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Beagá, 13 de dezembro de 2004 d.C.
 
R.E.M., enfim, tropeça
Por Sukrilius
 

O Reveal já passou raspando. Agora, não tem jeito. Around the Sun é o primeiro tropeço de uma discografia até então brilhante. O disco não chega a ser ruim, mas está muito abaixo do que uma banda como o R.E.M. pode nos oferecer.

Around the Sun assemelha-se com um disco solo do Michael Stipe. As presenças de Mike Mills (seu baixo e sua bela voz) e da guitarra de Peter Buck são tímidas. Bateria? Pouquíssima. Tudo bem, Up (1999) também segue na mesma linha e considero um disco brilhante, um dos três melhores da banda. O que faltou, então?

Aqui falta consistência, a banda está demasiadamente "comportada", assumiram definitivamente o rótulo de "Adult Alternative". Não peço pra voltarem às guitarras de Monster (1994), nem à consistência do melhor disco deles na minha opinião (New Adventures in Hi-Fi, de 1996), peço apenas que eles voltem a ser o R.E.M.. Neste álbum, vejo apenas alguns espasmos. A banda tornou-se convencional, conservadora.

O R.E.M. foi considerada por mim "a melhor banda de rock do mundo" no final dos anos 90 simplesmente por fazerem músicas muito acima da média das demais bandas. Sem contar que sempre ousaram, nunca repetiram fórmulas e não caíram nas "facilidades do pop". Em Reveal houve uma queda considerável, com essas tais canções se resumindo a quatro ou cinco.

Agora, vem este álbum, onde o R.E.M. faz o trivial, um pop medíocre como milhares de bandas que o copiam. Se Around the Sun fosse o primeiro disco de qualquer banda, seria um bom disco, algo interessante. Mas pra quem conhece muito bem o R.E.M., sabe que eles ficaram devendo e não foi pouco.

O clima pode ser até o mesmo de Automatic for the People (1992), mas a inspiração infelizmente não é. Caso o próximo álbum não ultrapasse este em termos de qualidade, seria uma ótima idéia que a banda encerrasse suas atividades, tendo todo um respeito e respaldo de público, crítica e demais artistas. Algo que eles estão começando a perder. Vocês não imaginam como é difícil escrever isto, mas é um fato.

Around the Sun, faixa por faixa:

"Leaving New York": o começo é bom. Uma boa balada que, apesar de não chegar perto de nada do Automatic for the People, não faz feio. O refrão é lindo, é o ponto alto: "It's easier to leave than to be left behind / Leaving was never my proud / Leaving New York, never easy / I saw the light fading out". A "bridge" (ponte para o refrão) tem o backing vocal do Michael Stipe. Lógico, a pergunta é: cadê o Mike Mills, o melhor backing vocal do rock pós-beatle (empatado com John Frusciante do Red Hot Chili Peppers)???

"Electron Blue": balada que não chega a ser ruim, mas que pouco acrescenta. O vocal de Stipe, cheio de reverb, irrita. O refrão é bom, mas se perde no meio de um piano e de batidas eletrônicas que nada contribuem para realçar a canção. É aquele tipo de música que você acha "legal, mas falta alguma coisa" e logo se esquece dela. Tem um clima que lembra algumas coisinhas chatas e climáticas do Reveal.

"The Outsiders": esta canção divide-se em duas partes. A primeira é apenas razoável, uma balada com uma guitarra bela e sutil de Peter Buck. A letra é política que só servirá agora em 2008. A segunda metade é uma das coisas mais ridículas que já ouvi. Entra o rapper Q-Tip (A Tribe Called Quest) e avacalha o que já não estava tão bom. Lastimável a tentativa da banda de soar "moderninha", "antenada", ou "democrata". Nada contra tais participações, em 1991, no disco Out of Time, o rapper KRS-One participou da canção "Radio Song" e ficou bem legal. Agora não combinou, ficou melancólico, parecendo aqueles artistas decadentes que fazem uns "duetos" com alguma celebridade pop só pra tentar se reeguer. Triste.

"Make It All Ok": enfim, um alívio. Boa balada. Não é nenhuma maravilha, mas por alguns instantes o velho R.E.M. aparece, na melodia (piano, bateria) e na voz de Michael Stipe. Passou perto, gerou algum conforto.

"Final Straw": letra muito boa, com clara intenção política. A melodia cansa um pouco, é um folk que não muda. Faltou uma bateria. Mas a canção é aprovada, com restrições.

"I Wanted to Be Wrong": começo razoável, refrão chatíssimo. Teclado extremamente conservador, bem clichê. Esse não é o R.E.M. que conheço.

"Wanderlust": um pouco mais agitada, a guitarra de Buck é bacana, mas não salva. Abaixo da média, sem nenhum grande momento.

"Boy in the Well": finalmente, o bom e velho R.E.M. comparece. A melhor do disco, muito bonita. Excelente refrão, a voz de Mills aparece, o piano é de arrepiar, violões surgem no momento exato. A banda honra sua fama de moldar pérolas pop.

"Aftermath": bonita, mas não encanta. Fica aquela sensação de que "falta alguma coisa" para que a canção se torne inesquecível. Os ingredientes estão todos lá, mas está faltando o tempero, aquilo que o R.E.M. sempre utilizou anteriormente.

"High Speed Train": chata, difícil escutar inteira. Jamais pensei escrever isso sobre algo do R.E.M., posso estar sendo repetitivo, mas isso é algo novo e estranho pra mim, fã assumido da banda. Bem fraquinha. Fui à cozinha buscar um biscoito e a canção não mudou, a mesma chatice. Falta ousadia, não só nesta canção. Talvez aquele seu tio que gosta de Paul Simon possa vir a gostar dela...

