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Beagá, 02 de janeiro de 2006 d.C.
 
Udora, pronto para recomeçar
Por Sukrilius
 

"Eu gosto muito do nosso disco em termos de música pop. Esse é o nosso Outlandos D'amour. Ainda vamos lancar o Sinchronicity".

A referência do Police reflete claramente o propósito do Udora e ainda mais do disco Liberty Square. É um início, um recomeço. É o pontapé inicial e que, provavelmente, o melhor ainda está por vir.

Escrever sobre o Udora é demasiadamente difícil pra mim. Me faz lembrar das coisas que senti, das coisas que escrevia na época do Diesel, banda antiga dos caras. Inclusive, meu primeiro texto por aqui, meu texto de estréia no Abacaxi Atômico, no dia 30 de julho de 2001, foi sobre o Diesel.

Mais de 4 anos depois, cai em minhas mãos Liberty Square, disco deestréia do Udora, banda que possui os mesmos integrantes do Diesel, mas as semelhanças param aí. Nas primeiras audições eu confesso que não gostava, reclamei mesmo, porque eu sempre tenho o Diesel como referência, se eu comparar Udora com Diesel, Udora perde. E perde feio.

Udora é muito melhor tocado, infinitamente melhor produzido (Thom Russo dispensa apresentações), os caras estão muito mais maduros, muito mais conscientes e com muito mais bagagem musical. Mas tem um detalhe: em 2000, o disco Diesel fez um estrago que até hoje não foi remediado e jamais será. É algo absolutamente pessoal, naquele momento da minha vida o disco foi essencial, sendo ele bom ou não, tendo defeitos ou não. Eu me identifico com a "tosquice", com sujeira, com a agressividade e até a inocência e inconseqüência do Diesel. Liberty Square é tiozão careta, é o cara que já sabe o que é bom ou ruim e pega os atalhos, o caminho certo, sabe que fazer uma melodia que agrade bem os ouvidos e melhor do que estardalhaços e mudanças de andamento.

Enfim, Udora é o conseqüente amadurecimento do Diesel, com todas as coisas boas e más que nisto resulta. Mas seria um erro avaliar Udora pensando em Diesel, por justiça deve-se separar as coisas. É claro que fica um gostinho na boca, se você conhece os caras e já viu um show deles, sabe que eles podem fazer muito mais, mas se os caras estão gostando e possuem convicção do que estão fazendo, deve-se respeitar, gostando ou não.

Liberty Square é aprovado com poucas ressalvas, ainda nota-se (pra quem queira saber) alguns pequenos resquícios de Diesel em algumas canções que eram antigas da banda e que foram transformadas e adaptadas, como por exemplo "Liberty Square".

O disco apresenta algumas canções da fase Udora mais antiga, que na minha opinião foi quando eles fizeram as melhores canções, pois possuíam a "índole" do Diesel e a "produção" do Udora. Desta safra, saíram canções maravilhosas, como "Mosh Pit Anthem" (que virou "Wake Up Dead Man"), "Nova" e "Pieces" (que aqui ganha um novo arranjo).

O disco é rock pra tocar no rádio, mas tem qualidade, é bem feito. As canções são simples, com riffs que fazem alusão com o refrão que ainda irá chegar, sem muitas novidades nas estruturas de como fazer uma canção (até fruto das novas influências da banda, de grupos como Clash e Police). As músicas descem fácil, não surpreendem, aliás surpreendem pela qualidade da gravação, pela produção minuciosa. Mas pode causar alguma decepção em quem espera a "next big thing", um susto como foi o Diesel. O Udora não traz novidade, traz uma gama de boas canções e isso não é pouco, vamos fazer justiça.

"The Beautiful Game" é um bom começo, com o riff manjado que já te pega na primeira audição. Já em "Light in a Hole", principalmente na 'bridge' (ponte pro refrão) eu percebo alguns ecos de Stereophonics, outra boa canção, com boa batera e timbres de guitarra, algo que costumava divergir.

"Liberty Square" eu chamaria de "heavy bossa nova", a parte mais calma da canção tem uma levada de bossa nova, mas como uma, digamos, afinação power, mas pelas vias do rock. E tem um trecho mais "sujo", que vai fazer a alegria dos fãs do finado Diesel.

"Fade Away" é perfeita, aliás, quase. Não gosto do efeito usado no solo de guitarra no finalzinho da canção, mas isto não tira o brilho de maneira nenhuma. Excelente. "Breathing Life" é uma baladona, pronta pras rádios. Tirando um detalhe aqui e ali de uma das guitarras, a música é uma beleza, com uma letra tão bela que chega a ser brega: "I'll carry this world on my shoulders / If you stay".

"Change of Tide" e "Dear Nostalgia" são dois tropeços, duas canções que poderiam ficar de fora, as guitarras são bem enjoadas... Alguns trechos até convencem, mas no final dá vontade de apertar o >>.

