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Beagá, 29 de agosto de 2005 d.C.
 
Foo Fighters ultrapassa barreiras
Por Sukrilius
 

Foo Fighters é uma das minhas bandas prediletas. Nem sei mais quantas resenhas já fiz sobre o FF ("FF" sempre foi e será Foo Fighters, quem usar o "FF" pra se referir a porcarias efêmeras como Franz Ferdinand vai estar usando a sigla em vão) e tentarei não me repetir.

Após o fim do Nirvana, Dave Ghrol gravou o projeto Pocketwatch em que tocava todos os instrumentos. Não é lá grande coisa, mas serviu de ensaio pra Foo Fighters, primeiro disco da banda, todo feito pelo Ghrol. Pra tocar com ele, Dave chamou o Nate Mendel (Sunny Day Real Estate), Pat Smear (que fazia uns bicos no Nirvana) e um baterista (acho que era do Sunny Day também) que o Ghrol mandou embora antes do segundo disco, porque não "agüentava o trampo". Dave Ghrol queria um cara que tocasse mais que ele (se possível) e não era fácil. O primeiro disco, com cheiro de demo e tempero grunge, teve boa repercussão, as porradas "This is a Call" "I'll Stick Around" e a baladinha "Big Me" já anunciava um futuro promissor.

A Alanis Morissette estava em turnê do seu "primeiro" (aqui no Brasil) disco (e melhor, até hoje), o ótimo Jagged Little Pill (1995), e ao vivo um batera dava muito mais peso e consistência para as suas melodias. Era Taylor Hawkins, baterista que não economizava nem nos pratos, nem nas farras. O cara entrou pro FF no meio das gravações do segundo disco, The Colour and The Shape. Pra muitos, o melhor disco da banda. O Foo fez um disco pesado, barulhento e empolgante, com vários hits, como "Monkey Wrench", "Walking After You", "My Hero" além da já clássica "Everlong". A banda também se consagra pelos bons videoclipes. Neste ínterim, Pat Smear sai da banda, entra um guitarrista-tampão (que inclusive grava o clipe em "My Hero") até que Chris Schiflett assume definitivamente o instrumento.

There is Nothing Left to Lose é o famoso disco de referência, é aquele trabalho que tem a proeza de ser "pop" e de "qualidade", dois termos que costumam não se misturar. A banda estoura mundialmente e o disco entra nos rankings dos melhores do ano, com todos os méritos. "Breakout", "Generator", "Learn to Fly" e "Next Year" são apenas quatro bons exemplos de ótimas canções que fizeram sucesso. E a banda ainda se deu ao luxo de gravar maravilhas como "Gimme Stitches", "Headwires" e "Stacked Actors" que não chegaram ao grande público que consome junk music (rádio e MTV).

Dia 13 de janeiro de 2001 é um dia que ficará marcado pra mim, pois assisti a dois dos melhores shows da minha vida em um intervalo de quatro horas. O FF veio pela primeira vez ao Brasil e fez um show histórico no Rock in Rio 3. Dave Ghrol, visivelmente emocionado e nervoso diante de tanta gente, mais berrou do que cantou, mas o que vale é a emoção e não a técnica, quando se trata de um show de rock. Do outro show, já falei em coluna anterior.

No ano seguinte, sai One by One, que realmente foi um passo para trás. Na época, eu até me empolguei com o disco, mas escutando com a devida calma e atenção cheguei facilmente à conclusão de que é um disco medíocre. Salvam-se as boas "All My Life", "Have It All", "Times Like These", "Low" e "Come Back". Mas faltava consistência, o disco soa cansativo, é um pouco chato.

Neste ano, pra comemorar os 10 anos da banda, o FF homenageia os fãs com o disco duplo In Your Honor. Não entendi tal "homenagem", porque os fãs teriam que pagar mais caro, por se tratar de um disco duplo - na verdade, seria uma homenagem para a gravadora. Mas pesquisando os preços, constatei que ele está sendo vendido pelo preço de um disco simples (algo entre 29 e 35 reais), o que não deixa de ser exorbitante, mas justifica o gracejo da banda aos seus fiéis ouvintes.

São 10 músicas em cada álbum. No disco 1 estão as "plugadas", com mais peso, e no disco 2 as "acústicas", calminhas. E como todo disco duplo que se preze, possui todos os defeitos de sua extensão: se você retirasse mais ou menos três 3 canções de cada disco, dava pra gravar um cd com 14 canções absolutamente perfeitas - mas isso não é demérito apenas deles, discos magníficos como White Album, dos Beatles, e Mellon Collie and the Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins, sofrem do mesmo mal.

