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Beagá, 25 de abril de 2005 d.C.
 
A.M.B.D.T.O.T.D.U.S. (*)
Por Sukrilius
 

Voltei pra revelar meu mais recente vício. Vem de Glasgow, Escócia, terra natal de grandes bandas de rock mais calmo, do chamado "new acoustic". A semelhança pára por aí. Essa banda até possui algumas coisas bem calminhas, mas geralmente o que chama atenção é o barulho e a qualidade das melodias, nada convencionais.

O grupo se chama Biffy Clyro, muito pouco conhecido por aqui. Então, vou apresentá-los: Simon Neil canta e toca guitarra, Ben Johnston inventa mil coisas na bateria e James Johnston acompanha tudo no baixo.

Dei uma breve pesquisada na internet e descobri pouca coisa. Muito jornalista escreveu que a banda possui "nítida" influência de Weezer, pois todos são declaradamente fãs. Outros dizem que o Biffy está na cena "punk-pop", ao lado de Green Day, Blink 182 e Sum 41. Até concordo que eles possuem certa influência de todas essas bandas citadas, mas eu classificaria o estilo do Biffy Clyro como "pós-grunge", pois além de bandas do grunge, ouço algumas coisas que remetem ao Slint e Sunny Day Real Estate. Enfim, Biffy Clyro é um nítido expoente do rock alternativo dos anos 90. Pronto, facilitei pra vocês.

E põe alternativo nisso. As músicas mudam constantemente de andamento e de estilo também. Algo pode começar extremamente barulhento e acabar sutil como uma canção de ninar e vice-versa. Confesso que a guitarra é até previsível em algumas partes, principalmente nas mais pesadas, parece que o Simon Neil sempre usa a mesma distorção, sei lá, não sou expert em guitarra. O vocal contém uma dose carregada de emoção, o que flerta com toda aquela turma do rock mais "emo" (mas não chega a tanto). Vou fazer aqui um pequeno e breve guia pra quem quer conhecê-los, com o melhor deles:

Blackened Sky (2000)

Boa estréia. Pode começar pela primeira faixa, é um bom demonstrativo de como são as canções da banda: início sutil, bacana, até pop. Depois a canção ganha força e peso e continua bela. Ah, se chama "Joy. Discovery. Invention".

Faixa 2, eu classificaria como "pérola pop". Poderia tocar facilmente nas rádios, ou em qualquer programa supérfluo da MTV. Balada pra lá de bonita, que ganha peso no fim. É a faixa "27".

Pule pra 4, "Kill the Old, Torture their Young". Nos primeiros 45 segundos, parece que se ouve uma banda de metal, depois a canção se transforma, ficando calma e doce, até um piano aparece. Quando começa a ficar chata, volta a ganhar uma guitarra a mais e vai crescendo. O final é uma jam das melhores, vale muito a pena.

Um dos destaques é a faixa 8, chamada "57". Até tentei tocá-la na bateria e posso dizer que consegui. Mas tive que pular os 30 segundos iniciais, não fiz algumas firulas que o batera faz nos pratos e cometi alguns erros, saindo do tempo. Sem contar que perdi o controle do bumbo em algumas partes e errei feio a parte final. Quer dizer, foi uma lástima. Essa canção é maravilhosa, não tenho adjetivos para descrevê-la.

A faixa 11, "Stress of the Sky", é outra boa pedida, onde a banda mostra como é interessante fazer canções variadas e que ao mesmo tempo prendem sua atenção.

Vertigo Of Bliss (2003)

Já está arranhando, o disco que eu mais escutei nos últimos meses. O melhor momento da banda em uma série de músicas memoráveis. A sequência inicial é de tirar o fôlego:

"Bodies in Flight", o disco abre com barulho da melhor qualidade. Ouça bem alto.

A faixa seguinte é "The Ideal Height", que é um encontro da esquisitice com o primor. O mais bacana é que essa esquisitice tem um tempero pop e o refrão é poderoso.

"With Aplomb", faixa 3. Um belo violão, uma bateria bem sutil e um bumbo inesperado e legal. Entra uns arranjos de orquestra, que só enriquece. Lá pro final, como já era de se esperar, a canção fica pesada. Mas o legal é que os arranjos sutis permanecem.

"A Day of..." (faixa 4) começa pesada, com um vocal tipo Deftones e continua nesse compasso. É legal ver o contraste entre a melodia e o vocal. Outra ótima canção.

