Coluna atípica. Desculpem,
prometi escrever sobre outras bandas, mas na próxima coluna
não escaparei deste compromisso. Esta deve ser a minha coluna
mais difícil, desde que comecei a escrever aqui (nem me recordo,
acho que em 2001).
Muito simples. É bem desconfortável
para mim, fazer uma resenha de uma banda que eu conheço bem.
Aliás, conheço muito bem: sou amigo de todos os integrantes.
Pensei muito em não escrever esta coluna, em deixar passar
em branco o lançamento de Soundtrack for a Walk,
demo de estréia deste quarteto daqui de BH. Aliás,
confesso que ainda não me convenci se realmente vale a pena.
Escrevo essas linhas imbuído pelo espírito do site
de escrever sobre o que realmente eu penso e mandar às favas
todas as conseqüências. Mas vai ser estranho, ou engraçado.
Tenho certeza que eles vão ler este texto (e vários
amigos que temos em comum) esperando elogios, o que seria algo óbvio
demais, algo digno de fã. Reconheço que admiro as
composiões do Moldest (acho que o André, o vocalista
e guitarrista base, que faz a maioria das melodias, tem uma certa
dose de felicidade em elaborar arranjos e letras) mas não
posso escrever um texto como um fã da banda, sendo envolvido
pelo coração e não pela razão. Senão
vou tecer elogios pra lá de exagerados e vou também
falar mal com veemência quase sádica. Tenho que encontrar
um meio termo. Mas reconheço que não é fácil.
Coloquem-se na minha situação: você frequenta
ensaios, convive com os caras peregrinando por bares, ajuda em shows
e até envia letras. Então, a demo cai na sua mão.
Você fala mal? Geralmente não, né? Mas vou falar,
sim. Talvez esta seja a "vantagem da desvantagem". Tenho
mais liberdade pra falar mal das coisas que não gosto, pois
os caras me conhecem e sabem que não falo por "apenas
falar mal" (aliás, tem gente que insiste em dizer que
o ABACAXI ATÔMICO segue este linha, o que significa um elementar
erro de interpretação, ou falta de QI mesmo...).
Então é isso. Desculpem pela enrolação,
mas precisava deixar isso em pratos limpos. Não sei se tenho
algo a ganhar com isso, mas farei uma análise totalmente
fria do álbum. A banda pode até estranhar, mas creio
que vai achar legal depois, pois o que vou falar, serve para o bem
do grupo. Não vou falar pra "eles acabarem logo porque
tal coisa é muito ruim" ou algo assim. Tem males que
vêm para o bem. Calma, não digo que vou espinafrar
o disco, apenas serei eu mesmo, o Tomaz ops, Sukrilius. Serei o
mais honesto possível, mas reconheço que continua
sendo uma tarefa pra lá de desconfortável. Inclusive,
vocês podem ver que lá embaixo, eu recomendo o Moldest,
ao lado do Udora, Valv e Hurtmold (o Enne, minha banda, eu não
coloquei porque o nosso site www.enne.com.br
ainda não está pronto).
Se eu comparo o Moldest com essas bandas? De jeito
nenhum. Essas três bandas são bem melhores que o Moldest.
Mas é uma tremenda covardia comparar bandas já rodadas,
que estão fazendo shows desde sei lá quando, com uma
banda que mal possui um ano de existência e está na
primeira demo... Udora, Valv, Hurtmold e Moldest (nessa ordem) são
as quatro bandas nacionais que mais gosto (estão faltando
Los Hermanos e Pato Fu, mas esses não precisam da minha "divulgação"),
pois não conto o Enne, que está "no sangue".
Posso estar sendo repetitivo, mas não coloco o Moldest ao
lado desses três. Apenas coloco como uma banda muito legal,
com músicas muito boas, que me agradam à beça.
E isso é mais do que suficiente pra eu "linká-los".
Quanta enrolação, né... Nem comecei a falar
da banda...
Então vamos ao que interessa: a banda é
formada por André (Parma) na voz e guitarra base; Francis
no baixo; Arthur (Tut) na guitarra solo e Ícaro na bateria.
É muito difícil definir o estilo da banda. Eu arrisco
no indie rock mesmo, pois vejo nítidas influências
do Valv. Mas dá pra ouvir alguns ecos de britpop, rock alternativo
e de hardcore. A demo Soundtrack for a Walk foi gravada
nos meses de abril e maio no estúdio Decibéis, daqui
de Belo Horizonte. Aí, na minha concepção,
já começou o erro da banda. Deixe-me explicar: a banda
ganhou um festival aqui em BH. O prêmio foi um período
(quatro horas) gratuito neste estúdio. A banda aproveitou
e gravou ao vivo sete músicas que entraram na demo. Depois,
eles gravaram as vozes e fizeram alguns acertos. Gravar ao vivo
é sempre muito complicado. Muitos erros surgem e nem todos
são notados na primeira audição. E este estúdio
não oferece todos os recursos de um estúdio "de
ponta". Portanto, escutando as faixas, é nítida
uma sensação de que "poderia ter ficado muito
melhor". A qualidade da gravação é bem
mediana, às vezes é ruim mesmo.
