Mais uma vez chegou a hora de talvez
o meu texto mais aguardado, pelo menos por mim. Vou receber gozações,
ofensas e até elogios, mas é esta a graça,
a razão de se fazer um ranking: a polêmica.
Escutei mais ou menos 50 discos lançados neste ano, é
um número até razoável pra quem teve outras
colunas pra escrever (ok, nem tantas), trabalhou igual um cão
produzindo o Enne, trabalhou pior que um cão enquanto fez
um estágio e tentou em vão terminar a faculdade.
Os critérios do ranking são absolutamente pessoais
e subjetivos. Até dei chances pra bandas que achei o primeiro
álbum péssimo, como o Franz Ferdinand. Não
achei péssimo, achei "apenas" ruim, beliscou a
48ª posição graças à primeira música
do disco que é excelente. Mas o resto destoa e não
entra no meu Top 30.
Outras bandas que quase entraram no ranking foram o Gorillaz, com
o irregular Demon Days, Eric Clapton com o seu ducentésimo
disco de inéditas, os hypados do White Stripes, os elaborados
da Dave Matthews Band, além de Korn, Paralamas do Sucesso,
Sheryl Crow, Jamiroquai, Nação Zumbi (não tenho
QI pra entender os caras), Madonna, Kaiser Chiefs (britpop de segunda
divisão), Hellacopters, Billy Corgan, o Red Roses
do Ryan Adams, os adorados (não por aqui) do Arcade Fire,
Nine Inch Nails... E teve mais, mas não estou aqui pra falar
das ausências e sim de quem entrou no ranking.
Sem mais delongas, vamos ao meu Top 30 de 2005:
30
Beck
Guero
Álbum de múltiplas faces, discografia de múltiplas
faces. Beck Hansen abandona o folk triste e volta para as maluquices
que norteiam toda a sua elogiada carreira. Léguas de ser
um Odelay (1996), mas sem dúvida um bom disco. Destaque
pra "Que Onda Guero". Só não fica mais adiante
no ranking pois esbarra em alguns acessos de "cabecices"
do compositor.
29
Queens Of The Stone Age
Lullabies to Paralyze
Pior dos quatro discos dos caras, mas mesmo assim ainda aparecem
momentos brilhantes como "Medication", "Everybody
Knows That You're Insane", "Little Sister" e"I
Never Came". Pena que o resto não siga o mesmo nível.
Volta Nick Olivieri e deixem o Mark Lanegam cantar!
28
Mars Volta
Frances the Mute
As músicas do Mars Volta variam de momentos absolutamente
memoráveis (principalmente pela guitarra e bateria) com partes
terrivelmente chatas (graças à mesma guitarra e a
voz terrivelmente cansativa). Se eles pudessem "secar"
um pouco as canções e tirá-las exatamente o
melhor, era top 10 por aqui. A melhor é "The Widow".
27
Supergrass
Road to Rouen
Fiz uma resenha recentemente, mas esse
disco cresceu bastante no meu conceito nas últimas audições.
Está distante do fabuloso In It For the Money (1997),
mas honra a digna discografia dos caras. É um disco pretensioso,
muita pompa, luxo e opulência, nem sempre pretensão
significa evolução. É grandioso, mas não
é a maior obra deles. Recomendo a faixa "Tales of Endurance,
Parts 4, 5 & 6".
26
Ryan Adams
Jacksonville City Nights
Esse cara é foda. Lançou três discos neste ano,
dois mais ou menos do mesmo nível, outro (Red Roses)
um pouco abaixo. Se ele pegasse o melhor dos 3 discos, cravaria
no Top 5 sem pestanejar. É puro country rock, flertando com
Bob Dylan e com umas passagens deliciosamente bregas. Destaco a
"My Heart is Broken".
25
Ryan Adams
29
Aqui, com um pé mais forte no blues e no folk, às
vezes lembra um pouco Stones na década de 70, esse é
o melhor disco dele no ano, e o mais calmo, recheado de baladas.
