Foo Fighters é uma das minhas
bandas prediletas. Nem sei mais quantas resenhas já fiz
sobre o FF ("FF" sempre foi e será Foo Fighters,
quem usar o "FF" pra se referir a porcarias efêmeras
como Franz Ferdinand vai estar usando a sigla em vão) e
tentarei não me repetir.
Após o fim do Nirvana, Dave Ghrol gravou o projeto Pocketwatch
em que tocava todos os instrumentos. Não é lá grande
coisa, mas serviu de ensaio pra Foo Fighters, primeiro disco da
banda, todo feito pelo Ghrol. Pra tocar com ele, Dave chamou o
Nate Mendel (Sunny Day Real Estate), Pat Smear (que fazia uns bicos
no Nirvana) e um baterista (acho que era do Sunny Day também)
que o Ghrol mandou embora antes do segundo disco, porque não "agüentava
o trampo". Dave Ghrol queria um cara que tocasse mais que
ele (se possível) e não era fácil. O primeiro
disco, com cheiro de demo e tempero grunge, teve boa repercussão,
as porradas "This is a Call" "I'll Stick Around" e
a baladinha "Big Me" já anunciava um futuro promissor.
A Alanis Morissette estava em turnê do seu "primeiro" (aqui
no Brasil) disco (e melhor, até hoje), o ótimo Jagged
Little Pill (1995), e ao vivo um batera dava muito mais peso e
consistência para as suas melodias. Era Taylor Hawkins, baterista
que não economizava nem nos pratos, nem nas farras. O cara
entrou pro FF no meio das gravações do segundo disco,
The Colour and The Shape. Pra muitos, o melhor disco da banda.
O Foo fez um disco pesado, barulhento e empolgante, com vários
hits, como "Monkey Wrench", "Walking After You", "My
Hero" além da já clássica "Everlong".
A banda também se consagra pelos bons videoclipes. Neste ínterim,
Pat Smear sai da banda, entra um guitarrista-tampão (que
inclusive grava o clipe em "My Hero") até que
Chris Schiflett assume definitivamente o instrumento.
There is Nothing Left to Lose é o famoso disco de referência, é aquele
trabalho que tem a proeza de ser "pop" e de "qualidade",
dois termos que costumam não se misturar. A banda estoura
mundialmente e o disco entra nos rankings dos melhores do ano,
com todos os méritos. "Breakout", "Generator", "Learn
to Fly" e "Next Year" são apenas quatro bons
exemplos de ótimas canções que fizeram sucesso.
E a banda ainda se deu ao luxo de gravar maravilhas como "Gimme
Stitches", "Headwires" e "Stacked Actors" que
não chegaram ao grande público que consome junk music
(rádio e MTV).
Dia 13 de janeiro de 2001 é um dia que ficará marcado
pra mim, pois assisti a dois dos melhores shows da minha vida em
um intervalo de quatro horas. O FF veio pela primeira vez ao Brasil
e fez um show histórico no Rock in Rio 3. Dave Ghrol, visivelmente
emocionado e nervoso diante de tanta gente, mais berrou do que
cantou, mas o que vale é a emoção e não
a técnica, quando se trata de um show de rock. Do outro
show, já falei em coluna anterior.
No ano seguinte, sai One by One, que realmente foi um passo para
trás. Na época, eu até me empolguei com o
disco, mas escutando com a devida calma e atenção
cheguei facilmente à conclusão de que é um
disco medíocre. Salvam-se as boas "All My Life", "Have
It All", "Times Like These", "Low" e "Come
Back". Mas faltava consistência, o disco soa cansativo, é um
pouco chato.
Neste ano, pra comemorar os 10 anos da banda, o FF homenageia
os fãs com o disco duplo In Your Honor. Não entendi
tal "homenagem", porque os fãs teriam que pagar
mais caro, por se tratar de um disco duplo - na verdade, seria
uma homenagem para a gravadora. Mas pesquisando os preços,
constatei que ele está sendo vendido pelo preço de
um disco simples (algo entre 29 e 35 reais), o que não deixa
de ser exorbitante, mas justifica o gracejo da banda aos seus fiéis
ouvintes.
São 10 músicas em cada álbum. No disco 1
estão as "plugadas", com mais peso, e no disco
2 as "acústicas", calminhas. E como todo disco
duplo que se preze, possui todos os defeitos de sua extensão:
se você retirasse mais ou menos três 3 canções
de cada disco, dava pra gravar um cd com 14 canções
absolutamente perfeitas - mas isso não é demérito
apenas deles, discos magníficos como White Album, dos Beatles,
e Mellon Collie and the Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins,
sofrem do mesmo mal.
