X & Y, novo do Coldplay,
decepciona. Calma, não quero dizer que o disco seja ruim,
mas a banda resolveu simplesmente fazer o que já se espera
dela. Isso é uma das piores coisas que pode acontecer na
música pop. O Coldplay teme ousar, fez o que sempre soube
fazer, às vezes muito bem, é verdade. Vai vender que
nem água? Sim. Vai tocar na novela? Sim. Vai tocar naqueles
eventos, como uma recepção onde o buffet é
escasso e todos querem colocar a mão no bolso? Sim. Sua mãe,
sua tia e até aquela sua prima que gosta de KLB vão
gostar do disco? Sim.
X & Y é o disco perfeito, é aquele
disco extremamente certinho. Esse é o problema, ele é
certinho demais, é superproduzido, é muito luxo e
muita pompa que preenchem as caixas de som. Pegou a fórmula
do bem-sucedido A Rush of Blood to the Head, deu um "banho
de loja" (a.k.a. produção) e pronto! Não
precisava de tanto. E o Coldplay tem um exemplo bem próximo,
o Oasis. Be Here Now (1997), terceiro disco dos marrentos
de Manchester, foi lançado no ápice da "oasismania"
(sim, a referência com "beatlemania" foi proposital),
a banda vinha de dois discos absurdamente brilhantes (bem melhores
que os dois primeiros do Coldplay, diga-se de passagem) e que vendiam
horrores. Be Here Now vendeu muito e a banda se consolidou,
mas é um disco que carece de uma produção mais
simples, mais tosca, menos egocêntrica, menos Gallagher. As
canções são enormes, a produção
é caprichada, você escuta cada detalhe, mas é
um disco que poderia ficar ainda melhor se por exemplo, fosse gravado
ao vivo, mais cru, mas esse é outro papo.
Coldplay é um tipo de banda pra se escutar sentado confortavelmente
em uma poltrona, nem pense em escutá-los em pé na
fila do banco (você cansa) ou enquanto faz cooper (você
cansa MUITO). Mas a banda avançou para a categoria "pra
escutar deitado" devido aos irritantes abusos nas confecções
das melodias neste disco, que poderiam ser muito mais simples, onde
a beleza transparecia muito mais fácil, como por exemplo
"Don't Panic", "Trouble" e "Yellow",
do modesto e belo Parachutes.

"Square One" abre o disco. Início climático,
pouco depois aparecem ótimas guitarras. É como um
"susto inicial", esse "barulho bom" fica na
primeira faixa, é como "Politik", do disco anterior.
A guitarra de sonoridade lembra MUITO U2. Se você escutar
o belo riff nos exatos 2'09'' você juraria que foi o The Edge.
E logo em seguida, Chris Martin solta uns gritinhos como os do Bono,
hahaha. Ótima canção, ficaria melhor sem um
teclado que percorre quase toda a sua extensão.
Já "What If" é maravilhosa, uma das canções
mais bonitas e piegas de 2005. Canção típica
do Coldplay, voz e piano. Ela vai te derretendo aos poucos, na "bridge"
entra a bateria, baixo e guitarra. Um pouquinho antes do primeiro
minuto, aparece um arranjo de orquestra simplesmente fabuloso, lindo.
Após o refrão (aos 2'21'' exatamente), esse arranjo
arrepia exatamente por ser despojado, simplesmente por ser bonito.
Na hora me veio na cabeça "Buy It in Bottles",
de Richard Ashcroft, aliás o final até lembra "Lucky
Man" do Verve, banda que sabia muito bem lidar com esses arranjos.
E aqui a banda e o produtor acertaram em cheio. Vai fazer muito
sucesso, todo mundo vai querer tocá-la no violão,
ter ringtone, vai virar aquela febre...
"White Shadows" possui um início ruim, demasiado
anos 80 pro meu gosto. O teclado já irrita, sendo desnecessário
(o baixo ficaria melhor). No refrão, ela dá uma ligeira
melhorada, mas logo depois cansa ainda mais, por ser repetitiva
e longa, 5 minutos e meio, com destaque pro maldito teclado. O último
minuto da música é absolutamente desnecessário.
O primeiro minuto de "Fix You" é também
supérfluo, chato. O segundo minuto é interessante,
mas é só quando entra a guitarra, na metade do terceiro
minuto é que a canção começa a ficar
legal. Aí realmente ela fica MUITO legal, o complicado é
esperar dois minutos e meio pra isso.
"Talk": adivinha? Começa com voz, teclado e lá
embaixo, você ouve uma guitarrinha e torce pra que ela aumente
o volume. O refrão é até legal, com boa guitarra,
mas o teclado new age atrapalha um bocado. E a banda não
percebe e dá ênfase no maldito instrumento. Parece
até o Jamiroquai quando tinha didgeridoo (aquele berrante
australiano) ou aquele insuportável violino do Dave Matthews
Band. Esta também não convence.
Daqui pra frente a maionese desanda um pouco, algumas coisas bem
chatas aparecem, o disco vai soando enjoativo, como uma ladainha
que não acaba.
"A Message" e "Twisted Logic" até são
boas, mas não encantam.
"Speed of Sound" é razoável, mas se você
comparar com os singles anteriores da banda, dá até
vergonha.
Apenas "Swallowed in the Sea" e a faixa escondida "'Til
Kingdom Come" valem o download, pois são muito bonitas,
você não precisa escutar as demais: resumindo, é
o Chris Martin com seu falsete, piano, teclado e você torcendo
pro baixo, bateria e guitarra aparecem um pouco mais.
O Coldplay entrou em campo querendo ganhar jogando bonito, mas
nem sempre essa tática funciona, infelizmente. Vai ter gente
que vai falar que é salto alto, mas não é,
é excesso de confiança mesmo, porque a banda não
precisa jogar bonito pra vencer, o jogo está ganho antes
do seu início. O disco será um sucesso, mas o Coldplay
ainda está devendo um disco marcante, o tal "disco de
referência".
Estou esperando o X & Y... Naked, mas tomara que não
demore décadas.

