músico bom o suficiente para estar em uma banda do porte dos Rolling Stones. Porra! A idéia foi toda minha e jamais teriam chegado aonde chegaram sem mim. Agora querem me tirar tudo!" Lennon, com sua diplomacia e sutileza, retruca na mesma moeda: "Deixa de merda, Brian! Você mesmo é que se colocou na sua situação e não Jagger. Neste negócio, você tem que ser forte e, se você não se cuida, não espere que alguém vá cuidar por você. Se os Stones não te querem mais, manda cada um ir se foder! Você é uma grande estrela. Monta outra banda e prove que você é um homem e não uma menina." Brian concordou, mas faltava coragem para ele deixar os Stones e Jagger sabia que este fato seria péssimo para a banda. Daí usava a política da "porrada e abraço".

Nesta loucura, Brian se esqueceu de subornar um policial corrupto, que não o denunciava por porte e uso de drogas. Com um mandato de prisão, a polícia fez uma vistoria na casa de Brian. Foi encontrada uma pedra de haxixe. Brian foi para a delegacia, pagou fiança e em breve teria que se apresentar para ouvir oficialmente sua acusação.

Para substituir o versátil Brian Jones com todos os problemas que não deixavam que ele fosse às gravações com freqüência, vários músicos foram chamados para tocar guitarra, piano, percussão, violino, bandolim e congas. Brian sabia tocar todos esses instrumentos, mas mal era visto no estúdio.

Marianne Faithful presenteou Jagger com o livro The Master and Margarita ("O Mestre e a Margarida", acho), de Mikhail Bulgakov. É um romance que fala da visita de Satã a Moscou nos anos 30 para ver os efeitos da Revolução Russa. Satã transforma a polícia em tolos, os poetas em ignorantes e faz os ateus acreditarem em Deus. Santos são transformados em pecadores e Deus é o diabo. O romance é uma vasta alegoria sobre a luta entre os poderes do mal e os poderes da luz. O mal está no poder até que os herdeiros da verdade tomam o poder de volta, mas logo começam a imitar os derrotados, tornando-se então o mal. Assim o ciclo continua por toda a história humana. Jagger terminou de ler o livro e imediatamente começou a escrever uma canção. "Please allow me to introduce myself", a primeira linha da canção de Jagger, é uma frase retirada do livro. A música se chamava "The Devil Is My Name", mais tarde tornando-se "Sympathy for the Devil". O ritmo da canção possui nítida influência do contato que Jagger teve com o candomblé no início desse ano de 1968 em sua temporada de férias na Bahia, após passar por Rio, São Paulo e Minas. Mas esse (como sempre) é um outro papo.

Após a gravação, a banda (menos Brian e Charlie) foi para Los Angeles mixar o material. Dirigindo pelo subúrbio, a banda viu um coral gospel cantando na rua. Jagger não pensa duas vezes: manda parar o carro e contrata o coral para adicionar peso no final da canção "Salt of the Earth".

A festa de lançamento do disco foi no mesmo dia do 25º aniversário de Jagger. Os convidados foram chegando e ouvindo em primeira mão o álbum, resultado de uma prensagem feita às pressas para a ocasião. A cocaína era servida nas mesinhas e o bolo era de haxixe.

Paul McCartney, quando chegou, passou para o DJ um compacto recente dos Beatles e que também ainda era inédito. Era o primeiro compacto a sair pelo novo selo, a Apple. A turma, que até então curtira em demasia as faixas de Beggar's Banquet, considerado por todos como sendo o melhor disco dos Stones até então, passou a ouvir uma maravilha composta por dois atos: "Hey Jude" e "Revolution". Jagger, embora não falara nada, irritara-se um pouco com a reação do público, encantado com o trabalho dos Beatles.

E no tribunal, Brian se declara inocente e o julgamento é marcado. Brian garante aos amigos que não estava fumando haxixe. Portanto, foi a própria polícia que colocou a droga em sua casa.

