Voltei pra revelar meu mais recente
vício. Vem de Glasgow, Escócia, terra natal de grandes
bandas de rock mais calmo, do chamado "new acoustic".
A semelhança pára por aí. Essa banda até
possui algumas coisas bem calminhas, mas geralmente o que chama
atenção é o barulho e a qualidade das melodias,
nada convencionais.
O grupo se chama Biffy Clyro, muito pouco conhecido
por aqui. Então, vou apresentá-los: Simon Neil canta
e toca guitarra, Ben Johnston inventa mil coisas na bateria e James
Johnston acompanha tudo no baixo.
Dei uma breve pesquisada na internet e descobri pouca coisa. Muito
jornalista escreveu que a banda possui "nítida"
influência de Weezer, pois todos são declaradamente
fãs. Outros dizem que o Biffy está na cena "punk-pop",
ao lado de Green Day, Blink 182 e Sum 41. Até concordo que
eles possuem certa influência de todas essas bandas citadas,
mas eu classificaria o estilo do Biffy Clyro como "pós-grunge",
pois além de bandas do grunge, ouço algumas coisas
que remetem ao Slint e Sunny Day Real Estate. Enfim, Biffy Clyro
é um nítido expoente do rock alternativo dos anos
90. Pronto, facilitei pra vocês.
E põe alternativo nisso. As músicas mudam constantemente
de andamento e de estilo também. Algo pode começar
extremamente barulhento e acabar sutil como uma canção
de ninar e vice-versa. Confesso que a guitarra é até
previsível em algumas partes, principalmente nas mais pesadas,
parece que o Simon Neil sempre usa a mesma distorção,
sei lá, não sou expert em guitarra. O vocal contém
uma dose carregada de emoção, o que flerta com toda
aquela turma do rock mais "emo" (mas não chega
a tanto). Vou fazer aqui um pequeno e breve guia pra quem quer conhecê-los,
com o melhor deles:
Blackened Sky (2000)
Boa
estréia. Pode começar pela primeira faixa, é
um bom demonstrativo de como são as canções
da banda: início sutil, bacana, até pop. Depois a
canção ganha força e peso e continua bela.
Ah, se chama "Joy. Discovery. Invention".
Faixa 2, eu classificaria como "pérola pop". Poderia
tocar facilmente nas rádios, ou em qualquer programa supérfluo
da MTV. Balada pra lá de bonita, que ganha peso no fim. É
a faixa "27".
Pule pra 4, "Kill the Old, Torture their Young". Nos
primeiros 45 segundos, parece que se ouve uma banda de metal, depois
a canção se transforma, ficando calma e doce, até
um piano aparece. Quando começa a ficar chata, volta a ganhar
uma guitarra a mais e vai crescendo. O final é uma jam das
melhores, vale muito a pena.
Um dos destaques é a faixa 8, chamada "57". Até
tentei tocá-la na bateria e posso dizer que consegui. Mas
tive que pular os 30 segundos iniciais, não fiz algumas firulas
que o batera faz nos pratos e cometi alguns erros, saindo do tempo.
Sem contar que perdi o controle do bumbo em algumas partes e errei
feio a parte final. Quer dizer, foi uma lástima. Essa canção
é maravilhosa, não tenho adjetivos para descrevê-la.
A faixa 11, "Stress of the Sky", é outra boa pedida,
onde a banda mostra como é interessante fazer canções
variadas e que ao mesmo tempo prendem sua atenção.
Vertigo Of Bliss (2003)
Já
está arranhando, o disco que eu mais escutei nos últimos
meses. O melhor momento da banda em uma série de músicas
memoráveis. A sequência inicial é de tirar o
fôlego:
"Bodies in Flight", o disco abre com barulho da melhor
qualidade. Ouça bem alto.
A faixa seguinte é "The Ideal Height", que é
um encontro da esquisitice com o primor. O mais bacana é
que essa esquisitice tem um tempero pop e o refrão é
poderoso.
"With Aplomb", faixa 3. Um belo violão, uma bateria
bem sutil e um bumbo inesperado e legal. Entra uns arranjos de orquestra,
que só enriquece. Lá pro final, como já era
de se esperar, a canção fica pesada. Mas o legal é
que os arranjos sutis permanecem.
"A Day of..." (faixa 4) começa pesada, com um
vocal tipo Deftones e continua nesse compasso. É legal ver
o contraste entre a melodia e o vocal. Outra ótima canção.
A faixa 5 é outra que vale muito o download, uma das melhores
da banda, se chama "Liberate the Illiterate Among Mingers".
Divertida ao extremo.
"Questions and Answers" é a faixa 7. Forte candidata
a hit, ótimo instrumental, outra que pode ser servida de
aperitivo pra quem não conhece bem a banda.
Faixa 8: "Eradicate the Doubt", pesadíssima e
maravilhosa. Confira. Ponto final.
"When the Faction's Fractioned" é a faixa seguinte,
outra com uma melodia que se destaca, grudando na sua cabeça
sem ser chata, repetitiva. Excelente.
Faixa 10. Outra com nome esquisito: "Toys, Toys, Toys, Choke,
Toys, Toys, Toys". Os últimos 3 minutos da canção
(que tem 5'30'') são primorosos.
Infinity Land (2004)
Depois
de um susto inicial, você percebe que ele é muito bom,
mas que não é fácil chegar a essa conclusão.
É como um "efeito Kid A", você se
contagia aos poucos.
A primeira, "Glitter and Trauma" é estranha demais,
começa eletrônica, depois de um minuto entra uma guitarrinha
que lembra Strokes e alguns segundos depois a barulheira que já
conhecemos. Aí a canção muda completamente
e com quase dois minutos aparece o vocal. Depois que você
se perde em tanta loucura, você se encontra e depara com mais
uma canção bacana.
A segunda, também é bem estranha, a "Strung
to Your Ribcage". Bem barulhenta e muito boa, cheia de quebras
e variações.
"My Recovering Injection" é mais uma prova de
como essa banda surpreende. Começa um reggae e então,
do nada, a guitarra repete alguns acordes e a canção
vai mudando. Entra o vocal e a guitarra segue esquisita, mas já
não é reggae, é Biffy Clyro mesmo. Chega o
refrão e a música é decifrada, fica pop e bacana,
mas depois de muita esquisitice. Legal.
A faixa "The Atrocity" é uma balada com voz e
piano nos moldes de Coldplay. Aí entra um violãozinho
e ela não muda. Mais uma vez o Biffy Clyro surpreende, fazendo
uma bela canção e mantendo a melodia de uma forma
convencional.
A faixa seguinte é bem quebrada, chama-se "Some Kind
of Wizard Styles", e eu também recomendo, principalmente
por causa da bateria, empolgante.
"Wave Upon Wave Upon Wave" também é muito
interessante, meio difícil de explicar a melodia, onde a
guitarra, bateria, baixo, palmas (!) se encaixam de uma forma interessante.
E como já era esperado, a música ganha peso e em seguida
fica mais calma, climática, lembrando algumas coisas como
Incubus. Isso tudo aconteceu antes do segundo minuto da música,
que tem quase seis minutos... Pois é, depois da metade ela
muda novamente, sem perder a qualidade.
"Only One World Comes to Mind" é quase perfeita,
só tem um riff de guitarra no final da música que
é horrível, mas mesmo assim a música está
acima da média.
Mais esquisitices da melhor qualidade, com uma melodia nada convencional:
é a "There's No Such a Thing as a Jaggy Snake".
O vocal do início irrita um pouco, mas depois do primeiro
minuto você se perde no meio de tanta variação,
de tanta coisa insana, pura diversão.
Caramba, tudo isso prossegue na "The Kids from Kibble and
the Fist". O início parece thrash metal, depois a canção
se acalma, entrando até um sutil instrumento de sopro, que
agora me fugiu o nome. E no final, volta a tosqueira. Muito boa.
Enfim, Biffy Clyro é uma ótima pedida pra quem gosta
de rock pouco convencional, aquele rock que te surpreende a cada
instante, que foge dos padrões da melodia pop fácil
(A/B/refrão/A ou B ou C/refrão/solo/refrão)
e que, por absoluta falta de palavras, honra o rótulo de
rock alternativo.