"Wake Up Dead Man" é um dos destaques do disco. Linda, principalmente por causa da bridge, uma das melhores coisas que já escutei "I count the minutes for you to understand this". O início já te pega, é matador. O resto segue no mesmo nível, é maravilhosa.

"Phantom Limb" está pronta pra tocar em seriados e filmes românticos. Balada açucarada e o mais interessante: linda. Vai tocar no rádio até gastar, é interessante observar o vocal do Gustavo, muito diferente da época do Diesel.

"Pieces" sempre foi minha faixa predileta. Perfeita. Só não é mais perfeita que a versão mais antiga, que era mais pesada, mais suja, mais berrada, lembrava mais o Diesel. E tinha um final mais legal, que não acabava abruptamente. Mais ainda assim é "Pieces", a melhor. Não dá pra não ficar gritando: "All pieces remain intact / It's coming, coming / I know I know I know / It's gonna take some time", aí você ainda grita um "yeah, yeah" que foi tragicamente excluído na versão final.

"Faith & Reason": excelente, ótimas guitarras, vocal encaixa perfeitamente na melodia, que apresenta um ótimo refrão. Sem dúvida, outro destaque. "When It Ends" é linda também, no início eu impliquei um pouco com esse riff inicial da guitarra, mas não dá pra negar o peso que a música carrega, mesmo arrastada ela soa pesada, letra e melodia.

"The Song You'll Never Hear" é bacana, não me chama tanto a atenção, mas fica acima da média, graças às ótimas guitarras e ao refrão forte. Apesar de repetitiva, "See You Later" também apresenta um resultado positivo, fecha bem o disco.

Portanto, quem espera algo parecido com o Diesel, fuja. Caso contrário dê uma chance, aguarde, porque provavelmente o melhor ainda está por vir.

Segue uma entrevista por e-mail que fiz com Gustavo Drummond, vocalista e guitarrista do Udora:

AA: Em 2001, vocês ainda como Diesel foram pros EUA alimentados pela esperança de desbravar um novo país, uma nova cultura e tentar se estabelecer por lá. Sabemos que isso não é nada fácil. Conte como foram os primeiros meses por aí e como atualmente vocês estão vivendo.

GD: A gente chegou aqui em Outubro de 2001 e nos primeiros trinta dias moramos dentro de uma van,
trabalhando em sub-empregos, mas logo assinamos contrato com a J records, que viabilizou uma casa pra gente morar e ensaiar. Fizemos uma turnê de 45 datas e um disco pela J, que terminou não sendo lançado. Nós nos desvinculamos do contrato por causa disso. Voltamos para os sub-empregos, mas não queríamos ir embora dos EUA antes de absorver a cultura, o dia-dia e poder lançar um disco que sintetizasse a experiência de tudo o que vivemos. O álbum Liberty Square é o produto de quatro anos de imersão em um outra realidade com sistemas de valores diferentes e trata da dualidade entre a Praça da Liberdade física que deixamos pra trás em BH e a metafórica, a praça da liberdade musical e da vida em geral, onde sempre desejamos chegar. Não chega a ser um álbum conceitual, mas há uma temática constante que percorre as letras do disco.

AA: Como todas as transformações (nova cultura, novos amigos, abrir de mãos de família e amizades antigas) resultaram na feitura deste trabalho? Um disco é resultado do meio em que está inserido, é a obra, a continuidade da vida e das experiências passadas pelo artista. Mudou muita coisa de 2001 pra cá, provavelmente mudaram as influências, não só na esfera musical, vocês estão quatro anos mais velhos. O que isso refletiu em Liberty Square?

GD: Tudo refletiu de uma maneira radical. Quatro anos se passaram e nós entramos em outro circuito musical, com outras tendências e sensos de estética. Tendo em vista que o que foi absorvido por nós, e por mim em particular enquanto compositor, o resultado musical não poderia ser igual, nem mesmo similar ao que havíamos feito anteriormente, até porque nós nos tornamos pessoas diferentes.

AA: Vocês gravaram várias canções quando assinaram com o selo J Records. Estas canções estão presas por algum contrato, vocês não poderão utilizá-las? Ou vocês não querem reaproveitá-las porque elas mesmo sendo recentes já não refletem o espírito da banda agora?

GD: As gravações que fizemos enquanto contratados da J são de posse deles e não podem ser utilizadas a não ser que alguém pague a eles o que foi gasto (muita grana). Já as músicas em si são nossas, e algumas como "Pieces", foram regravadas para entrar no Liberty Square. A maioria das outras musicas da fase J são músicas do disco Diesel, regravadas com mínimas mudancas nos arranjos. Como já havíamos vivido intensamente o ciclo dessas musicas há alguns anos e estamos em outra fase de identificação musical, não nos incomoda que o disco esteja "arquivado".

AA: Como é o cenário das bandas independentes aí nos EUA, mais precisamente na Califórnia, onde vocês estão?

