É aquela velha história.
A banda lança seu primeiro disco e causa uma baita repercussão.
Os fãs lotam seus shows, a imprensa cai de joelhos, você
venceu a batalha. A próxima é ainda pior: o teste
do segundo disco. Como segurar a ansiedade e as expectativas lançando
um disco que tem que ser no mínimo do mesmo nível
do primeiro? E a banda consegue e amplia ainda mais seus horizontes,
se isso seria possível. Já cheia de confiança,
chega ao terceiro disco e por melhor que ele seja (como realmente
é), a expectativa e pressão são ainda maiores,
a banda testa um retorno para a "fórmula" dos primeiros
discos ou então tenta novos caminhos. Acabam fazendo boas
canções, mas os discos não causam o furor de
outrora, os fãs até gostam, mas já não
é a mesma coisa. Aí quando já não se
esperava muita coisa, a banda retoma as influências de uma
forma diferente e faz uma obra-prima, algo do mesmo nível
dos primeiros, que supera tudo o que eles fizeram recentemente e
possibilita que a banda retome seu lugar de destaque que ainda está
lá, embora vago.
Don't Believe the Truth: até no título a
banda dá o recado, como "escute isso aqui e pare de
ler bobagens sobre nós". Depois do arrastão chamado
Definitely Maybe, um dos maiores fenômenos pop de
vendas na ilha, a banda ganhou o mundo com o What's the Story?
Morning Glory. Mais de 10 milhões de pessoas adquiriram
a pérola do britpop, onde a essência do rock inglês
clássico era atualizado para a década de 90 e propagado
aos quatro cantos do planeta, assim como a língua solta e
hilariante dos Gallagher, que ajudavam bastante no marketing.
Marketing foi o que não faltou no exagaradamente sensacional
Be Here Now, que conseguia ser ainda maior que o ego dos
irmãos Noel e Liam. Outro sucesso absoluto, também
atingiu a casa das dezenas de milhões de cópias. Mas
o disco já soava exagerado em tudo: produção,
tamanho das músicas, tudo vinha ao extremo, inclusive as
referências aos Beatles. É meu disco preferido, mas
já acusava um ou outro deslize.
The Masterplan justifica perfeitamente o título.
No ápice comercial, lançam uma coletânea de
b-sides, e uma coletânea de b-sides do Oasis pode perigosamente
superar uma coletânea de a-sides, ninguém sabe desperdiçar
tantas belas canções como eles.
Daí em diante a maionese desandou um pouco, Standing
on the Shoulder of the Giants é meia bomba, mas levando
em consideração os quatro discos anteriores da banda,
não deixa de ser um fracasso. As vendas já não
são as mesmas também, mas os Gallagher continuam os
mesmos. Gravaram um cd duplo e dvd ao vivo no estádio de
Wembley, onde os 70 mil ingressos para cada noite se esgotaram em
questão de minutos. O show foi bem razoável, a voz
do Liam estava terrível, mas a galera dava conta do recado,
sorte dos músicos, que já entraram no palco com o
jogo ganho...
Heathen Chemistry é uma sutil melhora. É
um disco bacana, que os fãs gostaram, mas que não
estremece os pilares do cenário pop, algo que nos idos de
1994 eles faziam com um riff de guitarra do T-Rex e que agora precisavam
de um riff de guitarra do Stereophonics.
Chegamos então a 2005. Da formação original
da banda, restam apenas quem deveriam restar: Noel e Liam. Os "coadjuvantes"
são os melhores desde o surgimento do Oasis: Gem Archer,
Andy Bell e o novato Zak Starkey na bateria (filho de Ringo Starr),
que estava no Who e vai dar um novo ânimo, principalmente
nos shows. Liam finalmente demonstra que está aprendendo
a escrever boas letras e o Noel faz o habitual: belas melodias,
também cercado por boas contribuições dos demais
integrantes. A banda volta revisitando o que mais manja, o rock
dos anos 60/70, mas volta diferente.