Doves
Some Cities
Você
curte esse estilo de música como Coldplay, Travis, Keane,
Starsailor etc? Acabou de sair um muito bom do gênero: Some
Cities, do Doves. O Doves chega ao terceiro disco após
os bons Good Souls (2000) e The Last Broadcast
(2002). Afirmo com segurança que este é o melhor disco
dos caras, maravilhoso. O Doves não possui a fama do Coldplay,
nem movimenta tantas cifras. Mas cá entre nós, deu
um banho no "primo rico". Some Cities é
melhor que o X & Y, sem dúvida.
Difícil escolher as melhores faixas, vou citar as obrigatórias:
"Some Cities", "Black &White Town", "Almost
Forgot Myself", "Snowden", "Walk in Fire"
e "Sky Starts Falling". Aula simples e prática
de rocks calmos e simples, com um teclado sendo utilizado de uma
forma inteligente e os demais instrumentos não ficando em
segundo plano.

Ryan Adams & the Cardinals
Cold Roses
Ryan
Adams é um dos mais promissores compositores norte-americanos.
Já é considerado um ícone no segmento "alternative
country", um balaio de gatos de quem mistura rock, folk e até
blues no country, onde o maior expoente na atualidade é o
Wilco.
Ryan era do Whiskeytown, que nunca achei muita graça, muito
country pra mim. A estréia solo foi em 2000, com o bom Heartbraker.
O ápice foi o indispensável Gold (2001),
praticamente perfeito. Um ano seguinte, Demolition, uma
razoável coletânea de b-sides. A gravadora pediu um
álbum mais comercial, pois Ryan apresentou Love is Hell,
um disco calmo e depressivo. Love is Hell teve seu lançamento
adiado, antes dele foi lançado Rock N Roll, que
foi duramente criticado por limitar Ryan Adams ao rock. Rock'n'roll
básico, com pegada punk e referências setentistas.
Eu gostei, mas faço parte da minoria.
Agora, Cold Roses, duplo. A criatividade permanece em
alta, mas seria mais interessante se ele se preocupasse mais com
a qualidade das canções do que com a quantidade. Cold
Roses é um retorno ao country rock do primeiro disco
(e bem mais country do que rock), mas carece consistência,
falta um camisa 10 no meio-campo, um diferencial.
"Sweet Illusions" é bacana, mas é incompleta
mesmo com 5 minutos. "Meadowlake Street" é bonita,
o vocal lembra Jeff Buckley, mas a música custa a decolar.
"When Will You Come Back Home" é um destaque,
melodia tranquila, sutil, nítida influência de Bob
Dylan. Pra ouvir quando você estiver na fazenda e após
almoçar bastante (pois você está na fazenda,
obviamente...), tendo você colocado um colchão sobre
a grama e estando à sombra de uma tarde quente, enquanto
afrouxa o cinto da calça e observa as formigas passearem
ao seu lado e aquela brisa jogar algumas folhas das árvores
sobre você. Arrote satisfeito.
Voltando ao disco (às vezes eu viajo muito, haha), um outro
revés é o fato de ser um disco duplo (portanto, longo)
e basicamente acústico. É extremamente enjoativo e
cansativo você ficar uma hora e meia escutando isso, mesmo
com boas melodias e arranjos uma hora cansa, a menos que você
esteja na fazenda naquele exemplo que eu citei aí em cima,
porque então logo você acabaria dormindo. E algumas
canções são longas, se "Cherry Lane"
ou "Mockinbird" tivessem a metade do tempo, seriam muito
boas, mas não é o caso. Outra que apresenta o mesmo
sintoma é a boa "Cold Roses".
Lá no final a baladona "Blossom" e "Life
is Beautiful" até tentam melhorar, mas em vão.
Ryan Adams pisou na bola, talvez este seja seu pior trabalho, mas
ele ainda tem crédito nesse espaço. Tomara que Cold
Roses seja apenas um lapso.

Na próxima coluna, falo sem falta sobre os novos do Foo
Fighters, Garbage e do Queens of the Stone Age.
E na seguinte, já até programei: Audioslave, System
of a Down e Hellacopters.
Até!
Links do Sukrilius:
Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique aqui.
www.enne.com.br
- banda de rock que eu produzo.
www.udora.com,
www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net
e www.moldest.com
- Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.
merrymelodies.blogger.com.br
- blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.
perplexoes.blogger.com.br
- blog da Menina Enciclopédia, também comparsa
do ABACAXI ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.
dyingdays.net/index.html
- site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente
indispensável.
sondazkavernas.blogspot.com
- blog do meu amigo Terence Machado, do programa Alto Falante,
único programa da tv aberta para fãs de boa música. |