Caso este artifício fosse usado e In Your Honor fosse um álbum com apenas 13 ou 14 canções, eu diria com convicção que seria o disco do ano, mas não é o caso. O que importa é que nos melhores momentos o Foo Fighters revive seus melhores rocks (presentes nos segundo e terceiro discos) e o disco acústico é recheado de boas surpresas.

Disco 1

"In Your Honor" é uma introdução nervosa, provavelmente abrirá os shows da nova turnê. A letra é uma dedicatória aos fãs. Ótimo aperitivo para o que está por vir.

"No Way Back" é, desde já, uma das melhores músicas do ano e uma das melhores da banda. Rock'n'roll que poderia perfeitamente estar no segundo disco, ótima letra, todo o gás e toda a sonoridade que te faz lembrar do FF. É aquele música que empolga, você procura defeitos e não acha. Clássico instantâneo.

"Best of You" também é um destaque, sendo uma das melhores letras que a banda já fez: "You gave me something that I didn't have / But had no use / I was too weak to give in / Too strong to lose / My heart is under arrest again / But I break loose / My head is giving me life or death / But I can't choose / I swear I'll never give in / I refuse / Is someone getting the best of you / Has someone taken your faith? / Its real, the pain you feel / You trust, you must / Confess / Is someone getting the best of you?".

"D.O.A." é uma boa canção com um refrão muito bom, poderia ser um ótimo b-side do There is Nothing Left to Lose, mas deve virar single (eu escolheria "No Way Back" ou "What If IDo?").

"Hell" é mediana, o vocal gritado de Ghrol começa a cansar, ele devia usá-lo apenas nos shows.

"The Last Song" é uma prova de que as sessões poderiam ter se encerrado um pouco antes, esta não precisava estar no disco.

"Free Me" também não convence. O vocal gritado de Ghrol já cansa bastante, esta música lembra um pouco as canções do One By One.

"Resolve" é mais calma e é sensacional, balada excelente. Só não sei o que faz no disco 1 mas, enfim, não poderia ficar de fora do álbum pois é belíssima, a levada é muito boa.

"The Deepest Blues Are Back" é mais um rock de qualidade. É claro que estou enganado, mas escutando essa canção tem-se a impressão de que a caixa da bateria tá mais alta que o vocal, o produtor não ia deixar isso passar. Se deixou foi de forma proposital, o que não deixa de ser inusitado. De qualquer forma a faixa é ótima, começando calma e ganhando peso aos poucos.

"End Over End" é sensacional, fecha com maestria o primeiro disco. A frase "End over end / I'm circling" fixa que é uma beleza.

Disco 2

"Still" tem uma bela letra, que contrasta com o clima pesado da canção. Bom começo.

"What If I Do?" tem um arranjo de arrepiar, é linda demais. Seria uma enorme incompetência da gravadora se este música não estourar nas rádios, pois apesar do "apelo pop" é bonita demais.

"Miracle" é bonitinha, tem uma bela melodia mas não encanta. Destaque para os violinos no final e o piano de fundo.

"Another Round" é folk até a medula. Arranjo primoroso e a voz de Ghrol é uma maravilha quando ele não grita. A gaita é aconchegante, a canção desce muito bem.

"Friend of a Friend" é voz e violão como Dylan, como Springsteen. Até parece uma homenagem, pela letra e pela sonoridade para alguém desse "ramo", que pode ser realmente algum amigo do amigo dele. Linda, é um Foo Fighters que ninguém imaginava, mas as surpresas só estão começando.

"Over and Out" é um pouco cansativa, apesar do bom refrão.

"On the Mend" também não convence, passa batido.

"Virginia Moon" é uma bossa nova. Pois é, Foo Fighters tocando bossa nova, com a participação da Norah Jones. Como ficou? Espetacular, talvez a maior surpresa do ano, desde que o Atlético-MG não ganhe o Brasileirão. É inexplicável, parece aqueles medalhões do jazz que convidou uma menina pra um dueto, simplesmente de tirar o fôlego. O instrumental é demais, até o solo de violão é de extremo bom gosto. Sua mãe ou aquela sua tia mais velha agora podem gostar de Foo Fighters.