Caso este artifício fosse usado e In Your Honor fosse um álbum
com apenas 13 ou 14 canções, eu diria com convicção
que seria o disco do ano, mas não é o caso. O que
importa é que nos melhores momentos o Foo Fighters revive
seus melhores rocks (presentes nos segundo e terceiro discos) e
o disco acústico é recheado de boas surpresas.
 Disco 1
"In Your Honor" é uma introdução
nervosa, provavelmente abrirá os shows da nova turnê.
A letra é uma dedicatória aos fãs. Ótimo
aperitivo para o que está por vir.
"No Way Back" é, desde já, uma das melhores
músicas do ano e uma das melhores da banda. Rock'n'roll
que poderia perfeitamente estar no segundo disco, ótima
letra, todo o gás e toda a sonoridade que te faz lembrar
do FF. É aquele música que empolga, você procura
defeitos e não acha. Clássico instantâneo.
"Best of You" também é um destaque, sendo
uma das melhores letras que a banda já fez: "You gave
me something that I didn't have / But had no use / I was too weak
to give in / Too strong to lose / My heart is under arrest again
/ But I break loose / My head is giving me life or death / But
I can't choose / I swear I'll never give in / I refuse / Is someone
getting the best of you / Has someone taken your faith? / Its real,
the pain you feel / You trust, you must / Confess / Is someone
getting the best of you?".
"D.O.A." é uma boa canção com um
refrão muito bom, poderia ser um ótimo b-side do
There is Nothing Left to Lose, mas deve virar single (eu escolheria "No
Way Back" ou "What If IDo?").
"Hell" é mediana, o vocal gritado de Ghrol começa
a cansar, ele devia usá-lo apenas nos shows.
"The Last Song" é uma prova de que as sessões
poderiam ter se encerrado um pouco antes, esta não precisava
estar no disco.
"Free Me" também não convence. O vocal
gritado de Ghrol já cansa bastante, esta música lembra
um pouco as canções do One By One.
"Resolve" é mais calma e é sensacional,
balada excelente. Só não sei o que faz no disco 1
mas, enfim, não poderia ficar de fora do álbum pois é belíssima,
a levada é muito boa.
"The Deepest Blues Are Back" é mais um rock de
qualidade. É claro que estou enganado, mas escutando essa
canção tem-se a impressão de que a caixa da
bateria tá mais alta que o vocal, o produtor não
ia deixar isso passar. Se deixou foi de forma proposital, o que
não deixa de ser inusitado. De qualquer forma a faixa é ótima,
começando calma e ganhando peso aos poucos.
"End Over End" é sensacional, fecha com maestria
o primeiro disco. A frase "End over end / I'm circling" fixa
que é uma beleza.
Disco 2
"Still" tem uma bela letra, que contrasta com o clima
pesado da canção. Bom começo.
"What If I Do?" tem um arranjo de arrepiar, é linda
demais. Seria uma enorme incompetência da gravadora se este
música não estourar nas rádios, pois apesar
do "apelo pop" é bonita demais.
"Miracle" é bonitinha, tem uma bela melodia mas
não encanta. Destaque para os violinos no final e o piano
de fundo.
"Another Round" é folk até a medula. Arranjo
primoroso e a voz de Ghrol é uma maravilha quando ele não
grita. A gaita é aconchegante, a canção desce
muito bem.
"Friend of a Friend" é voz e violão como
Dylan, como Springsteen. Até parece uma homenagem, pela
letra e pela sonoridade para alguém desse "ramo",
que pode ser realmente algum amigo do amigo dele. Linda, é um
Foo Fighters que ninguém imaginava, mas as surpresas só estão
começando.
"Over and Out" é um pouco cansativa, apesar do
bom refrão.
"On the Mend" também não convence, passa
batido.
"Virginia Moon" é uma bossa nova. Pois é,
Foo Fighters tocando bossa nova, com a participação
da Norah Jones. Como ficou? Espetacular, talvez a maior surpresa
do ano, desde que o Atlético-MG não ganhe o Brasileirão. É inexplicável,
parece aqueles medalhões do jazz que convidou uma menina
pra um dueto, simplesmente de tirar o fôlego. O instrumental é demais,
até o solo de violão é de extremo bom gosto.
Sua mãe ou aquela sua tia mais velha agora podem gostar
de Foo Fighters.
"Cold Day in the Sun" é absurdamente linda! Dave
Ghrol vai pra batera e Taylor Hawkins canta na faixa mais agitada
do disco 2. É totalmente Wilco, lembra Pete Yorn, Elliott
Smith, Ryan Adams... É alternative country, tecladinho moog...
