O Reveal já passou raspando. Agora, não
tem jeito. Around the Sun é o primeiro tropeço de
uma discografia até então brilhante. O disco não
chega a ser ruim, mas está muito abaixo do que uma banda
como o R.E.M. pode nos oferecer.
Around
the Sun assemelha-se com um disco
solo do Michael Stipe. As presenças de Mike Mills (seu
baixo e sua bela voz) e da guitarra de Peter Buck são
tímidas. Bateria? Pouquíssima.
Tudo bem, Up (1999) também segue na mesma linha
e considero um disco brilhante, um dos três melhores da banda.
O que faltou, então?
Aqui
falta consistência, a banda está demasiadamente "comportada",
assumiram definitivamente o rótulo de "Adult Alternative".
Não peço pra voltarem às guitarras de Monster (1994),
nem à consistência do melhor disco deles na minha
opinião (New Adventures in Hi-Fi, de 1996), peço
apenas que eles voltem a ser o R.E.M.. Neste álbum, vejo
apenas alguns espasmos. A banda tornou-se convencional, conservadora.
O R.E.M. foi considerada por mim "a melhor banda de rock
do mundo" no final dos anos 90 simplesmente por fazerem músicas
muito acima da média das demais bandas. Sem contar que sempre
ousaram, nunca repetiram fórmulas e não caíram
nas "facilidades do pop". Em Reveal houve uma
queda considerável,
com essas tais canções se resumindo a quatro ou cinco.
Agora, vem este álbum, onde o R.E.M. faz o trivial, um
pop medíocre como milhares de bandas que o copiam. Se Around
the Sun fosse o primeiro disco de qualquer banda, seria um
bom disco, algo interessante. Mas pra quem conhece muito bem o
R.E.M.,
sabe que eles ficaram devendo e não foi pouco.
O clima pode ser até o mesmo de Automatic for the People (1992),
mas a inspiração infelizmente não é.
Caso o próximo álbum não ultrapasse este em
termos de qualidade, seria uma ótima idéia que a
banda encerrasse suas atividades, tendo todo um respeito e respaldo
de público, crítica e demais artistas. Algo que eles
estão começando a perder. Vocês não
imaginam como é difícil escrever isto, mas é um
fato.
Around the Sun, faixa por faixa:

"Leaving New York": o começo é bom. Uma
boa balada que, apesar de não chegar perto de nada do Automatic
for the People, não faz feio. O refrão é lindo, é o
ponto alto: "It's easier to leave than to be left behind /
Leaving was never my proud / Leaving New York, never easy / I saw
the light fading out". A "bridge" (ponte para o
refrão) tem o backing
vocal do Michael Stipe. Lógico, a pergunta é: cadê o
Mike Mills, o melhor backing vocal do rock pós-beatle (empatado
com John Frusciante do Red Hot Chili Peppers)???
"Electron Blue": balada que não chega a ser ruim,
mas que pouco acrescenta. O vocal de Stipe, cheio de reverb, irrita.
O refrão é bom, mas se perde no meio de um piano
e de batidas eletrônicas que nada contribuem para realçar
a canção. É aquele tipo de música que
você acha "legal, mas falta alguma coisa" e logo
se esquece dela. Tem um clima que lembra algumas coisinhas chatas
e climáticas do Reveal.
"The
Outsiders": esta canção divide-se
em duas partes. A primeira é apenas razoável, uma
balada com uma guitarra bela e sutil de Peter Buck. A letra é política
que só servirá agora em 2008. A segunda metade é uma
das coisas mais ridículas que já ouvi. Entra o rapper
Q-Tip (A Tribe Called Quest) e avacalha o que já não
estava tão bom. Lastimável a tentativa da banda de
soar "moderninha", "antenada", ou "democrata".
Nada contra tais participações, em 1991, no disco Out
of Time,
o rapper KRS-One participou da canção "Radio
Song" e ficou bem legal. Agora não combinou, ficou
melancólico, parecendo aqueles artistas decadentes que fazem
uns "duetos" com alguma celebridade pop só pra
tentar se reeguer. Triste.
"Make It All Ok": enfim, um alívio. Boa balada.
Não é nenhuma maravilha, mas por alguns instantes
o velho R.E.M. aparece, na melodia (piano, bateria) e na voz de
Michael Stipe. Passou perto, gerou algum conforto.
"Final Straw": letra muito boa, com clara intenção
política. A melodia cansa um pouco, é um folk que
não muda. Faltou uma bateria. Mas a canção é aprovada,
com restrições.
"I Wanted to Be Wrong": começo razoável,
refrão chatíssimo. Teclado extremamente conservador,
bem clichê. Esse não é o R.E.M. que conheço.
"Wanderlust": um pouco mais agitada, a guitarra de Buck é bacana,
mas não salva. Abaixo da média, sem nenhum grande
momento.
"Boy in the Well": finalmente, o bom e velho R.E.M.
comparece. A melhor do disco, muito bonita. Excelente refrão,
a voz de Mills aparece, o piano é de arrepiar, violões
surgem no momento exato. A banda honra sua fama de moldar pérolas
pop.
"Aftermath": bonita, mas não encanta. Fica aquela
sensação de que "falta alguma coisa" para
que a canção se torne inesquecível. Os ingredientes
estão todos lá, mas está faltando o tempero,
aquilo que o R.E.M. sempre utilizou anteriormente.
"High Speed Train": chata, difícil escutar inteira.
Jamais pensei escrever isso sobre algo do R.E.M., posso estar sendo
repetitivo, mas isso é algo novo e estranho pra mim, fã assumido
da banda. Bem fraquinha. Fui à cozinha buscar um biscoito
e a canção não mudou, a mesma chatice. Falta
ousadia, não só nesta canção. Talvez
aquele seu tio que gosta de Paul Simon possa vir a gostar dela...
"The Worst Joke Ever": não tem a mínima
graça mesmo. Bem ruinzinha, arrastada, enjoada. Por incrível
que pareça, a voz de Stipe cansa. Pule-a também.
"The Ascent of Man": lamentável, a pior do disco.
A voz de Stipe ultrapassa todos os limites do "tolerável" no
refrão, um dos piores momentos da banda que já escutei.
Três canções ruins consecutivas. Que coisa...
"Around the Sun": mediana, passa quase que sem chamar
atenção. O final fica até um pouco melhor,
ameniza a sequência infeliz.
Após a análise, chego a triste conclusão
de que Around the Sun É SIM um disco ruim. O R.E.M. é uma
das bandas que me fez gostar de música, que moldou meu gosto
musical durante toda a década de 90, que me fez chorar de
alegria no Rock in Rio, que carrego para sempre com uma tatuagem
na perna. É a banda que, pelo que fez, mudou minha visão
da música, me fez gostar de uma música bela e sincera.
Eles podem estar sendo sinceros, mas não vejo mais tanta
beleza.
É torcer agora para uma recuperação
honrosa ou para uma breve despedida, infelizmente.
Stipe, Mills, Buck: vocês estão me
devendo.

