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Beagá, 27 de junho de 2005 d.C.
 
Coldplay: mexidão luxuoso
Por Sukrilius
 

X & Y, novo do Coldplay, decepciona. Calma, não quero dizer que o disco seja ruim, mas a banda resolveu simplesmente fazer o que já se espera dela. Isso é uma das piores coisas que pode acontecer na música pop. O Coldplay teme ousar, fez o que sempre soube fazer, às vezes muito bem, é verdade. Vai vender que nem água? Sim. Vai tocar na novela? Sim. Vai tocar naqueles eventos, como uma recepção onde o buffet é escasso e todos querem colocar a mão no bolso? Sim. Sua mãe, sua tia e até aquela sua prima que gosta de KLB vão gostar do disco? Sim.

X & Y é o disco perfeito, é aquele disco extremamente certinho. Esse é o problema, ele é certinho demais, é superproduzido, é muito luxo e muita pompa que preenchem as caixas de som. Pegou a fórmula do bem-sucedido A Rush of Blood to the Head, deu um "banho de loja" (a.k.a. produção) e pronto! Não precisava de tanto. E o Coldplay tem um exemplo bem próximo, o Oasis. Be Here Now (1997), terceiro disco dos marrentos de Manchester, foi lançado no ápice da "oasismania" (sim, a referência com "beatlemania" foi proposital), a banda vinha de dois discos absurdamente brilhantes (bem melhores que os dois primeiros do Coldplay, diga-se de passagem) e que vendiam horrores. Be Here Now vendeu muito e a banda se consolidou, mas é um disco que carece de uma produção mais simples, mais tosca, menos egocêntrica, menos Gallagher. As canções são enormes, a produção é caprichada, você escuta cada detalhe, mas é um disco que poderia ficar ainda melhor se por exemplo, fosse gravado ao vivo, mais cru, mas esse é outro papo.

Coldplay é um tipo de banda pra se escutar sentado confortavelmente em uma poltrona, nem pense em escutá-los em pé na fila do banco (você cansa) ou enquanto faz cooper (você cansa MUITO). Mas a banda avançou para a categoria "pra escutar deitado" devido aos irritantes abusos nas confecções das melodias neste disco, que poderiam ser muito mais simples, onde a beleza transparecia muito mais fácil, como por exemplo "Don't Panic", "Trouble" e "Yellow", do modesto e belo Parachutes.

"Square One" abre o disco. Início climático, pouco depois aparecem ótimas guitarras. É como um "susto inicial", esse "barulho bom" fica na primeira faixa, é como "Politik", do disco anterior. A guitarra de sonoridade lembra MUITO U2. Se você escutar o belo riff nos exatos 2'09'' você juraria que foi o The Edge. E logo em seguida, Chris Martin solta uns gritinhos como os do Bono, hahaha. Ótima canção, ficaria melhor sem um teclado que percorre quase toda a sua extensão.

Já "What If" é maravilhosa, uma das canções mais bonitas e piegas de 2005. Canção típica do Coldplay, voz e piano. Ela vai te derretendo aos poucos, na "bridge" entra a bateria, baixo e guitarra. Um pouquinho antes do primeiro minuto, aparece um arranjo de orquestra simplesmente fabuloso, lindo. Após o refrão (aos 2'21'' exatamente), esse arranjo arrepia exatamente por ser despojado, simplesmente por ser bonito. Na hora me veio na cabeça "Buy It in Bottles", de Richard Ashcroft, aliás o final até lembra "Lucky Man" do Verve, banda que sabia muito bem lidar com esses arranjos. E aqui a banda e o produtor acertaram em cheio. Vai fazer muito sucesso, todo mundo vai querer tocá-la no violão, ter ringtone, vai virar aquela febre...

"White Shadows" possui um início ruim, demasiado anos 80 pro meu gosto. O teclado já irrita, sendo desnecessário (o baixo ficaria melhor). No refrão, ela dá uma ligeira melhorada, mas logo depois cansa ainda mais, por ser repetitiva e longa, 5 minutos e meio, com destaque pro maldito teclado. O último minuto da música é absolutamente desnecessário.

O primeiro minuto de "Fix You" é também supérfluo, chato. O segundo minuto é interessante, mas é só quando entra a guitarra, na metade do terceiro minuto é que a canção começa a ficar legal. Aí realmente ela fica MUITO legal, o complicado é esperar dois minutos e meio pra isso.

"Talk": adivinha? Começa com voz, teclado e lá embaixo, você ouve uma guitarrinha e torce pra que ela aumente o volume. O refrão é até legal, com boa guitarra, mas o teclado new age atrapalha um bocado. E a banda não percebe e dá ênfase no maldito instrumento. Parece até o Jamiroquai quando tinha didgeridoo (aquele berrante australiano) ou aquele insuportável violino do Dave Matthews Band. Esta também não convence.

Daqui pra frente a maionese desanda um pouco, algumas coisas bem chatas aparecem, o disco vai soando enjoativo, como uma ladainha que não acaba.

"A Message" e "Twisted Logic" até são boas, mas não encantam.

"Speed of Sound" é razoável, mas se você comparar com os singles anteriores da banda, dá até vergonha.

