"Eu gosto muito do nosso disco
em termos de música pop. Esse é o nosso Outlandos
D'amour. Ainda vamos lancar o Sinchronicity".
A referência do Police reflete claramente o propósito
do Udora e ainda mais do disco Liberty Square. É
um início, um recomeço. É o pontapé
inicial e que, provavelmente, o melhor ainda está por vir.
Escrever sobre o Udora é demasiadamente difícil pra
mim. Me faz lembrar das coisas que senti, das coisas que escrevia
na época do Diesel, banda antiga dos caras. Inclusive, meu
primeiro texto por aqui, meu
texto de estréia no Abacaxi Atômico, no dia 30
de julho de 2001, foi sobre o Diesel.
Mais de 4 anos depois, cai em minhas mãos Liberty Square,
disco deestréia do Udora, banda que possui os mesmos integrantes
do Diesel, mas as semelhanças param aí. Nas primeiras
audições eu confesso que não gostava, reclamei
mesmo, porque eu sempre tenho o Diesel como referência, se
eu comparar Udora com Diesel, Udora perde. E perde feio.
Udora é muito melhor tocado, infinitamente melhor produzido
(Thom Russo dispensa apresentações), os caras estão
muito mais maduros, muito mais conscientes e com muito mais bagagem
musical. Mas tem um detalhe: em 2000, o disco Diesel fez
um estrago que até hoje não foi remediado e jamais
será. É algo absolutamente pessoal, naquele momento
da minha vida o disco foi essencial, sendo ele bom ou não,
tendo defeitos ou não. Eu me identifico com a "tosquice",
com sujeira, com a agressividade e até a inocência
e inconseqüência do Diesel. Liberty Square
é tiozão careta, é o cara que já sabe
o que é bom ou ruim e pega os atalhos, o caminho certo, sabe
que fazer uma melodia que agrade bem os ouvidos e melhor do que
estardalhaços e mudanças de andamento.
Enfim, Udora é o conseqüente amadurecimento do Diesel,
com todas as coisas boas e más que nisto resulta. Mas seria
um erro avaliar Udora pensando em Diesel, por justiça deve-se
separar as coisas. É claro que fica um gostinho na boca,
se você conhece os caras e já viu um show deles, sabe
que eles podem fazer muito mais, mas se os caras estão gostando
e possuem convicção do que estão fazendo, deve-se
respeitar, gostando ou não.
Liberty Square é aprovado com poucas ressalvas,
ainda nota-se (pra quem queira saber) alguns pequenos resquícios
de Diesel em algumas canções que eram antigas da banda
e que foram transformadas e adaptadas, como por exemplo "Liberty
Square".
O disco apresenta algumas canções da fase Udora mais
antiga, que na minha opinião foi quando eles fizeram as melhores
canções, pois possuíam a "índole"
do Diesel e a "produção" do Udora. Desta
safra, saíram canções maravilhosas, como "Mosh
Pit Anthem" (que virou "Wake Up Dead Man"), "Nova"
e "Pieces" (que aqui ganha um novo arranjo).
O disco é rock pra tocar no rádio, mas tem qualidade,
é bem feito. As canções são simples,
com riffs que fazem alusão com o refrão que ainda
irá chegar, sem muitas novidades nas estruturas de como fazer
uma canção (até fruto das novas influências
da banda, de grupos como Clash e Police). As músicas descem
fácil, não surpreendem, aliás surpreendem pela
qualidade da gravação, pela produção
minuciosa. Mas pode causar alguma decepção em quem
espera a "next big thing", um susto como foi o Diesel.
O Udora não traz novidade, traz uma gama de boas canções
e isso não é pouco, vamos fazer justiça.

"The Beautiful Game" é um bom começo, com
o riff manjado que já te pega na primeira audição.
Já em "Light in a Hole", principalmente na 'bridge'
(ponte pro refrão) eu percebo alguns ecos de Stereophonics,
outra boa canção, com boa batera e timbres de guitarra,
algo que costumava divergir.
"Liberty Square" eu chamaria de "heavy bossa nova",
a parte mais calma da canção tem uma levada de bossa
nova, mas como uma, digamos, afinação power, mas pelas
vias do rock. E tem um trecho mais "sujo", que vai fazer
a alegria dos fãs do finado Diesel.
"Fade Away" é perfeita, aliás, quase. Não
gosto do efeito usado no solo de guitarra no finalzinho da canção,
mas isto não tira o brilho de maneira nenhuma. Excelente.
"Breathing Life" é uma baladona, pronta pras rádios.
Tirando um detalhe aqui e ali de uma das guitarras, a música
é uma beleza, com uma letra tão bela que chega a ser
brega: "I'll carry this world on my shoulders / If you stay".
"Change of Tide" e "Dear Nostalgia" são
dois tropeços, duas canções que poderiam ficar
de fora, as guitarras são bem enjoadas... Alguns trechos
até convencem, mas no final dá vontade de apertar
o >>.