A faixa 5 é outra que vale muito o download, uma das melhores da banda, se chama "Liberate the Illiterate Among Mingers". Divertida ao extremo.

"Questions and Answers" é a faixa 7. Forte candidata a hit, ótimo instrumental, outra que pode ser servida de aperitivo pra quem não conhece bem a banda.

Faixa 8: "Eradicate the Doubt", pesadíssima e maravilhosa. Confira. Ponto final.

"When the Faction's Fractioned" é a faixa seguinte, outra com uma melodia que se destaca, grudando na sua cabeça sem ser chata, repetitiva. Excelente.

Faixa 10. Outra com nome esquisito: "Toys, Toys, Toys, Choke, Toys, Toys, Toys". Os últimos 3 minutos da canção (que tem 5'30'') são primorosos.

Infinity Land (2004)

Depois de um susto inicial, você percebe que ele é muito bom, mas que não é fácil chegar a essa conclusão. É como um "efeito Kid A", você se contagia aos poucos.

A primeira, "Glitter and Trauma" é estranha demais, começa eletrônica, depois de um minuto entra uma guitarrinha que lembra Strokes e alguns segundos depois a barulheira que já conhecemos. Aí a canção muda completamente e com quase dois minutos aparece o vocal. Depois que você se perde em tanta loucura, você se encontra e depara com mais uma canção bacana.

A segunda, também é bem estranha, a "Strung to Your Ribcage". Bem barulhenta e muito boa, cheia de quebras e variações.

"My Recovering Injection" é mais uma prova de como essa banda surpreende. Começa um reggae e então, do nada, a guitarra repete alguns acordes e a canção vai mudando. Entra o vocal e a guitarra segue esquisita, mas já não é reggae, é Biffy Clyro mesmo. Chega o refrão e a música é decifrada, fica pop e bacana, mas depois de muita esquisitice. Legal.

A faixa "The Atrocity" é uma balada com voz e piano nos moldes de Coldplay. Aí entra um violãozinho e ela não muda. Mais uma vez o Biffy Clyro surpreende, fazendo uma bela canção e mantendo a melodia de uma forma convencional.

A faixa seguinte é bem quebrada, chama-se "Some Kind of Wizard Styles", e eu também recomendo, principalmente por causa da bateria, empolgante.

"Wave Upon Wave Upon Wave" também é muito interessante, meio difícil de explicar a melodia, onde a guitarra, bateria, baixo, palmas (!) se encaixam de uma forma interessante. E como já era esperado, a música ganha peso e em seguida fica mais calma, climática, lembrando algumas coisas como Incubus. Isso tudo aconteceu antes do segundo minuto da música, que tem quase seis minutos... Pois é, depois da metade ela muda novamente, sem perder a qualidade.

"Only One World Comes to Mind" é quase perfeita, só tem um riff de guitarra no final da música que é horrível, mas mesmo assim a música está acima da média.

Mais esquisitices da melhor qualidade, com uma melodia nada convencional: é a "There's No Such a Thing as a Jaggy Snake". O vocal do início irrita um pouco, mas depois do primeiro minuto você se perde no meio de tanta variação, de tanta coisa insana, pura diversão.

Caramba, tudo isso prossegue na "The Kids from Kibble and the Fist". O início parece thrash metal, depois a canção se acalma, entrando até um sutil instrumento de sopro, que agora me fugiu o nome. E no final, volta a tosqueira. Muito boa.

Enfim, Biffy Clyro é uma ótima pedida pra quem gosta de rock pouco convencional, aquele rock que te surpreende a cada instante, que foge dos padrões da melodia pop fácil (A/B/refrão/A ou B ou C/refrão/solo/refrão) e que, por absoluta falta de palavras, honra o rótulo de rock alternativo.

Mark Lanegan
Bubblegum

É uma tremenda injustiça que só agora eu tenha escutado este fabuloso disco (sexto dele), lançado no ano passado. Entraria no meu Top 30 de 2004. Mark Lanegan tem uma das vozes mais arrepiantes do rock, nos transmitindo uma imediata sensação de tristeza e levando os ouvintes a um ambiente enfumaçado, como um bar vazio, com uma garrafa de uísque quase vazia, vários cigarros consumidos e uma absurda vontade de se matar. A voz de Lanegan vai direto ao coração, sem escalas. É um prazer imediato.