O Oasis amadureceu, envelheceu. É o disco mais calmo da
banda, nunca o piano aparece tanto, o que não quer dizer
que seja um disco de baladas, mas em várias passagens, quando
você esperava aquela guitarra rasgada e distorcida... Entra
um piano! Se ficou bom? Não, ficou excelente! É um
disco de rock feito como a banda planejou, mas com aquele "tino",
com aquele aroma pop, onde qualquer uma das 11 músicas pode
tocar no rádio, fazer sucesso, sem ser algo enjoado, tipo
a boa e cansativa "Stop Crying Your Heart Out", do disco
anterior, ou a maravilhosa e interminável "All Around
the World", do Be Here Now - essa, levou uma severa
"tesourada" das rádios, que jamais tocariam uma
canção de nove minutos e meio. Talvez o último
disco de rock que tinha essa veia "pop" sem ser claramente
pop seja o There is Nothing Left to Lose, do Foo Fighters,
de 1999. Mas esse é outro papo.
Don't Believe the Truth, que chega nas lojas dia 30 de
maio, apresenta um Oasis que veio retomar as rédeas do cenário
pop. Vai funcionar? Não posso responder, mas é inegável
que a banda corrigiu seu rumo e eu, como um mero fã, não
sinto tanta alegria em escutar um disco de inéditas dos caras
desde Be Here Now. E faz tempo, hein? Faixa por faixa:

"Turn Up the Sun": a melodia do início da canção
já deve matar de raiva o Coldplay, Travis ou qualquer banda
do gênero, por fazer algo tão simples e belo. A canção
engrena, a voz do Liam entra rasgada. Canção carregada,
teclado por trás das guitarras. O final é uma maravilha,
ela volta a ficar calma e encantadora até terminar.
"Mucky Fingers": na primeira audição, exclamei
"é igual 'Waiting for the Man', do Velvet Underground!".
Noel completou, com a sua costumeira modéstia, que é
o encontro do Velvet com Bob Dylan. Procede, pela forma que Noel
canta a canção, mas vamos voltar pro planeta Terra,
Dylan tá muito acima. É algo muito diferente do que
o Oasis já fez, é surpreendente. Melodia linear, letra
como narrativa, e que letra "You get your mucky fingers burnt
/ You get your truth or your lies you have learnt / And all your
plastic believers they leave us and they won't return". Um
piano muito bacana, além da gaita, baixo e bateria improvisando
no final. Show de bola.
"Lyla": primeiro single, tem alguma coisinha de "Street
Fighting Man", dos Stones. Melhor, impossível. Oasis
tipicamente Oasis, um alento para as rádios. Pop que pega,
refrão belíssimo, ótima letra: "Hey Lyla
/ The stars about to fall / So what you say Lyla / The world around
us makes me feel so / Small Lyla / If you can't hear me call / Then
I can't say Lyla / Heaven help you catch me when I fall". O
piano ao fundo, os sobressaltos de guitarra e o final onde um piano
calmo contrasta com o resto da canção. Um primor.
"Love Like a Bomb": canção de Liam, letra
bobinha pra você cantar pra sua namorada. Balada bonitinha,
tem uma parte bem interessante quando ele canta "Blowin' my
mind", logo em seguida tem-se a impressão de que a canção
vai explodir, ficar pesada e agitada. Nada, entra um pianinho maravilhoso,
só realçando.
"The Importance of Being Idle": uma das melhores canções
da banda, melodia que lembra bastante algumas coisas de Who, Kinks,
ou indo mais longe, Animals e Yardbirds. O vocal de Noel encarna
com perfeição o sentido de sua letra. Uma das melhores
letras do Oasis, sem dúvida: "I sold my soul for the
second time / Cos the man, he don't pay me / I begged my landlord
for some more time / He said “Son, the bills waiting // My
best friend called me the other night / He said “Man, are
you crazy?" / My girlfriend told me to get a life / She said
“boy, you lazy” // But I don't mind / As long as there's
a bed beneath the stars that shine / I'll be fine / If you give
me a minute / A man's got a limit / You can't get a life if your
hearts' not in it". Isso aí são apenas as duas
primeiras estrofes e o refrão e creio não ter como
não nos identificarmos com alguma parte dela.
"The Meaning of Soul": punk rock bacana, letra de Liam.
Porém acústico. Ficou inusitado, interessante, ao
vivo se tocar plugado deve empolgar muito, até porque a canção
não possui nem dois minutos.
"Guess God Thinks I'm Abel": ótima balada de Liam,
destaque para os violões e piano ao fundo. Mas o ápice
são os inusitados dez segundos sinais, com o advento da bateria.
Muito bom.
"Part of the Queue": canção de Noel, bastante
inspirada em Paul Weller. Ótima letra, onde ele se encontra
perdido, enquanto a bateria, baixo e piano te surpreendem. Outra
ótima canção.