Apenas "Swallowed in the Sea" e a faixa escondida "'Til Kingdom Come" valem o download, pois são muito bonitas, você não precisa escutar as demais: resumindo, é o Chris Martin com seu falsete, piano, teclado e você torcendo pro baixo, bateria e guitarra aparecem um pouco mais.

O Coldplay entrou em campo querendo ganhar jogando bonito, mas nem sempre essa tática funciona, infelizmente. Vai ter gente que vai falar que é salto alto, mas não é, é excesso de confiança mesmo, porque a banda não precisa jogar bonito pra vencer, o jogo está ganho antes do seu início. O disco será um sucesso, mas o Coldplay ainda está devendo um disco marcante, o tal "disco de referência".

Estou esperando o X & Y... Naked, mas tomara que não demore décadas.

Doves
Some Cities

Você curte esse estilo de música como Coldplay, Travis, Keane, Starsailor etc? Acabou de sair um muito bom do gênero: Some Cities, do Doves. O Doves chega ao terceiro disco após os bons Good Souls (2000) e The Last Broadcast (2002). Afirmo com segurança que este é o melhor disco dos caras, maravilhoso. O Doves não possui a fama do Coldplay, nem movimenta tantas cifras. Mas cá entre nós, deu um banho no "primo rico". Some Cities é melhor que o X & Y, sem dúvida.

Difícil escolher as melhores faixas, vou citar as obrigatórias: "Some Cities", "Black &White Town", "Almost Forgot Myself", "Snowden", "Walk in Fire" e "Sky Starts Falling". Aula simples e prática de rocks calmos e simples, com um teclado sendo utilizado de uma forma inteligente e os demais instrumentos não ficando em segundo plano.

Ryan Adams & the Cardinals
Cold Roses

Ryan Adams é um dos mais promissores compositores norte-americanos. Já é considerado um ícone no segmento "alternative country", um balaio de gatos de quem mistura rock, folk e até blues no country, onde o maior expoente na atualidade é o Wilco.

Ryan era do Whiskeytown, que nunca achei muita graça, muito country pra mim. A estréia solo foi em 2000, com o bom Heartbraker. O ápice foi o indispensável Gold (2001), praticamente perfeito. Um ano seguinte, Demolition, uma razoável coletânea de b-sides. A gravadora pediu um álbum mais comercial, pois Ryan apresentou Love is Hell, um disco calmo e depressivo. Love is Hell teve seu lançamento adiado, antes dele foi lançado Rock N Roll, que foi duramente criticado por limitar Ryan Adams ao rock. Rock'n'roll básico, com pegada punk e referências setentistas. Eu gostei, mas faço parte da minoria.

Agora, Cold Roses, duplo. A criatividade permanece em alta, mas seria mais interessante se ele se preocupasse mais com a qualidade das canções do que com a quantidade. Cold Roses é um retorno ao country rock do primeiro disco (e bem mais country do que rock), mas carece consistência, falta um camisa 10 no meio-campo, um diferencial.

"Sweet Illusions" é bacana, mas é incompleta mesmo com 5 minutos. "Meadowlake Street" é bonita, o vocal lembra Jeff Buckley, mas a música custa a decolar.

"When Will You Come Back Home" é um destaque, melodia tranquila, sutil, nítida influência de Bob Dylan. Pra ouvir quando você estiver na fazenda e após almoçar bastante (pois você está na fazenda, obviamente...), tendo você colocado um colchão sobre a grama e estando à sombra de uma tarde quente, enquanto afrouxa o cinto da calça e observa as formigas passearem ao seu lado e aquela brisa jogar algumas folhas das árvores sobre você. Arrote satisfeito.

Voltando ao disco (às vezes eu viajo muito, haha), um outro revés é o fato de ser um disco duplo (portanto, longo) e basicamente acústico. É extremamente enjoativo e cansativo você ficar uma hora e meia escutando isso, mesmo com boas melodias e arranjos uma hora cansa, a menos que você esteja na fazenda naquele exemplo que eu citei aí em cima, porque então logo você acabaria dormindo. E algumas canções são longas, se "Cherry Lane" ou "Mockinbird" tivessem a metade do tempo, seriam muito boas, mas não é o caso. Outra que apresenta o mesmo sintoma é a boa "Cold Roses".

Lá no final a baladona "Blossom" e "Life is Beautiful" até tentam melhorar, mas em vão.

Ryan Adams pisou na bola, talvez este seja seu pior trabalho, mas ele ainda tem crédito nesse espaço. Tomara que Cold Roses seja apenas um lapso.

Na próxima coluna, falo sem falta sobre os novos do Foo Fighters, Garbage e do Queens of the Stone Age.

E na seguinte, já até programei: Audioslave, System of a Down e Hellacopters.

Até!

Links do Sukrilius:

Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique aqui.

www.enne.com.br - banda de rock que eu produzo.

www.udora.com, www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net e www.moldest.com - Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.

merrymelodies.blogger.com.br - blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.

perplexoes.blogger.com.br - blog da Menina Enciclopédia, também comparsa do ABACAXI ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.

dyingdays.net/index.html - site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente indispensável.

sondazkavernas.blogspot.com - blog do meu amigo Terence Machado, do programa Alto Falante, único programa da tv aberta para fãs de boa música.

 
Sukrilius é músico frustrado e tenista arrependido, além de estar momentaneamente desempregado. Ofertas de emprego podem ser enviadas para o e-mail sukrilius@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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