Em 15 faixas, Lanegan desfila canções arrebatadoras, que te trazem chuva, frio, tristeza e agonia, nesses tempos quentes e aparentemente alegres. A canção de abertura, "When Your Number Isn't Up", é uma das coisas mais arrepiantes da minha vida, me deixa mais arrepiado que arranhar gelo. Na faixa seguinte, PJ Harvey contribui de uma forma maliciosa, tornando a faixa "Hit the City" outro grande momento do disco, remetendo às Desert Sessions. Em "Metamphetamine Blues", Lanegan se aproxima de Queens of the Stone Age, contando com as participações de Josh Homme e Nick Olivieri. "One Hundred Days" te leva pra um cenário como aqueles filmes de Quentin Tarantino no deserto, em que você está sozinho dirigindo um carro e pensando na vida, ou melhor, na morte.

Pra quem quer rock'n'roll, vá direto pra faixa 8, "Sideways in Reverse". "Head" é ousada e bacana. "Driving Death Valley Blues" é outra que lembra bastante Queens of the Stone Age, mais precisamenete a música "Go With the Flow".

Para fãs de Screaming Trees (sua ex-banda), Queens of the Stone Age e, principalmente, para quem curte canções mais calmas, carregadas de nicotina.

...And You Will Know Us By the Trail Of Dead
Worlds Apart

O Trail of Dead retorna com talvez o seu melhor álbum. Worlds Apart começa com a já tradicional faixa instrumental e emenda na grandiosa e complexa "Will You Smile Again?", linda em cada um dos seus 410 segundos. A faixa-título não fica atrás, com ótimas guitarras, bateria, um vocal empolgante e um coral de arrepiar.

"The Summer of '91" é até agora uma das 5 melhores baladas do ano, com toda a grandiosidade dos arranjos e orquestrações, lembrando os melhores momentos do Smashing Pumpkins. No decorrer do disco, o alto nível prossegue: "The Rest Will Follow" é mais uma belíssima canção. "Caterwaul" idem, mais rock'n'roll. "All White" é maravilhosa, imediatamente me lembra o clima do "P.U.L.S.E.", o disco ao vivo do Pink Floyd, os backing vocals femininos me fazem recordar de "Shine on Your Crazy Diamond" e a voz lembra um pouco Roger Waters. Mas voltemos ao Trail of Dead...

"The Best" pode não ser a melhor faixa do disco, mas também vale a pena. Aliás, "valer a pena" é o mínimo que posso dizer sobre este álbum, que recomendo com veemência.

Top 5

Músicas que os títulos são formados por números:

1. Radiohead - "2+2=5"
2. Smashing Pumpkins - "1979"
3. Dave Matthews Band - "41"
4. Biffy Clyro - "57"
5. Ryan Adams - "1974"

E ainda tinha Blur, Green Day, Gorillaz...

Próximos shows do Enne, no Matriz (aqui em BH), pra quem se interessar:

Dia 07/05, 14 horas, com as bandas Faster Days (SP), Moldest, Endemia e F!x. Ingressos a 5 reais (antecipado) e 6 reais (na porta).

Dia 22/05, 14 horas, com as bandas Dance of Days (SP), Sorry Figure (RJ), Mannual e Bur-9. Ingressos a 11 reais (antecipado) e 13 reais (na hora).

O Enne deve tocar no Rio de Janeiro em junho e pretende voltar a São Paulo em agosto, pra desespero do Indiegesto.

(*) Ah, o título da coluna quer dizer "a melhor banda de todos os tempos da última semana", mas não quis deixar explícito para que ninguém faça uma associação com aquela canção ridícula dos Titãs.

Links do Sukrilius:

Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique aqui.

www.enne.com.br - banda de rock que eu produzo.

www.udora.com, www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net e www.moldest.com - Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.

merrymelodies.blogger.com.br - blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.

perplexoes.blogger.com.br - blog da Menina Enciclopédia, também comparsa do ABACAXI ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.

dyingdays.net/index.html - site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente indispensável.

sondazkavernas.blogspot.com - blog do meu amigo Terence Machado, do programa Alto Falante, único programa da tv aberta para fãs de boa música.

 
Sukrilius é músico frustrado e tenista arrependido, além de estar momentaneamente desempregado. Ofertas de emprego podem ser enviadas para o e-mail sukrilius@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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