"Keep the Dream Alive": outra bela canção,
preste atenção no baixo, muito bom. Canção
mais anh, "climática", talvez a única canção
do disco que poderia ser um pouco mais curta, apesar de não
ser tão longa assim (5'47'').
"A Bell Will Ring": rock com letra de Gem Archer, tem
um estilo que remete aos dois últimos álbuns, o que
não compromete o conjunto do disco.
"Let There Be Love": poderia estar perfeitamente entre
os b-sides renegados de Let It Be, Abbey Road
ou naquelas coisas aparentemente desconexas que ficaram de fora
do Álbum Branco. Balada beatle do Oasis, com "aquele
piano", "aquele violão", tudo no tempero certo,
Noel Gallagher é um tremendo chef da culinária pop.
Antigo b-side, foi reformulado, agora Noel e Liam dividem as vozes.
Fecha de maneira irrepreensível o disco, o tecladinho no
final eu até acho que tem um dedo do Phil Spector, hahaha.

Weezer
Make Believe
Pegue
o primeiro parágrafo do texto sobre o Oasis. Volte lá,
leia-o. Ele se encaixa perfeitamente para o Weezer. A banda possui
dois primeiros discos sensacionais: Weezer (ou Blue
Album) e Pinkerton. No terceiro, muita gente falou
mal (não eu), apesar de algumas músicas terem repercutido
bastante. A banda navegava meio sem rumo até que se encontrou
com Make Believe, o próprio título talvez
seja uma chamada pros fãs que só curtiram os dois
primeiros discos.
Realmente, vale muito a pena dar uma chance pra esse disco. Rivers
Cuomo volta a transpirar emoção em suas melodias e
a banda supera (em muito) o antecessor, Maladroit. As músicas:
"Perfect Situation" é uma das coisas mais bonitas
que escutei até agora, pop ao extremo. Mais pop ainda é
a "This Such a Pity", com estilo bem anos 80, chega a
ser engraçada, é a melhor canção brega
que o Weezer já fez. "Hold Me" acabou de roubar
de "Perfect Situation" o título de melhor música
do disco, é puro Weezer, não preciso explicar, humilha
qualquer bandinha que gosta de se fazer de tristonha. E a coisa
não muda daqui em diante. O nível permanece altíssimo
em todas as outras músicas, vou parar de citá-las.
Felizmente, o Weezer reencontrou a veia pop e enfiou a agulha liberando
toda a sua essência, prazerosa e viciante ao extremo. Entregue-se.
Make Believe, surpreendentemente, talvez seja o melhor
disco da banda. Minhas próximas audições vão
me dizer se estou certo ou não. O único deslize é
a faixa que abre o disco, a boba "Beverly Hills". O resto
é um primor.

Show do Enne, dia 16/06 (5ªfeira), junto com a banda Astronautas
(PE) no bar A Obra, em Belo Horizonte. Ingressos a 6 reais, informações
www.aobra.com.br.
E entre os dias 17 e 19 de junho, o Enne toca no estado do Rio de
Janeiro, por enquanto estão confirmados shows em São
Gonçalo e Niterói. Mais detalhes nos Drops de Abacaxi
(nosso blog na página inicial) ou no www.enne.com.br.

Nos próximos textos, muitos discos pra ouvir e comentar.
A lista é grande e só aumenta: Ryan Adams, Audioslave,
Garbage, System of a Down, Stereophonics, Teenage Fanclub, Bruce
Springsteen, Ben Folds Five, Gorillaz, Jon Spencer Blues Explosion,
Nine Inch Nails, Hot Hot Heat, Beck, Mars Volta, Queens of the Stone
Age e Moby. Pretendo comentar todos. Pretendo, se realmente eu vou,
eu não sei.
Links do Sukrilius:
Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique aqui.
www.enne.com.br
- banda de rock que eu produzo.
www.udora.com,
www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net
e www.moldest.com
- Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.
merrymelodies.blogger.com.br
- blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.
perplexoes.blogger.com.br
- blog da Menina Enciclopédia, também comparsa
do ABACAXI ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.
dyingdays.net/index.html
- site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente
indispensável.
sondazkavernas.blogspot.com
- blog do meu amigo Terence Machado, do programa Alto Falante,
único programa da tv aberta para fãs de boa música. |