O primeiro compacto escolhido para promover o disco foi da canção "Street Fighting Man", que nos Estados Unidos chegou às lojas com uma capa mostrando uma briga entre polícia e estudantes - em poucos dias ela foi substituída. Esta capa, hoje, vale cerca de 1.000 dólares! A canção foi excluída das rádios, pois seus donos temiam que a música incitasse ainda mais as manifestações estudantis, tão comuns na época. Jagger não se preocupou com a censura, desde que o compacto continuasse sendo vendido nas lojas.

Os Stones foram até um banheiro público e começaram a grafitá-lo, adicionando frases nas paredes como "Bob Dylan's Dream" e "John Loves Yoko". Pronto, a capa do disco estava concluída. Mas a intenção da banda de lançar o álbum o quanto antes foi brecada pela gravadora, que considerava a capa de extremo mau gosto, agressiva. Na verdade, a capa não ia fazer o disco vender. Jagger alegou que na capa só aparece a parte superior da privada e que a foto foi tirada em um banheiro público, onde qualquer um poderia contemplá-la, daquele jeito.

A gravadora venceu o duelo (obviamente) e o disco saiu no final de 1968. A capa original só saiu já na época do CD, pois foi censurada. Em seu lugar foi feita uma luxuosa capa, como se fosse um convite para um casamento, uma festa bem requintada, um luxuoso banquete. O detalhe é que "Beggar's Banquet" significa "Banquete dos Mendigos".

Na próxima coluna, falarei sobre as canções deste disco e sobre outras coisas também...

         

Estimado colega Cajabis Canabis: não sei qual é sua definição para "viajante", mas "Tonight, Tonight" do Smashing Pumpkins foi um videoclipe bastante premiado e ele é muito bem feito... Não acho viajante... "Sunday", do Sonic Youth, é viajante. "No Surprises", do Radiohead, é viajante. De qualquer forma, acho o clipe de "1979" o mais legal dos Pumpkins.

         

Vespertine, da Björk, foi para a lixeira do site... No início eu não concordei, mas ouvindo com mais atenção, admito que a Björk exagerou na dose... O estilo de música da Björk faz com que um pequeno detalhe transforme um disco genial em um disco chato, arrastado, enjoado. Ainda acho um exagero Vespertine estar na lixeira, mas com certeza a Björk já fez coisas bem melhores...

         

"Abacaxismos" à parte, parabéns ao Jam Pow! por vencer o festival Rock'n'halls. Podemos falar mal da banda, mas Bauxita e sua trupe são muito gente boa e entre todos os finalistas acho que eram os "melhores".

         

Como a coluna ficou muito grande, na próxima semana falo sobre alguns dos novos discos que estão saindo. Anote a relação: Weezer, Sonic Youth, Echo & The Bunnymen, Cornershop e No Doubt. E em breve: algumas palavras sobre os novos discos do Oasis e Red Hot Chili Peppers.

         

Na próxima coluna, termino de falar sobre o Beggar's Banquet. Até lá!

         

Links do Sukrilius:

www.uol.com.br/folha/pensata - coluna do jornalista Lúcio Ribeiro. Música, cinema, televisão, só coisas boas. Claro, sempre há uma banda que ele "enche a bola" e não é nenhuma maravilha, mas na maioria dos casos só grandes bandas que poucos conhecem são recomendadas por ele.

www.screamyell.com.br - ótimo site sobre cultura pop em geral. Música, cinema, teatro, livros. Tudo que é interessante e bom está lá.

www.6emeia.cjb.net - zine com ótimos textos, reflexões, críticas de shows, discos, livros, filmes... Comandado pelo genial LF, grande amigo, sofredor e DJ. Foi meu companheiro no antigo site Gritonline (www.gritonline.cjb.net).

www.soundmagazine.com.br - outro site muito legal, que fala principalmente sobre música.

www.britrockgroup.hpg.ig.com.br - Britrockgroup é uma lista de discussão do Yahoogrupos sobre rock britânico e eu sou um dos moderadores desta lista.

Sukrilius é tenista arrependido e escreve neste espaço às segundas-feiras.

 

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