Qual é a relevância de mais um disco dos Rolling Stones, sendo que estamos em 2005, oito anos após o último disco de inéditas, o bonzinho Bridges to Babylon?
Não sei, eu só queria começar a coluna com uma pergunta (haha). Hoje, qualquer porcaria que é empurrada pela mídia chama mais a atenção do que o enésimo disco de uma banda que é de 1962 e não tem o 'hype' de uma recomendação do Lúcio Ribeiro ou não é 'cool' como aquele artista que ganhou "play" do Álvaro Pereira Jr. na Folha.
A Bigger Bang provavelmente (eles desmentem, faz parte do jogo) deve ser o último disco de estúdio destes quatro senhores que já estão pra lá dos sessenta. E o disco não surpreende, é um típico disco dos Stones. Ok, desde Some Girls (1978) que a banda não lança um disco que realmente preste. A Bigger Bang é mediano, talvez fique um focinho acima do Bridges e aquém do Tattoo You (1981) na disputa pelo “melhor álbum dos Stones que não deveria existir”, porque pouca coisa é relevante dos Stones de 1981 pra cá. O recheio do bolo está entre 1967 e 1974, com partes ainda saborosas “pré-1967” e entre 1974 e 1978.
Falo com conhecimento de causa, provavelmente Rolling Stones é a banda que eu mais escutei em toda a minha vida e, ainda depois de tantos anos e discos, ainda tenho prazer em escutar um material novo da banda, mesmo ela estando com o prazo de validade pra lá de vencido.
O louvável é que os Stones lançaram um disco de rock vigoroso e longo, com 16 faixas, o que passa uma efêmera sensação de vitalidade, algo que devemos aproveitar nos últimos instantes, que já não são tão inspirados como outrora.
(Aliás, dia 18/02/2006 estarei lá no Rio pro show, já aviso.)
Voltando ao disco, ele é coeso, mais bem produzido e melhor tocado do que todos os discos das duas últimas décadas, incluindo vexames como os ridículos Dirty Work (1985) e Undercover (1983), sem dúvida os dois piores, além do superestimado Voodoo Lounge (1994), empurrado com forte marketing e pouca consistência, além do dispensável Steel Wheels (1989), o “disco do retorno” após um “quase-fim” do grupo.

O disco começa muito bem, com "Rough Justice", que lembra um bocado "Flip the Switch", do álbum anterior: rock and roll típico dos Stones, bateria-relógio de Charlie Watts, Ron Wood faz a base e às vezes uma "firula" e os Glimmer Twins comandam o que bem sabem fazer.
"Let Me Down Slow" é um meio-termo entre o rock e a balada, com excelente refrão.
Já "It Won't Take Long" é apenas legalzinha, o solo de Richards até chama atenção.
"Rain Fall Down" é dançante, aquele tempero da black music que a banda espalhou por vários discos, com resultados absolutamente distintos. Aqui, acertaram em cheio.
O primeiro single é a balada "Streets of Love", que cá entre nós, é fraquinha. A última balada razoável que realmente fez sucesso foi "Out of Tears", de 1994 (e mesmo assim não foi um "sucesso", eu citei porque teve um investimento, teve videoclipe), ou então voltaria até 1981, com "Waiting on a Friend".
"Back of My Hand" tem um estilão do início dos anos 70, semelhante ao cover de "Shake Your Hips", do magnífico Exile on Main Street (1972).
"She Saw Me Coming" apresenta bateria marcadíssima, liberando as guitarras pros riffs, lembra as (poucas) boas coisas dos anos 80, sem contar que o refrão cola que é uma beleza.
"Biggest Mistake" não justifica o título, mas não chama muito a atenção.
Em "This Place is Empty", Keith Richards canta e despeja sua voz embriagada, mas não é o suficiente. Dificilmente o delicioso reggae de "You Don't Have to Mean It" (1997) perde o título de canção mais legal cantada pelo Keith.