Ouça deitado. Recomendo a faixa inicial, "29",
mas o disco é bem coeso.
24
Stereophonics
Language. Sex. Violence. Other.
Outro disco coeso, que não chama atenção.
Sempre deixam os "Phonics" meio que de lado em toda a
discussão de rock inglês, mas eles continuam firmes
e bons. O estilo mudou, mas a qualidade permanece. "Dakota"
é uma das músicas mais bonitas do ano.
23
Hopesfall
A-types
Rock californiano, desta vez com sotaque de Deftones. Produção
minuciosa, ótimo vocal e guitarras. É o trabalho mais
pop da banda e o que mais me chamou a atenção. "It
Happens", "Start and Pause" e "Breathe from
Coma" são ótimas.
22
The Coral
The Invisible Invasion
Mais um disco do Coral, e bom. Estão lançando um
disco por ano, desde 2002, e continuam frequentando meu ranking.
E com o habitual, aquele folk rock pra lá de datado, porém
eficiente, bem bacana. Melhores: "In the Morning" e "Something
Inside of Me".
21
Neil Young
Prairie Wind
O canadense sabe envelhecer, enveredando pelo melhor do folk. Disco
acima da média da discografia de Young, vale muito a pena
conferir e se deliciar com "Here For You", "He Was
the King" e "When God Made Me", quando Young pensava
que estava nas últimas.
20
Rolling Stones
A Bigger Bang
Desde a minha resenha sobre o mesmo, ele também está
agradando bem mais. Não possui uma sequência de clássicos,
mas está acima das porcarias que os Stones fizeram no finalzinho
da década de 70 e em boa parte da década de 80. Os
melhores momentos são "Let Me Down Slow", "She
Saw Me Coming", "Biggest Mistake", "This Place
is Empty" e "Oh No Not You Again".
19
Garbage
Bleed Like Me
O Garbage ainda não fez sua obra-prima, este é o
quarto bom disco, todos mais ou menos no mesmo nível. Dentro
do disco, tudo o que discorre em toda a sua discografia, ótimas
e péssimas faixas. As ótimas estão em maior
número e dentre elas, pra quem curte o rock eletrônico
deles, eu cito "Run Baby Run", "Why Do You Love Me",
"Bleed Like Me" e "Sex is Not the Enemy".
18
Audioslave
Out of Exile
Segundo disco sem surpresas. A voz do Cornell está lá,
o instrumental bacana também, as baladas infestam e o rock
também aparece. Nada absolutamente fantástico, mas
nada decepcionante, esses quatro caras são bons e quando
não revolucionam, só fazem o que sabem fazer, já
ficam em uma posição de honra. Destaques: "Your
Time Has Come", "Out of Exile", "Be Yourself",
"Doesn't Remind Me", "Heaven's Dead" e "Dandelion".
17
Coldplay
X & Y
O Coldplay alcançou esta posição porque são
muito bons e cravaram algumas canções lindas, como
"Square One", "What If", "Fix You",
"X & Y", "Swallowed in the Sea" e "'Til
the Kingdom Come". Não foram adiante porque resolveram
criar a oitava maravilha do mundo e capricharam demais em tudo.
E como tudo em exagero faz mal e/ou engorda, X & Y
é um balofo simpático que, por causa de sua teimosia
(banda? Produtor do disco?), não quis perder peso e não
teve fôlego pra chegar mais adiante. As demos desse disco
devem ser bem melhores.
16
Wallflowers
Rebel, Sweetheart
A banda renasce, desde o excelente Bringing Down the Horse
(1996) que vendeu milhões de cópias em todo o mundo,
os caras não faziam um disco tão bom. Jakob Dylan
parece que herdou do pai o dom das belas melodias (nas letras não
dá pra alcançar), retorno triunfante. Destaques: "Days
of Wonder", "The Passenger", "The Beautiful
Side of Somewhere" e "We're Already There".