"Wake Up Dead Man" é um dos destaques do disco.
Linda, principalmente por causa da bridge, uma das melhores coisas
que já escutei "I count the minutes for you to understand
this". O início já te pega, é matador.
O resto segue no mesmo nível, é maravilhosa.
"Phantom Limb" está pronta pra tocar em seriados
e filmes românticos. Balada açucarada e o mais interessante:
linda. Vai tocar no rádio até gastar, é interessante
observar o vocal do Gustavo, muito diferente da época do
Diesel.
"Pieces" sempre foi minha faixa predileta. Perfeita.
Só não é mais perfeita que a versão
mais antiga, que era mais pesada, mais suja, mais berrada, lembrava
mais o Diesel. E tinha um final mais legal, que não acabava
abruptamente. Mais ainda assim é "Pieces", a melhor.
Não dá pra não ficar gritando: "All pieces
remain intact / It's coming, coming / I know I know I know / It's
gonna take some time", aí você ainda grita um
"yeah, yeah" que foi tragicamente excluído na versão
final.
"Faith & Reason": excelente, ótimas guitarras,
vocal encaixa perfeitamente na melodia, que apresenta um ótimo
refrão. Sem dúvida, outro destaque. "When It
Ends" é linda também, no início eu impliquei
um pouco com esse riff inicial da guitarra, mas não dá
pra negar o peso que a música carrega, mesmo arrastada ela
soa pesada, letra e melodia.
"The Song You'll Never Hear" é bacana, não
me chama tanto a atenção, mas fica acima da média,
graças às ótimas guitarras e ao refrão
forte. Apesar de repetitiva, "See You Later" também
apresenta um resultado positivo, fecha bem o disco.
Portanto, quem espera algo parecido com o Diesel, fuja. Caso contrário
dê uma chance, aguarde, porque provavelmente o melhor ainda
está por vir.


Segue uma entrevista por e-mail que fiz com Gustavo Drummond, vocalista
e guitarrista do Udora:
AA: Em 2001, vocês ainda como Diesel foram pros EUA
alimentados pela esperança de desbravar um novo país,
uma nova cultura e tentar se estabelecer por lá. Sabemos
que isso não é nada fácil. Conte como foram
os primeiros meses por aí e como atualmente vocês estão
vivendo.
GD: A gente chegou aqui em Outubro de 2001 e nos primeiros trinta
dias moramos dentro de uma van,
trabalhando em sub-empregos, mas logo assinamos contrato com a J
records, que viabilizou uma casa pra gente morar e ensaiar. Fizemos
uma turnê de 45 datas e um disco pela J, que terminou não
sendo lançado. Nós nos desvinculamos do contrato por
causa disso. Voltamos para os sub-empregos, mas não queríamos
ir embora dos EUA antes de absorver a cultura, o dia-dia e poder
lançar um disco que sintetizasse a experiência de tudo
o que vivemos. O álbum Liberty Square é o
produto de quatro anos de imersão em um outra realidade com
sistemas de valores diferentes e trata da dualidade entre a Praça
da Liberdade física que deixamos pra trás em BH e
a metafórica, a praça da liberdade musical e da vida
em geral, onde sempre desejamos chegar. Não chega a ser um
álbum conceitual, mas há uma temática constante
que percorre as letras do disco.
AA: Como todas as transformações (nova cultura,
novos amigos, abrir de mãos de família e amizades
antigas) resultaram na feitura deste trabalho? Um disco é
resultado do meio em que está inserido, é a obra,
a continuidade da vida e das experiências passadas pelo artista.
Mudou muita coisa de 2001 pra cá, provavelmente mudaram as
influências, não só na esfera musical, vocês
estão quatro anos mais velhos. O que isso refletiu em Liberty
Square?
GD: Tudo refletiu de uma maneira radical. Quatro anos se passaram
e nós entramos em outro circuito musical, com outras tendências
e sensos de estética. Tendo em vista que o que foi absorvido
por nós, e por mim em particular enquanto compositor, o resultado
musical não poderia ser igual, nem mesmo similar ao que havíamos
feito anteriormente, até porque nós nos tornamos pessoas
diferentes.
AA: Vocês gravaram várias canções
quando assinaram com o selo J Records. Estas canções
estão presas por algum contrato, vocês não poderão
utilizá-las? Ou vocês não querem reaproveitá-las
porque elas mesmo sendo recentes já não refletem o
espírito da banda agora?
GD: As gravações que fizemos enquanto contratados
da J são de posse deles e não podem ser utilizadas
a não ser que alguém pague a eles o que foi gasto
(muita grana). Já as músicas em si são nossas,
e algumas como "Pieces", foram regravadas para entrar
no Liberty Square. A maioria das outras musicas da fase
J são músicas do disco Diesel, regravadas
com mínimas mudancas nos arranjos. Como já havíamos
vivido intensamente o ciclo dessas musicas há alguns anos
e estamos em outra fase de identificação musical,
não nos incomoda que o disco esteja "arquivado".