Talvez o maior destaque do disco esteja aqui, na faixa 10. Se a letra tem discurso politizado ou se só resvala nas referências, é outro assunto. Mas "Oh No, Not You Again" é o rock mais vigoroso que a dupla Jagger-Richards já compôs desde "If You Can't Rock Me" (1974).
"Dangerous Beauty" não chama tanto a atenção, mas é bacana.
"Laugh, I Nearly Died" é uma balada das boas, com boa dose de angústia.
Daqui pra frente, o disco derrapa, se terminasse aqui, ficaria com um conceito bem melhor. E seria muito mais interessante se em vez de "Infamy" (16ª e última faixa), a última música do (provável) derradeiro disco se chamasse "Laugh, I Nearly Died".
E não vou falar das quatro últimas faixas, pois não são interessantes.
Em 2006 ou 2007 deve vir um disco ao vivo, seguido por um dvd. Depois, coletânea. E Charlie Watts poderá enfim cuidar de seus cavalos e tocar jazz, Ronnie Wood pode se dedicar à pintura, Keith Richards ao álcool e boas entrevistas. Já Mick Jagger poderá ocupar seu tempo engravidando mulheres estúpidas.
Enfim, A Bigger Bang passa raspando, mas é aprovado. Nessa escola que prefere alunos novatos e que copiem modismos antigos, é louvável que um aluno repetente há décadas ainda demonstre interesse nesta matéria.

Los Hermanos
4
Pretensão despojada. Após o ótimo Ventura, a banda mergulha na cabecice da mpb setentista e opera o famoso "disco cult", pois pode não vender tanto, mas os fãs defenderão com unhas e dentes. E tornar-se-á (isso vale aqui, estou falando de Los Hermanos) uma referência, um divisor de águas pros cariocas. Torço contra isso.
É disco pra "derrubar crítico" porque é difícil, o que faz com que a pessoa tenha uma percepção e mais tarde muda de opinião, mas não admite por vaidade ou burrice. Pode até ser um disco que "será entendido no futuro", que "aponte novos caminhos neste segmento", como também pode ser um disco que "jamais será entendido" às vezes porque é essa a intenção do artista, cada um tem suas maluquices e "4" às vezes é chato mesmo.
Merece a "Lixeira" pelo conceito, pela idéia, por tentar revolucionar (fazer difícil") e pregar o oposto. Não é ruim, tem alguns bons momentos e outros que chateiam por deixar a melodia mais contida e dar maior valor para as letras, que por sinal, continuam excelentes.
4 passeia por canções que realmente não descem, como "Os Pássaros", "Morena", "Sapato Novo" e "Pois É" (até os títulos são chatos). Apresenta momentos irregulares, que seria a melhor definição pro disco (depois de "cabeça"), como "Dois Barcos", que vai da mesmice inicial pra grandiosidade no término. "Primeiro Andar" é aprovada. É linda, embora carregue pequenos detalhes (principalmente na "cozinha") que se arrastam um pouco, mas não tiram o brilho. A canção sai do lugar comum com todo o mérito de Amarante, com seu vocal sensacional, de boteco. "Fez-se Mar" segue nos altos e baixos. Mpb típica, com levada de bossa nova. O refrão é belo, mas o maior destaque (talvez do disco) é o teclado no fundo, absolutamente primoroso. "Paquetá" também deixa você esperando por mais e "Horizonte Distante" é salva pelo belíssimo naipe de metais. "É de Lágrima" é a tal canção que fecha, que deve ficar bem melhor ao vivo, passa raspando. "O Vento", apesar do videoclipe chato, é uma belíssima canção com letra excelente. "Condicional" talvez seja minha favorita, ótima principalmente no final.
Sobre o disco, não vou reclamar que faltou guitarra, que faltou distorção ou que, principalmente, os metais fizeram falta. Foi uma opção pela simplicidade, pelo rústico, o que se torna massante e insuportável quando se quer tocar mpb. A banda perdeu o diferencial de "fazer mpb sem fazer necessariamente mpb", quando ótimas letras eram servidas em prol do rock, do hardcore, do samba, da própria mpb sem utilizar da indumentária típica desses estilos.