15
Paul McCartney
Chaos and Creation In The Backyard
Paul sabe os atalhos do pop como ninguém. Nenhum ser vivo
consegue com poucas notas no piano e outras na voz emocionar tanto.
Ele tem um dom, que foi muito bem aproveitado em boa parte deste
disco, com ótimos
arranjos. Destaco "Fine Line", "At the Mercy",
"English Tea", "Too Much Rain" e "Promise
to You Girl".
14
Sigur Rós
Takk
"Takk" significa em islandês "obrigado".
É isso que todos devem dizer após ouvir o mais recente
álbum deles. Uma das maiores surpresas do ano, ao lado de
outra banda, que logo mais eu falo. COm um extremo bom gosto nas
melodias, o Sigur Rós faz um som pra se escutar quando se
está em viagem astral, pra quem acredita nisso, ou pra quando
a gente (?) for pro céu, ou lá pra baixo mesmo. Som
pra viajar, se desprender de tudo. Os mais desavisados vão
chamar de new age, mas seria um absurdo, pois os arranjos e os vocais
estão bem acima disso. É de arrepiar, deite na cama
e escute. E boa viagem. Os títulos das músicas são
fáceis, as minhas prediletas são "Hoppípolla",
"Mea Aleanasir" e "Sélest", mas as demais
também apresentam um bom gosto absurdo nos arranjos e melodias.
13
Pato Fu
Toda Cura Para Todo Mal
Pop sofisticado. John nunca esteve tão à vontade
pra colocar em prática suas maluquices, às vezes com
muito êxito, em outras vezes, um belo escorregão. Produção
caprichada, pode não ter a densidade pop de um Isopor
nem ser despojado como Televisão de Cachorro, mas
depois de um hiato, o Pato Fu retorna fazendo o que mais gosta,
e fazendo muito bem. "Agridoce" é talvez a música
nacional mais bonita de 2005, mas também destaco "Anormal",
"Sorte e Azar", "Amendoim", "No Aeroporto"
e "!".
12
Black Rebel Motorcycle Clube
Howl
A maior surpresa do ano. O BRMC sempre se enveredeou pelo rock,
algo na praia dos Strokes e de todas aquelas bandas "do momento",
bem distante dos instrumentos acústicos. E vem Howl,
um disco folk. Isso! E mais,
maravilhoso. Lembra bastante as passagens mais folk de Led Zeppelin,
Rolling Stones, além dos clichês Bob Dylan e Bruce
Springsteen. "Howl", "Devil's Saitin'", "Ain't
No Easy Way", "Promise" e "Weight of the World"
são lindas, obrigatórias.
11
Doves
Some Cities
O Doves chega a seu melhor disco, fazendo aquele rock inglês
climático, com um pézinho na turma de Coldplay e seus
asseclas e em coisas mais rock, com mais pegada. Neste álbum,
toda esta fórmula funciona da melhor maneira possível,
sem exageros e com muita emoção. Ouça "Some
Cities", "Black & White Town", "Almost Forget
Myself", "Walk on Fire" e "Sky Starts Falling",
depois comprove.
10
Starsailor
On The Outside
Cansou a me convencer, mas como convenceu! Segundo melhor disco
de rock inglês de 2005, os caras carregam o britpop no gene
mas fazem algo bem superior, com melodias primorosas, mantendo o
nível dos dois discos anteriores. As melhores são
"In the Crossfire", "Conterfelt Like", "Faith
Hope Love", "I Don't Know" e "Keep Us Together".
9
John Frusciante
Curtains
No início do ano passado, o genial guitarrista do Red Hot
Chili Peppers lançou o último de seus vários
discos em seqüência (um por mês). Em janeiro, chegou
em meus ouvidos mais este prato cheio, bem calmo, bem sutil. Pode
baixar "The Past Recedes", "A Name", "Your
Warning", "Hope" e "Leap Your Bar".