AA: Como é o cenário das bandas independentes
aí nos EUA, mais precisamente na Califórnia, onde
vocês estão?
GD: O cenário é incrível. Tem bandas boas
pra tudo quanto é lado, de todas as tendências e estilos.
Pra gente, é muito bom estar envolvido num meio que tem tanto
talento, esforço e estrutura. A gente toca bastante com bandas
tipo Cage9, Porcelain, Midnight to Twelve, The Hatch, Comes with
the Fall, etc.
AA: Como foi o processo de gravação de Liberty
Square? Como foi trabalhar com Thom Russo?
GD: Foi demorado e difícil. Mas tivemos a sorte de encontrar
o Thom, que nos guiou e nos apresentou os melhores timbres que poderíamos
ter sonhado em gravar. Ele é uma entidade musical super desenvolvida,
com comando total sobre o que faz. Entende muito de songwriting,
estilos, eras, décadas, opções estéticas
e é também um grande conciliador de temperamentos
e contador de histórias.
AA: Vocês encaram o lançamento de Liberty
Square como um recomeço? Quando o disco Diesel
saiu, vocês tiveram que lutar muito pra divulgá-lo.
Agora em 2005, em um novo país, a situação
é semelhante. O disco chega até vocês, dá
aquela satisfação tremenda de dever cumprido, mas
ao mesmo tempo de que o trabalho só está começando?
Passa uma sensação semelhante de que "já
fizemos isso antes", mais ou menos na mesma proporção?
GD: Com certeza. Cada disco lançado é um recomeço
mas estamos muito empolgados com o resultado que o disco tem gerado
nas pessoas, nas rádios e na crítica especializada.
AA: O que você diria pra um moleque que tem uma banda
independente e que quer cantar em inglês e quer levar isso
a sério?
GD: Diria pra ele cantar em português se ele não estiver
preparado pra enfrentar um caminho dez vezes mais longo e que demanda
uma entrega quase sobre-humana.
AA: Você está por dentro do que está
rolando no Brasil? Você acompanha as bandas, até mesmo
as independentes?
GD: Pela internet e por amigos fico sabendo por alto o que rola,
as bandas mais populares, etc. Infelizmente nao dá pra ter
aquele conhecimento próprio de quem mora aí, mas pelo
menos não fico totalmente desconectado.
AA: O cenário underground daí é muito
diferente? Claro, as condições econômicas são
distintas, mas pra uma banda ter seu trabalho reconhecido de alguma
forma, entrar no circuito, ter um certo knowhow é tão
penoso quanto aqui?
GD: Acho que é muito mais penoso, principalmente por conta
da competição. São tantas bandas, com tantos
atrativos, que você tem que estar sempre buscando um diferencial
pra se sobressair. É por isso que existem bandas que tocam
pintadas, com máscara de palhaço, que cospem fogo,
que tem anão como sidekick, etc. Tudo vale pra chamar a atenção
num meio que é muito desenvolvido em termos de estrutura,
mas que ao mesmo tempo é muito saturado pela quantidade.
AA: Sempre que viajo, quando os caras descobrem que sou
de BH, perguntam sobre vocês. Isso acontece em Goiânia,
Rio Branco, São Gonçalo/RJ, Recife ou São Paulo.
Vocês fazem idéia de como a banda ainda possui fãs?
Ou vocês temem de alguma forma a recepção, já
que agora é outra banda, outra proposta, outro som?
GD: A gente sempre acreditou no nosso som, seja qual fosse a proposta.
O que prometemos é que vamos tocar nossas músicas
e defender nossas escolhas com a mesma convicção e
emoção de sempre e isso nunca vai mudar. A gente também
tem ciência que é impossível controlar o gosto
das pessoas, mas ao mesmo tempo temos fé que muitos gostarão
e saberão apreciar a essência do nosso trabalho.
AA: Agora, a pergunta mais óbvia e que você
mais escuta, haha...
GD: Ultimamente tenho estado na febre do Zwan e qualquer coisa
que o Billy Corgan fez. The Clash, The Police, Sex Pistols são
grandes referências, Feist, Frou Frou, Razorlight, Paul McCartney
e Antônio Carlos Jobim (o iluminado) sempre estão no
meu CD player.
AA: Enfim, quando o Udora tocará aqui? Alguma previsão?
GD: Nossa intenção é de fazer uma boa turnê
aqui nos EUA e manter os dedos cruzados para que aconteça
um patrocínio, ou que alguma grana entre para que possamos
viabilizar uma turnê no Brasil. Infelizmente não há
previsão concreta, mas há muita vontade da nossa parte.

Próxima coluna será a manjadíssima e polêmica:
o ranking dos melhores discos de 2005. Esperem que valerá
a pena. Até!
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