Mark Lanegan
Bubblegum
É
uma tremenda injustiça que só agora eu tenha escutado
este fabuloso disco (sexto dele), lançado no ano passado.
Entraria no meu Top 30 de 2004. Mark Lanegan tem uma das vozes mais
arrepiantes do rock, nos transmitindo uma imediata sensação
de tristeza e levando os ouvintes a um ambiente enfumaçado,
como um bar vazio, com uma garrafa de uísque quase vazia,
vários cigarros consumidos e uma absurda vontade de se matar.
A voz de Lanegan vai direto ao coração, sem escalas.
É um prazer imediato.
Em 15 faixas, Lanegan desfila canções arrebatadoras,
que te trazem chuva, frio, tristeza e agonia, nesses tempos quentes
e aparentemente alegres. A canção de abertura, "When
Your Number Isn't Up", é uma das coisas mais arrepiantes
da minha vida, me deixa mais arrepiado que arranhar gelo. Na faixa
seguinte, PJ Harvey contribui de uma forma maliciosa, tornando a
faixa "Hit the City" outro grande momento do disco, remetendo
às Desert Sessions. Em "Metamphetamine Blues",
Lanegan se aproxima de Queens of the Stone Age, contando com as
participações de Josh Homme e Nick Olivieri. "One
Hundred Days" te leva pra um cenário como aqueles filmes
de Quentin Tarantino no deserto, em que você está sozinho
dirigindo um carro e pensando na vida, ou melhor, na morte.
Pra quem quer rock'n'roll, vá direto pra faixa 8, "Sideways
in Reverse". "Head" é ousada e bacana. "Driving
Death Valley Blues" é outra que lembra bastante Queens
of the Stone Age, mais precisamenete a música "Go With
the Flow".
Para fãs de Screaming Trees (sua ex-banda), Queens of the
Stone Age e, principalmente, para quem curte canções
mais calmas, carregadas de nicotina.