Snow Patrol
Final Straw
Seria, sem dúvida, o melhor disco de 2004, até que
descobri que o disco é de 2003. Magnífico, lindo.
Emociona, com melodias envolventes e uma belíssima voz (Richard
Colburn, que causou boas repercussões no Belle & Sebastian
e The Reindeer Section). Recomendo o disco intero, é de
doer de tão bonito: "How to be Dead", "Wow", "Gleaming
Auction"... Não tem jeito, recomendo o álbum
inteiro MESMO. Mas pra você que está curioso, cometerei
uma injustiça e citarei apenas duas faixas: "Run" e "Somewhere
a Clock is Ticking". Pra quem gosta de rock calmo (ora folk)
e climático, este é seu disco de cabeceira. O disco é tão
bom, que até agora nenhum disco de 2004 superou este.

Ouvi o novo do Cake e não achei nada demais. Mais do mesmo,
algumas canções bem legais, mas falta unidade, você sempre
pula algumas faixas.
Também conferi o novo do Delgados e não
me convenceu muito. Passou batido.
Ainda estou tentando compreender o novo disco da
Björk. Esses "artistas
conceituais" são chatos. Não quero falar mal
sem entender a dinâmica do disco, mas às vezes parecem
que eles nos forçam a fazer isso, se é que o disco
apresenta realmente algo interessante. É muito "cabeça" pra
mim... Mas vou tentar tecer algumas palavras em breve...

Supergrass
Supergrass is 10: The Best of 1994-2004
Coletânea de uma das melhores bandas do rock inglês.
Objeto mais do que necessário pra quem quer os melhores
momentos de seus quatro álbuns. O único pecado foi
a ausência da ótima "I'd Like to Know",
do primeiro disco. Mas o resto comparece e vale o investimento: "Caught
by the Fuzz", "Pumping on Your Stereo", "Alright" (é,
aquela mesmo), "Moving", "Richard III" (rock'n'roll!!!), "Grace", "Late
in the Day" (uma das melhores baladas que a década
de 90 presenciou), "Seen the Light", "Sun Hits the
Sky", "Rush Hour Soul" e "Strange Ones".
Além de duas inéditas, "Wait for the Sun" (balada
climática meia-boca) e "Kiss of Life" (ótimo
rock, com groove, lembrando o terceiro disco).

Pros desavisados, a banda que produzo (www.enne.com.br)
está com
três músicas pra download no site e cinco músicas
em streaming e download no site www.tramavirtual.com.br/enne.
O disco está pra ser lançado. Quando você estiver
lendo esta coluna, ele já estará sendo vendido -
creio eu.

Falando nisso, show do Enne em Belo Horizonte,
no dia 15 de dezembro às
22 horas no bar A Obra. As bandas Endemia (BH) e Mottim (Ouro Preto)
também tocarão. Ingressos a apenas 3 reais. Info:
(31) 3281-7704.

TOP 5 Músicas que eu gostaria de esquecer que eu já ouvi
algum dia (parte 2):
1. "For Your Babies", Simply Red (única coisa
boa é que me recordo da minha segunda namoradinha, haha);
2. "Spending My Time", Roxette (trilha da novela das
sete "Perigosas Peruas", haha);
3. "O Ovo", Sérgio Mallandro (clássico
thrash);
4. "My Heart Will Go On", Celine Dion (aliás,
tudo dela deveria ser esquecido);
5. "Como uma Deusa", Rosana (outra de novela, estou parecendo
a Menina Enciclopédia, haha).

Muitos discos para serem comentados: U2, John Frusciante,
Green Day, Thrills, Joss Stone, Maroon 5, Manic Street Preachers,
Engine
Down... Aguardem as próximas colunas.
Links
do Sukrilius:
Quer me achar nessa praga chamada Orkut? Clique
aqui.
www.enne.com.br
- banda de rock que eu produzo.
www.udora.com,
www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net
e www.moldest.com
- Sites de quatro de minhas bandas nacionais prediletas.
merrymelodies.blogger.com.br
- blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.
perplexoes.blogger.com.br
-
blog da Menina Enciclopédia, também comparsa do ABACAXI
ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.
dyingdays.net/index.html
- site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente
indispensável.
sondazkavernas.blogspot.com
- blog do meu amigo Terence Machado, do programa Alto Falante,
único programa da tv aberta para fãs de boa música.
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