A banda não era rotulada por um estilo apenas e isso era bom, pois ela transitava livremente entre nerds fãs de Weezer e descolados que aturam o Seu Jorge. Agora, eles escolheram a segunda opção e vão colher os frutos. O Los Hermanos caiu na vala comum da auto-intitulada e arrogante intelligentsia musical brasileira, poderia ser a banda que revolucionaria o cenário musical de nosso país pelo mérito de colocar cérebro no mainstream do rock brasileiro, mas até eles devem saber que o rock é burro mesmo, por isso Tihuana tem público e o Charlie Brown vende milhões.
Los Hermanos provavelmente dará um salto na carreira, vão se estabelecer no cenário cult e serão mais "homenageados" por aqui. Embora a banda continue evoluindo e melhorando suas composições, eu questiono a direção onde os caras estão indo, privilegiando algo extremamente datado e cansativo. Olhar pra trás é válido, mas olhe em todas as direções e não apenas para a praia, a morena, o cais, o banquinho e o violão. Já até estou com saudades dos skas e hardcores do primeiro disco...
Só não dou nota 4 pra não soar óbvio. Mas não fica muito acima disso.

Supergrass
Road to Rouen
Uma das mais consistentes bandas de rock inglês dos anos 90 lançou o famoso "disco da transição", onde atiram pra todos os lados mas sem se estabelecer, apontar tendências. Apenas resvala, só indícios. Após da boa estréia de I Should Coco, veio o fabuloso In It for the Money, seguido do bacana e dançante Supergrass até o elaborado e luxuoso (quase glam rock) Life on Other Planets. Sem contar a essencial coletânea Supergrass is 10 - The Best of 94-04.
Após um ciclo fechado, Road to Rouen anuncia mudanças, que pela lógica peculiar do rock (da música pop em geral) podem não se confirmar. O Supergrass lança um disco em que apenas 4 canções realmente convencem: "St. Petersburg" (balada com sotaque beatle), o ótimo arranjo de "Sad Girl", a linda "Kick in the Teeth" e a maravilhosa "Low C", absolutamente John Lennon, pra matar de inveja Liam Gallagher (Oasis).
A outra metade do disco não segue no mesmo nível. A interessante "Tales of Endurance Parts 4, 5 & 6" começa acústica sem convencer (música de cabaré) e descamba num pós-punk dos bons, pegue a melhor música do Franz Ferdinand e multiplique por um milhão. Outra nesse estilo é "Road to Rouen" mas não decola, é algo que o Franz Ferdinand poderia compor - mas só daqui uns dez anos e com um produtor que componha pra eles, algo comum na música pop e no rock da Avril Lavigne. Já "Roxy" é uma jam interessante, tem uns arranjos que lembram George Martin, mas não encanta.
Trocando em miúdos, não chega a ser um deslize (longe disso), mas discordo de todo o oba-oba com os mais recentes trabalhos do Supergrass (este incluído, claro). Não sei se é por falta de bons parâmetros, mas os caras podem fazer melhor. Está até parecendo David Bowie (nítida referência) na década de 80.
A banda olha pra trás e ao mesmo tempo recicla seu som visando o futuro. Não acertou em cheio, mas entre fazer o "mais do mesmo" e "inventar o que não se sabe" (sic) a banda ao menos apresenta alternativas, basta agora optar pelas melhores.

Na próxima coluna, eu volto com a "programação normal" e os discos que prometi resenhar.
Links do Sukrilius:
Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique aqui.
www.enne.com.br
- banda de rock que eu produzo.
www.udora.com,
www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net
e www.moldest.com
- Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.
merrymelodies.blogger.com.br
- blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.
perplexoes.blogger.com.br
- blog da Menina Enciclopédia, também comparsa
do ABACAXI ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.
dyingdays.net/index.html
- site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente
indispensável.
|