...And You Will Know Us By the Trail Of Dead
Worlds Apart
O
Trail of Dead retorna com talvez o seu melhor álbum. Worlds
Apart começa com a já tradicional faixa instrumental
e emenda na grandiosa e complexa "Will You Smile Again?",
linda em cada um dos seus 410 segundos. A faixa-título não
fica atrás, com ótimas guitarras, bateria, um vocal
empolgante e um coral de arrepiar.
"The Summer of '91" é até agora uma das
5 melhores baladas do ano, com toda a grandiosidade dos arranjos
e orquestrações, lembrando os melhores momentos do
Smashing Pumpkins. No decorrer do disco, o alto nível prossegue:
"The Rest Will Follow" é mais uma belíssima
canção. "Caterwaul" idem, mais rock'n'roll.
"All White" é maravilhosa, imediatamente me lembra
o clima do "P.U.L.S.E.", o disco ao vivo do Pink Floyd,
os backing vocals femininos me fazem recordar de "Shine on
Your Crazy Diamond" e a voz lembra um pouco Roger Waters. Mas
voltemos ao Trail of Dead...
"The Best" pode não ser a melhor faixa do disco,
mas também vale a pena. Aliás, "valer a pena"
é o mínimo que posso dizer sobre este álbum,
que recomendo com veemência.

Top 5
Músicas que os títulos são formados por números:
1. Radiohead - "2+2=5"
2. Smashing Pumpkins - "1979"
3. Dave Matthews Band - "41"
4. Biffy Clyro - "57"
5. Ryan Adams - "1974"
E ainda tinha Blur, Green Day, Gorillaz...

Próximos shows do Enne, no Matriz (aqui em BH), pra quem
se interessar:
Dia 07/05, 14 horas, com as bandas Faster Days (SP), Moldest, Endemia
e F!x. Ingressos a 5 reais (antecipado) e 6 reais (na porta).
Dia 22/05, 14 horas, com as bandas Dance of Days (SP), Sorry Figure
(RJ), Mannual e Bur-9. Ingressos a 11 reais (antecipado) e 13 reais
(na hora).
O Enne deve tocar no Rio de Janeiro em junho e pretende voltar
a São Paulo em agosto, pra desespero do Indiegesto.

(*) Ah, o título da coluna quer dizer "a melhor banda
de todos os tempos da última semana", mas não
quis deixar explícito para que ninguém faça
uma associação com aquela canção ridícula
dos Titãs.
Links do Sukrilius:
Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique aqui.
www.enne.com.br
- banda de rock que eu produzo.
www.udora.com,
www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net
e www.moldest.com
- Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.
merrymelodies.blogger.com.br
- blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.
perplexoes.blogger.com.br
- blog da Menina Enciclopédia, também comparsa
do ABACAXI ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.
dyingdays.net/index.html
- site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente
indispensável.
sondazkavernas.blogspot.com
- blog do meu amigo Terence Machado, do programa Alto Falante,
único programa da tv aberta para fãs de boa música. |