"The Worst Joke Ever": não tem a mínima graça mesmo. Bem ruinzinha, arrastada, enjoada. Por incrível que pareça, a voz de Stipe cansa. Pule-a também.

"The Ascent of Man": lamentável, a pior do disco. A voz de Stipe ultrapassa todos os limites do "tolerável" no refrão, um dos piores momentos da banda que já escutei. Três canções ruins consecutivas. Que coisa...

"Around the Sun": mediana, passa quase que sem chamar atenção. O final fica até um pouco melhor, ameniza a sequência infeliz.

Após a análise, chego a triste conclusão de que Around the Sun É SIM um disco ruim. O R.E.M. é uma das bandas que me fez gostar de música, que moldou meu gosto musical durante toda a década de 90, que me fez chorar de alegria no Rock in Rio, que carrego para sempre com uma tatuagem na perna. É a banda que, pelo que fez, mudou minha visão da música, me fez gostar de uma música bela e sincera. Eles podem estar sendo sinceros, mas não vejo mais tanta beleza.

É torcer agora para uma recuperação honrosa ou para uma breve despedida, infelizmente.

Stipe, Mills, Buck: vocês estão me devendo.

Snow Patrol
Final Straw

Seria, sem dúvida, o melhor disco de 2004, até que descobri que o disco é de 2003. Magnífico, lindo. Emociona, com melodias envolventes e uma belíssima voz (Richard Colburn, que causou boas repercussões no Belle & Sebastian e The Reindeer Section). Recomendo o disco intero, é de doer de tão bonito: "How to be Dead", "Wow", "Gleaming Auction"... Não tem jeito, recomendo o álbum inteiro MESMO. Mas pra você que está curioso, cometerei uma injustiça e citarei apenas duas faixas: "Run" e "Somewhere a Clock is Ticking". Pra quem gosta de rock calmo (ora folk) e climático, este é seu disco de cabeceira. O disco é tão bom, que até agora nenhum disco de 2004 superou este.

Ouvi o novo do Cake e não achei nada demais. Mais do mesmo, algumas canções bem legais, mas falta unidade, você sempre pula algumas faixas.

Também conferi o novo do Delgados e não me convenceu muito. Passou batido.

Ainda estou tentando compreender o novo disco da Björk. Esses "artistas conceituais" são chatos. Não quero falar mal sem entender a dinâmica do disco, mas às vezes parecem que eles nos forçam a fazer isso, se é que o disco apresenta realmente algo interessante. É muito "cabeça" pra mim... Mas vou tentar tecer algumas palavras em breve...

Supergrass
Supergrass is 10: The Best of 1994-2004

Coletânea de uma das melhores bandas do rock inglês. Objeto mais do que necessário pra quem quer os melhores momentos de seus quatro álbuns. O único pecado foi a ausência da ótima "I'd Like to Know", do primeiro disco. Mas o resto comparece e vale o investimento: "Caught by the Fuzz", "Pumping on Your Stereo", "Alright" (é, aquela mesmo), "Moving", "Richard III" (rock'n'roll!!!), "Grace", "Late in the Day" (uma das melhores baladas que a década de 90 presenciou), "Seen the Light", "Sun Hits the Sky", "Rush Hour Soul" e "Strange Ones". Além de duas inéditas, "Wait for the Sun" (balada climática meia-boca) e "Kiss of Life" (ótimo rock, com groove, lembrando o terceiro disco).

Pros desavisados, a banda que produzo (www.enne.com.br) está com três músicas pra download no site e cinco músicas em streaming e download no site www.tramavirtual.com.br/enne.

O disco está pra ser lançado. Quando você estiver lendo esta coluna, ele já estará sendo vendido - creio eu.

Falando nisso, show do Enne em Belo Horizonte, no dia 15 de dezembro às 22 horas no bar A Obra. As bandas Endemia (BH) e Mottim (Ouro Preto) também tocarão. Ingressos a apenas 3 reais. Info: (31) 3281-7704.

TOP 5 Músicas que eu gostaria de esquecer que eu já ouvi algum dia (parte 2):

1. "For Your Babies", Simply Red (única coisa boa é que me recordo da minha segunda namoradinha, haha);
2. "Spending My Time", Roxette (trilha da novela das sete "Perigosas Peruas", haha);
3. "O Ovo", Sérgio Mallandro (clássico thrash);
4. "My Heart Will Go On", Celine Dion (aliás, tudo dela deveria ser esquecido);
5. "Como uma Deusa", Rosana (outra de novela, estou parecendo a Menina Enciclopédia, haha).

Muitos discos para serem comentados: U2, John Frusciante, Green Day, Thrills, Joss Stone, Maroon 5, Manic Street Preachers, Engine Down... Aguardem as próximas colunas.

Links do Sukrilius:

Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique aqui.

www.enne.com.br - banda de rock que eu produzo.

www.udora.com, www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net e www.moldest.com - Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.

merrymelodies.blogger.com.br - blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.

perplexoes.blogger.com.br - blog da Menina Enciclopédia, também comparsa do ABACAXI ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.

dyingdays.net/index.html - site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente indispensável.

sondazkavernas.blogspot.com - blog do meu amigo Terence Machado, do programa Alto Falante, único programa da tv aberta para fãs de boa música.

 
Sukrilius é músico frustrado e tenista arrependido, além de estar momentaneamente desempregado. Ofertas de emprego podem ser enviadas para o e-mail sukrilius@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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