"Cold Day in the Sun" é absurdamente linda! Dave Ghrol vai pra batera e Taylor Hawkins canta na faixa mais agitada do disco 2. É totalmente Wilco, lembra Pete Yorn, Elliott Smith, Ryan Adams... É alternative country, tecladinho moog... Pra ouvir em um carro conversível em um dia ensolarado (óbvio), largando o volante pra bater palmas junto com a caixa da bateria. E tem que cantar com falsete a parte "You’re so afraid that you are the only one / You are the only one / You know". Maravilhosa. Até o Cajabis vai gostar.

"Razor" é sonolenta, mas não tira o brilho do disco.

Este disco de baladas mostra que a simplicidade e sinceridade das canções pode e geralmente supera qualquer super produção, algo exageradamente pretensioso e elaborado. Trocando em miúdos, o disco 2 do Foo Fighters dá um banho no novo do Coldplay.

Se retirassem seis canções (três de cada disco), seria o melhor disco da banda e provavelmente o melhor do ano. Mesmo assim, In Your Honor mostra que o Foo Fighters ainda sabe fazer rock pra explodir e canções pra encantar. É uma honra e tanto.

Queens of the Stone Age
Lullabies to Paralyze

Toda banda que lança um bom primeiro disco, passa pelo "desafio do segundo disco": tentar, no mínimo, fazer um disco tão bom e/ou que venda tanto quanto o anterior (depende da ótica de cada um, artista ou gravadora). O Queens of the Stone Age, por azar (ou
melhor, sorte), tem enfrentado sempre este teste e tem obtido êxito, porque possui três discos excelentes. Mas Lullabies to Paralyze não foi aprovado, o que não quer dizer que este disco não seja bom.

Nick Olivieri faz falta. Não que nenhum baixista possa substituí-lo, mas por ser o Nick Olivieri, por influir inclusive no ânimo e na inspiração (de qualquer natureza) da banda. Mas ele não é o único culpado, a banda exagerou na dose (literalmente?) em alguns momentos.

Há algumas canções excelentes, no entanto: a dopada "Medication", a surpreendente e viajante "Everybody Knows That You Are Insane" (seria pra Olivieri?) e "Tangled Up in Plaid" (pesada, agressiva). "Burn the Witch" tem um clima que lembra o disco anterior, noturna, com as famosas vozes do além (hehe) é outro destaque. "Little Sister" já toca por aí e é bem bacana. "Someone's in the Wolf" não dá pra escutar sóbrio, é uma típica viagem do QOTSA. A stoner "Blood is Love" é outra que carece do pré-requisito indispensável pra escutá-la: "be stoned".

Lullabies to Paralyze é o pior dos quatro discos da banda, mas não é um disco ruim. Serve sim de alerta para que a banda retome seu caminho tortuoso, sufocante e letal.

Garbage
Bleed Like Me

O Garbage sempre gravou discos bons, mas nada que me agradasse tanto. A estréia foi boa, mas não acho tão bom assim como a crítica gosta de afirmar. Talvez Garbage seja tão incensado pelo gosto da novidade. Ao contrário dela, eu adoro o sofisticado e eletrônico Version 2.0 e achei razoável o terceiro, Beautiful Garbage, com seu viés mais pop. O barulho volta em Bleed Like Me e convence.

Talvez não seja o melhor trabalho da banda, mas não fica muito atrás, justifica totalmente o investimento. Dave Ghrol toca na pesada e boa "Bad Boyfriend". "Why Do You Love Me" é excelente, lembra "Special" do segundo disco, mas com um refrão mais pesado. "Run Baby Run", "Metal Heart" e "Right Between the Eyes" batem na trave. "Bleed Like Me" é linda, a banda continua caprichando nas baladas, sem abusar do açúcar, assim como na "It's All Over But the Crying". "Sex is Not the Enemy" é outro destaque, deve virar hit, ótima música.

Se você já conhece o rock eletrônico da banda, pode correr atrás sem erro.

Na próxima coluna, mais música. System of a Down, Audioslave... Enfim, mais coisa boa. Até!

Links do Sukrilius:

Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique aqui.

www.enne.com.br - banda de rock que eu produzo.

www.udora.com, www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net e www.moldest.com - Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.

merrymelodies.blogger.com.br - blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.

perplexoes.blogger.com.br - blog da Menina Enciclopédia, também comparsa do ABACAXI ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.

dyingdays.net/index.html - site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente indispensável.

sondazkavernas.blogspot.com - blog do meu amigo Terence Machado, do programa Alto Falante, único programa da tv aberta para fãs de boa música.

 
Sukrilius é músico frustrado e tenista arrependido, além de estar momentaneamente desempregado. Ofertas de emprego podem ser enviadas para o e-mail sukrilius@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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