GD: O cenário é incrível. Tem bandas boas pra tudo quanto é lado, de todas as tendências e estilos. Pra gente, é muito bom estar envolvido num meio que tem tanto talento, esforço e estrutura. A gente toca bastante com bandas tipo Cage9, Porcelain, Midnight to Twelve, The Hatch, Comes with the Fall, etc.

AA: Como foi o processo de gravação de Liberty Square? Como foi trabalhar com Thom Russo?

GD: Foi demorado e difícil. Mas tivemos a sorte de encontrar o Thom, que nos guiou e nos apresentou os melhores timbres que poderíamos ter sonhado em gravar. Ele é uma entidade musical super desenvolvida, com comando total sobre o que faz. Entende muito de songwriting, estilos, eras, décadas, opções estéticas e é também um grande conciliador de temperamentos e contador de histórias.

AA: Vocês encaram o lançamento de Liberty Square como um recomeço? Quando o disco Diesel saiu, vocês tiveram que lutar muito pra divulgá-lo. Agora em 2005, em um novo país, a situação é semelhante. O disco chega até vocês, dá aquela satisfação tremenda de dever cumprido, mas ao mesmo tempo de que o trabalho só está começando? Passa uma sensação semelhante de que "já fizemos isso antes", mais ou menos na mesma proporção?

GD: Com certeza. Cada disco lançado é um recomeço mas estamos muito empolgados com o resultado que o disco tem gerado nas pessoas, nas rádios e na crítica especializada.

AA: O que você diria pra um moleque que tem uma banda independente e que quer cantar em inglês e quer levar isso a sério?

GD: Diria pra ele cantar em português se ele não estiver preparado pra enfrentar um caminho dez vezes mais longo e que demanda uma entrega quase sobre-humana.

AA: Você está por dentro do que está rolando no Brasil? Você acompanha as bandas, até mesmo as independentes?

GD: Pela internet e por amigos fico sabendo por alto o que rola, as bandas mais populares, etc. Infelizmente nao dá pra ter aquele conhecimento próprio de quem mora aí, mas pelo menos não fico totalmente desconectado.

AA: O cenário underground daí é muito diferente? Claro, as condições econômicas são distintas, mas pra uma banda ter seu trabalho reconhecido de alguma forma, entrar no circuito, ter um certo knowhow é tão penoso quanto aqui?

GD: Acho que é muito mais penoso, principalmente por conta da competição. São tantas bandas, com tantos atrativos, que você tem que estar sempre buscando um diferencial pra se sobressair. É por isso que existem bandas que tocam pintadas, com máscara de palhaço, que cospem fogo, que tem anão como sidekick, etc. Tudo vale pra chamar a atenção num meio que é muito desenvolvido em termos de estrutura, mas que ao mesmo tempo é muito saturado pela quantidade.

AA: Sempre que viajo, quando os caras descobrem que sou de BH, perguntam sobre vocês. Isso acontece em Goiânia, Rio Branco, São Gonçalo/RJ, Recife ou São Paulo. Vocês fazem idéia de como a banda ainda possui fãs? Ou vocês temem de alguma forma a recepção, já que agora é outra banda, outra proposta, outro som?

GD: A gente sempre acreditou no nosso som, seja qual fosse a proposta. O que prometemos é que vamos tocar nossas músicas e defender nossas escolhas com a mesma convicção e emoção de sempre e isso nunca vai mudar. A gente também tem ciência que é impossível controlar o gosto das pessoas, mas ao mesmo tempo temos fé que muitos gostarão e saberão apreciar a essência do nosso trabalho.

AA: Agora, a pergunta mais óbvia e que você mais escuta, haha...

GD: Ultimamente tenho estado na febre do Zwan e qualquer coisa que o Billy Corgan fez. The Clash, The Police, Sex Pistols são grandes referências, Feist, Frou Frou, Razorlight, Paul McCartney e Antônio Carlos Jobim (o iluminado) sempre estão no meu CD player.

AA: Enfim, quando o Udora tocará aqui? Alguma previsão?

GD: Nossa intenção é de fazer uma boa turnê aqui nos EUA e manter os dedos cruzados para que aconteça um patrocínio, ou que alguma grana entre para que possamos viabilizar uma turnê no Brasil. Infelizmente não há previsão concreta, mas há muita vontade da nossa parte.

Próxima coluna será a manjadíssima e polêmica: o ranking dos melhores discos de 2005. Esperem que valerá a pena. Até!

Links do Sukrilius:

Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique aqui.

www.enne.com.br - banda de rock que eu produzo.

www.udora.com, www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net e www.moldest.com - Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.

merrymelodies.blogger.com.br - blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.

perplexoes.blogger.com.br - blog da Menina Enciclopédia, também comparsa do ABACAXI ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.

dyingdays.net/index.html - site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente indispensável.

 
Sukrilius é músico frustrado e tenista arrependido, além de estar momentaneamente desempregado. Ofertas de emprego podem ser enviadas para o e-mail sukrilius@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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