Mas a qualidade das canções superam
todas essas dificuldades. Eu fico me lamentando, achando que eles
poderiam fazer uma "pré-produção"
neste estúdio e aguardar o momento certo, em um estúdio
certo pra gravar a demo. Mas que banda faz isso? Nós, do
Enne, ainda quando a banda se chamava 4Sale, gravamos a nossa primeira
demo em condições semelhantes. Portanto, não
fico culpando a banda pela escolha (aliás, eu fico, mas não
tanto como antes). Acho que a qualidade da gravação
deixa bastante a desejar, mas quem não tem "ouvido cirúrgico"
talvez não perceba alguns deslizes, que são muito
mais culpa do cara que produziu o disco do que da própria
banda. Como não sou técnico de som, vou falar das
canções. E essas, são mesmo muito boas! Faixa
por faixa, Soundtrack for a Walk, do Moldest:

"Livin' Again": Acelerada, ótima
pra começar um discol. No refrão, a guitarra me agrada
bastante sendo sutil, leve. A melhor parte é o final quando
a canção ganha força na parte "I passed
many years of my life / waiting for a chance / living again the
same things / forgetting my revenges" e depois desboca no refrão,
agressivo e sedutor.
"Bury Itself": Riff inicial, barulho
e calmaria. Nesta última parte, entra a letra. O baixo é
sutil e bacana, mas sempre chama atenção, pois ficou
em um volume um pouco acima do que estou acostumado (bom para os
baixistas, hehe). A música não me empolga muito, mas
o final me alegra: entra um efeito de voz bacana duelando com riffs
de guitarra e firulas de baixo. Então, a música fica
bem legal, bem agitada até o final.
"Farewell, Welcome": Canção
mais calma. A melodia não me agrada muito, mas a letra é
maravilhosa. A guitarra solo toca os mesmos acordes de uma forma
que se repete demais. O refrão ilustra muito bem como a letra
é bela: "So welcome to the new world where you are important
/ This life is very short we got to be our own boss / No one in
the town can upset our will / They will always try to guess what
we really feel". Simples e muito bonito, não precisa
de mais nada. Depois, vem um bom solo de guitarra e o refrão
novamente, que enche os ouvidos com as duas guitarras se completando.
No final, se arrasta um pouco, mas não compromete.
"The State That I Am In": Já aqui
a letra não me agrada nem um pouco, pois não diz nada.
Talvez seja a intenção. A melodia é muito boa,
até a bateria (que não me convence muito) eu acho
bacana. O destaque é o solo de baixo no meio da música,
excelente.
"Relief": Minha preferida. Empolgante,
só não gosto do efeito da guitarra solo no início
da canção. Essa eu recomendo bastante. A letra é
legal, o refrão é muito bom, com riffs e uma levada
muito boa, fatal pra quem gosta de boa melodia.
"The Day After": A melhor do disco. Mais
calma, bem singela. Ótima letra, bons arranjos. Se aproxima
das melhores baladas do britpop. Essa é uma típica
canção que deve ser destinada para as mulheres, pois
a música é trilha sonora ideal de bons momentos. O
final lembra um pouco Radiohead da fase "The Bends" com
um riff muito legal de guitarra que acompanha o refrão e
leva a canção até o final, belíssimo.
"Etc...": A letra é muito boa
("It's sunday and the sun seen not shine / Living this way
no one can feel fine / I remember now our last embrace / It was
on a sunday that i couldn't see your face"). A melodia alterna
momentos bem interessantes com outros mais frios. A parte boa é
o final, acelerado e bacana. O Moldest, conseguiu um equilíbrio
bem interessante: colocou as melhores letras nas melodias mais suaves,
onde a letra chama mais atenção; já nas faixas
mais agitadas, onde a letra não fica tão perceptível,
a melodia se sobressai.
No soulseek estou disponibilizando todas as faixas
da banda. Meu nick é tomaz.enne, mas acho mais conveniente
você comprar o disco, que custa apenas 5 reais. Entre em contato
com a banda pelo info@moldest.com
ou no site www.moldest.com.
Aproveito o jabá pra informar que eles vão
tocar no bar A Obra, aqui em BH, dia 16 de Junho. E no dia 3 de
Julho, tocam na Tribehouse, em São Paulo. Provavelmente eu
vou com eles, para "fazer contatos" em Sampa.
Como já dizia o Cacau, baterista da minha
banda: "Não conheço quem não gosta do
Moldest. As melodias são muito boas e não saem da
sua cabeça de jeito nenhum". Pode ser que você
não goste da banda, aliás não acho isso impossível.
Pode ser que a banda acabe e eles não lancem mais absolutamente
nada, mas esse registro, mesmo com suas deficiências na esfera
técnica, deixa claro que temos aqui uma das bandas mais promissoras
do cenário nacional. Se vai dar certo, eu não sei.
Mas que são bons, eu não tenho dúvida.
Esta coluna foi atípica. Na próxima
coluna, volto com a "programação normal",
com resenhas e outras coisas interessantes (ou não) da música.
Até lá!
Links
do Sukrilius:
www.udora.com,
www.valv.dk, www.hurtmold.cjb.net
e www.moldest.com
- Sites de quatro das melhores bandas de rock do país.
merrymelodies.blogger.com.br
- blog do Caboclo Alaranjado, comparsa do ABACAXI ATÔMICO.
perplexoes.blogger.com.br
-
blog da Menina Enciclopédia, também comparsa do ABACAXI
ATÔMICO. Música, cinema, só coisas interessantes.
dyingdays.net/index.html
- site em português especializado em rock dos anos 90. Simplesmente
indispensável.
sondazkavernas.blogspot.com
- blog do meu amigo Terence Machado, do programa Alto Falante,
único programa da tv aberta para fãs de boa música.
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