Beagá, Segunda, 24 de setembro de 2001 d.C.

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Discos injustiçados - A série continua

O ano era 1976. A febre da disco music estava dominando, o movimento punk ganhava terreno. E onde estava o legítimo rock'n'roll? Com os Rolling Stones, sinônimos do gênero, não estava - e eles fizeram um ótimo disco. Vamos lá:

The Rolling Stones
Black and Blue (1976)

Formação:
Mick Jagger - vocal;
Keith Richards - guitarra;
Ron Wood - guitarra-base;
Bill Wyman - baixo;
Charlie Watts - bateria
.

Era a estréia de Ron Wood nos Rolling Stones. Não sei se precisava: este disco quase não precisou de duas guitarras e até hoje ele é um guitarrista "descartável" para a banda. O Keith Richards dá conta do recado. Deste que o melhor guitarrista da banda, Brian Jones, se mandou desta pra melhor (o cara morreu em julho de 69 em circunstâncias muito obscuras...) Keith Richards começou a tocar cada vez melhor e hoje é um dos "guitar heroes" do rock. Ah, os Stones ainda contavam no baixo com o ótimo Bill Wyman. Este disco foi lançado no auge comercial, talvez não do criativo da banda - penso que o auge criativo está entre os discos absolutamente necessários Their Satanic Majesties Request (1967), Beggar's Banquet (1968), Let It Bleed (1969), Stick Fingers (1971) e Exile on Main Street (1972), para muitos o melhor trabalho de Jagger e companhia. Após 1972, eles lançaram os bons Goats Head Soup (1973) e It's Only Rock 'n' Roll (1974), mas inferiores aos anteriormente citados. Ok, vamos falar de Black and Blue.

Primeiramente, já deixo bem claro que não é um disco de rock. Um fã típico de rock, de Rolling Stones, não vai gostar de cara, talvez não goste de jeito nenhum. Eu tinha ódio deste disco, pensava "que porcaria, vejam aonde os Stones chegaram..." Dou como exemplo meu amigo Daniel Martins, que é mais fã dos Stones do que eu: antes, queria distância deste disco e hoje sempre vai aos sebos de Belo Horizonte em busca do vinil desta obra.

Começa com "Hot Stuff". Disco, dançante, guitarra feita pra dançar, bateria cadenciada, ótimo vocal. De repente, entra um solo de guitarra, mas sem descaracterizar o caráter "boogie-woogie" de sua levada. Dance... é, os Rolling Stones sabem fazer isso também.

"Hand of Fate": rock! Resquícios de rock'n'roll no disco. Rock básico, simples, riffs e vocal marcantes, aquilo que os Stones sempre souberam fazer e é o que o fã espera. Quem não gostar desse disco pegue esta música em mp3, porque ela é diferente de quase todas as demais. Ou melhor, esse disco atira para todos os lados, vários estilos, e nessa música o discreto Charlie Watts e o piano de fundo dão um show.

"Cherry Oh Baby": a única cover do disco. Você conhece a versão original? Eu não, mas arrisco falar que é superior. Reggae para muito rastafári ficar com inveja: baixo e guitarra na mesma toada, bateria envolvente e um órgão delicioso. Mick nos vocais é "a voz". O coral é muito bom. Por favor, não ouçam a versão que a banda UB 40 fez pra essa música...

"Memory Motel": uma balada muito, mas muito bonita. Ideal para um casal ouvir na saída do cinema às 23:40, quanto o cara pára o carro pra deixar a namorada na casa dela. Ambos ouvem a música e o cara, que ia embora, resolve entrar. Órgão, baixo, guitarra, bateria e os vocais de Mick e Keith dão arrepios, tamanha sutileza de cada estrofe. Música composta com precisão.

"Hey Negrita": disco music, bem atraente. Possui os mesmos elementos de "Hot Stuff". Acompanhe Jagger nos vocais.

"Shake your body!": maliciosa. O piano é sensacional. Vejo o encarte e me assusto. Quem toca piano é o baixista Bill Wyman. Todos os méritos para ele. Jagger solta a voz, para ele não importa se é rock, reggae ou black music.

"Melody": volta às origens. Rythmin' (é assim que se escreve?) & Blues de primeira. Não, não é esse "R & B" chato que infesta as paradas. É antigo, dos anos 60. Levada mezzo jazz, mezzo blues. Mostre pro seu pai ou para aquele tio seu que já passou dos quarenta e ainda usa rabo-de-cavalo. A música possui ótimos arranjos, com solos curtos de guitarra, muito piano, vocal preciso e metais. É, acho que esta é a minha preferida do disco. Deleite-se!

"Fool to Cry": outra balada. Muito bem feita, nos moldes de "Memory Motel", embora possua um vocal mais redondo, um coral de fundo, dando um caráter mais intimista. Ela é legal, mas é um pouco enjoadinha. Se o casal escutasse essa música no momento acima descrito, ele daria um tchau pra garota e iria embora.

"Crazy Mama": rock, parte 2! Um dos melhores rocks que a banda já fez. Saia pela rua berrando "Craaaaaazy Maaaama!!!!". Jagger e guitarras gritando, nada melhor do que os Stones relembrando o que eles sabem fazer melhor. Leia tudo o que eu falei sobre a música "Hand of Fate" e acrescente mais garra: a banda fecha o disco mostrando muita energia.

Daí para a frente, os Stones descambaram a fazer muitos discos fracos. Os que se salvam não chegam perto de nenhum disco feito até 1976, mas servem de consolo: Tatto You (1981), Steel Wheels (1989) e Voodoo Lounge (1994). O Bridges to Babylon (1997) é legalzinho, mas as porcarias do disco estragam belas faixas como "Saint of Me". Claro, há os discos ao vivo, que são sempre recomendados.

É isso. Fique igual seu avô: quando for falar sobre os Stones, olhe para atrás, fale sobre o passado.

Sukrilius é tenista arrependido e escreve neste espaço às segundas-feiras.

 

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