8
Cardigans
Super Extra Gravity
Cardigans definitivamente trocou os dias ensolarados e felizes
por dias fechados e introspectivos. E se deu muito bem. A mudança,
ensaiada em Gran Turismo (1998), veio com toda a força
no maravilhoso Long Gone Before Daylight (2003) e se estabelece
agora, com este belo álbum. "Losing a Friend",
"Godspell", "I Need Some Fine Wine and You Need to
be Nicer" e "Don't Blame Your Daughter" são
exemplos de que os suecos estão inspiradíssimos.
7
Udora
Liberty Square
A antiga banda Diesel, de Belo Horizonte, se estabeleceu em Los
Angeles, mudou de nome e de proposta. Agora fazem um rock bem pop,
frio e de qualidade. As provas são "Light in a Hole",
"Liberty Square", "Fade Away", "Breathing
Life", "Wake Up Dead Man", "Pieces", "Faith
& Reason" e "When It Ends".
6
Weezer
Make Believe
É o mais calmo, pop e (talvez) belo disco do Weezer. Agrada
logo na primeira audição, Rivers Cuomo despeja sua
filosofia nerd (bem inocente às vezes), as melodias são
previsíveis, mas agradam em cheio. Típico disco do
Weezer dos primeiros anos, mas bem mais pop e agradável.
Talvez só perca pro "Blue Album". Destaco "Perfect
Situation", "Hold Me", "Peace", "The
Damage in Your Heart", "Pardon Me", "Freak Me
Out" e "Haunt You Everyday".
5
Foo Fighters
In Your Honor
Discão. Se pegasse as 5 melhores do disco 1 e as 5 do disco
2, seria o melhor do ano. Se separasse em 2 discos (como o System
of a Down fez), o disco 1 (o "rock") beliscaria a terceira
posição. Mesmo assim, este álbum reúne
canções memoráveis de uma banda espetacular.
Destaques: "No Way Back" (talvez a melhor música
de 2005), "Best of You", "D.O.A.", "Resolve",
"The Deepest Blues Are Back", "End Over End",
"What If I Do?", "Miracle", "Another Round",
"Virginia Moon" e "Cold Day in the Sun".
4
Oasis
Don't Believe the Truth
Depois de muitos anos, o Oasis fez um disco pra justificar toda
a arrogância dos caras. Os Gallagher podem voltar a dizer
que são os melhores etc e tal, porque possuem credencial
com este disco, que é um primor. "Turn Up the Sun",
"Mucky Fingers", "Lyla", "Love's Like a
Bomb", "The Importance of Being Idle", "Guess
God Thinks I'm Abel",
"Part of the Queue" e "Let There Be Love" são
provas que os melhores momentos dos reis do marketing voltaram.

3
And You Will Know Us By Trail Of Dead
Worlds Apart
Lindo, sublime, espetacular. O Trail of Dead cometeu uma sucessão
de clássicos, músicas lindas. Corais, arranjos orquestrados,
crianças, rock, Pink Floyd, Beatles, barulho, pompa. Tudo
misturado e muito bem servido. Os destaques se enfileiram no encarte
do disco: "Will You Smile Again?", "Worlds Apart",
"The Summer of '91", "Caterwaul", "A Classic
Arts Showcase", "Let It Dive" e "All White".

2
System Of a Down
Hypnotize

1
System Of a Down
Mezmerize
Dois atos, uma só conclusão. Em uma sessão
de gravação, nasceram 23 músicas, nas quais
a grande maioria recebeu a nota máxima. Não sei se
é heavy metal, se é uma nova vertente do metal, só
sei que o System of a Down lapidou e otimizou suas músicas.
Barulho da melhor qualidade, assuste a sua tia, cause má
impressão na sua avó e se satisfaça com dois
petardos do melhor que apareceu no rock no ano que passou. Discos
absolutamente necessários.

Volto quando puder, mas volto. Até lá.
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indispensável.
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