Pra ouvir em um carro conversível em um dia ensolarado (óbvio),
largando o volante pra bater palmas junto com a caixa da bateria.
E tem que cantar com falsete a parte "You’re so afraid
that you are the only one / You are the only one / You know".
Maravilhosa. Até o Cajabis vai gostar.
"Razor" é sonolenta, mas não tira o brilho
do disco.
Este disco de baladas mostra que a simplicidade e sinceridade
das canções pode e geralmente supera qualquer super
produção, algo exageradamente pretensioso e elaborado.
Trocando em miúdos, o disco 2 do Foo Fighters dá um
banho no novo do Coldplay.
Se retirassem seis canções (três de cada disco),
seria o melhor disco da banda e provavelmente o melhor do ano.
Mesmo assim, In Your Honor mostra que o Foo Fighters ainda sabe
fazer rock pra explodir e canções pra encantar. É uma
honra e tanto.

Queens of the Stone Age
Lullabies to Paralyze
Toda banda que lança um bom primeiro disco, passa pelo "desafio
do segundo disco": tentar, no mínimo, fazer um disco
tão bom e/ou que venda tanto quanto o anterior (depende
da ótica de cada um, artista ou gravadora). O Queens of
the Stone Age, por azar (ou
melhor, sorte), tem enfrentado sempre este teste e tem obtido êxito,
porque possui três discos excelentes. Mas Lullabies to
Paralyze não foi aprovado, o que não quer dizer que este disco
não seja bom.
Nick Olivieri faz falta. Não que nenhum baixista possa
substituí-lo, mas por ser o Nick Olivieri, por influir inclusive
no ânimo e na inspiração (de qualquer natureza)
da banda. Mas ele não é o único culpado, a
banda exagerou na dose (literalmente?) em alguns momentos.
Há algumas canções excelentes, no entanto:
a dopada "Medication", a surpreendente e viajante "Everybody
Knows That You Are Insane" (seria pra Olivieri?) e "Tangled
Up in Plaid" (pesada, agressiva). "Burn the Witch" tem
um clima que lembra o disco anterior, noturna, com as famosas vozes
do além (hehe) é outro destaque. "Little Sister" já toca
por aí e é bem bacana. "Someone's in the Wolf" não
dá pra escutar sóbrio, é uma típica
viagem do QOTSA. A stoner "Blood is Love" é outra
que carece do pré-requisito indispensável pra escutá-la: "be
stoned".
Lullabies to Paralyze é o pior dos quatro discos da banda,
mas não é um disco ruim. Serve sim de alerta para
que a banda retome seu caminho tortuoso, sufocante e letal.

Garbage
Bleed Like Me
O Garbage sempre gravou discos bons, mas nada que me agradasse
tanto. A estréia foi boa, mas não acho tão
bom assim como a crítica gosta de afirmar. Talvez Garbage seja tão incensado pelo gosto da novidade. Ao contrário
dela, eu adoro o sofisticado e eletrônico Version 2.0 e achei
razoável o terceiro, Beautiful Garbage, com seu viés
mais pop. O barulho volta em Bleed Like Me e convence.
Talvez não seja o melhor trabalho da banda, mas não
fica muito atrás, justifica totalmente o investimento. Dave
Ghrol toca na pesada e boa "Bad Boyfriend". "Why
Do You Love Me" é excelente, lembra "Special" do
segundo disco, mas com um refrão mais pesado. "Run
Baby Run", "Metal Heart" e "Right Between the
Eyes" batem na trave. "Bleed Like Me" é linda,
a banda continua caprichando nas baladas, sem abusar do açúcar,
assim como na "It's All Over But the Crying". "Sex
is Not the Enemy" é outro destaque, deve virar hit, ótima
música.
Se você já conhece o rock eletrônico da banda,
pode correr atrás sem erro.

Na próxima coluna, mais música. System of a Down,
Audioslave... Enfim, mais coisa boa. Até!
Links do Sukrilius:
Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique aqui.
www.enne.com.br
- banda de rock que eu produzo.
www.udora.com,
www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net
e www.moldest.com
- Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.
merrymelodies.blogger.com.br
- blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.
perplexoes.blogger.com.br
- blog da Menina Enciclopédia, também comparsa
do ABACAXI ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.
dyingdays.net/index.html
- site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente
indispensável.
sondazkavernas.blogspot.com
- blog do meu amigo Terence Machado, do programa Alto Falante,
único programa da tv aberta para fãs de boa música. |