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Beagá, 07 de julho de 2003 d.C.

 
Novo do Radiohead é ótimo - e só
Por Sukrilius
 

O Radiohead goza de um inegável prestígio na música pop. A banda fez a música "de gato e sapato" e, contrariando tudo e todos, obteve êxito com isso. Claro, muitos não gostaram. Por mim, eles podiam ficar na sonoridade dos três primeiros discos. Mas aí a banda não seria o Radiohead, porque eles não possuem a menor cerimônia em ousar, em quebrar barreiras, em fazer o que o maluco Thom Yorke tem em mente. A banda pode ter três guitarristas e gravar um disco onde metade das faixas não tem guitarra. Na outra metade, aparece afogada em elementos eletrônicos e teclados climáticos.

Por isso, eu acho totalmente compreensível o "saudosista" Cajabis Cannabis colocar este novo disco da banda na lixeira. O Cajabis é uma viúva da fase rock da banda. Na opinião dele, o Radiohead devia fazer só Pablo Honeys. Sim, ficaria legal, mas não teria graça. O que uma banda precisa pra se destacar, chamar a atenção e ficar acima de todas é inovar, derrubar conceitos e fazer o que bem entender, sem se lixar pras rádios e MTV. E isso o Radiohead faz. Lendo a crítica do Cajabis, comecei a rir. Porque eu conheço pessoalmente o sujeito (e seu gosto musical), então quando a banda faz qualquer coisa lenta que não tenha violão, ele já acha chato. Ele mesmo me disse que a única música que ele não gostava do magnífico Up, do R.E.M., era a primeira ("Airportman"), que era... Como? Lenta, cheia de climas, segundo ele "cabeça", bem Radiohead. Quando algo é complexo, pra ele é "cabeçudo", igual Los Hermanos. Mas vamos voltar à resenha.

No início, a banda fazia o trivial: rock'n'roll. Pablo Honey é bacana, possui algumas canções maravilhosas, mas não destoa no cenário. É "apenas mais um ótimo disco de rock". Depois, veio o apogeu: The Bends, pra muitos, é o melhor disco da banda. A banda permanece no rock, mas envolve o disco com um certo aroma pop, graças às magníficas baladas. Um disco que entra fácil no ranking dos melhores da década de 90. Aí veio o OK Computer e a banda mostrou que é possível fazer "rock inteligente". É um disco que dispensa maiores comentários. Trilha sonora para suicidas, amantes e para quem ainda aprecia boas letras e melodias, que fogem do padrão rádio/MTV. É um disco extremamente complexo, cada minuto possui doses cavalares de melancolia e beleza. Tentei (em vão) resenhá-lo. Pra mim, é o melhor disco da década de 90, na frente do magnífico (mas que a imprensa exagera, só porque a banda já acabou) Nevermind, do Nirvana.

Em 1997, eu já não conseguia acompanhar os passos do Radiohead. Então, a banda cavou seu próprio buraco. O que não esperava era que milhões de fãs entrassem juntos. A banda ficou incomodada com o sucesso, ameaçou terminar e, depois de três intermináveis anos, veio Kid A. Tomei um susto sobrenatural no início. Depois, fui sendo conquistado pelas melodias nada convencionais, com uma sonoridade nada pop e por uma "aura" que está presente em todos os trabalhos da banda. Não sei, é um clima etéreo, é algo que te prende, que te encanta.

Depois veio o "Kid B", quer dizer, o Amnesiac, que já possuía algumas coisas chatas. E a banda não estava nem aí. O Radiohead flertava com o jazz, usava e abusava de elementos eletrônicos e mergulhava em um mundo sombrio. Thom Yorke deveria estar feliz, até gravou um ótimo EP ao vivo ("I Might Be Wrong") só com as músicas da fase "pirada" ("Kid A" e "Amnesiac").

Enfim, chegamos a Hail to the Thief ou The Gloaming - sim, todos os títulos possuem sinônimos, ou então sub-títulos. Ajuda pra quem quer baixas as músicas na internet... As guitarras voltaram? Sim, ainda são sutis, mas voltaram. Os elementos eletrônicos permanecem? Sim, mas em menor quantidade. Eu poderia arriscar, dizer que "é um disco de transição", que a banda está deixando a fase do "extremo experimentalismo" e voltar a uma sonoridade mais crua. Mas é impossível prever o que se passa pelas cinco privilegiadas cabeças do Radiohead.

O novo disco é muito bom, mas peca em não ter o "diferencial", a tal "aura". Não aponta novos rumos, como em OK Computer. A banda se reciclou, misturou a "fase antiga" com a "fase atual". O resultado é algo novo, porém que não surpreende. Algumas canções poderiam estar no Amnesiac, assim como outras poderiam estar no The Bends. De qualquer forma, é um disco excelente, do qual faço uma rápida análise:

"2+2=5" ou "The Lukewarm": início espetacular. Começa devagar, triste. Chega o refrão. Na primeira vez que eu ouvi, batia a cabeça como um metaleiro. Depois de seis anos, a banda volta ao rock'n'roll e empolga. Do refrão para a frente, as guitarras são maravilhosas. O vocal do Thom Yorke possui uma tristeza, uma sutileza e ao mesmo tempo uma agressividade que são difíceis de se conciliar. As letras, continuam uma beleza: "Go & tell the king that / The sky is falling in / When it's not / Maybe not". Corra até a internet e baixe. Sensacional.

"Sit Down. Stand Up" ou "Snakes & Ladders": começa com um belo piano, melancólica, como o Coldplay (que sempre copia o Radiohead). Então, a canção vai crescendo e... Fica eletrônica. Vocal, "parede eletrônica" e piano. Aí a canção volta a acelerar e você começa a se perder no meio de tantos barulhos estranhos. Legal.

"Sail to the Moon" ou "Brush the Cobwebs Out of the Sky": linda, teclado e guitarra dão as cartas. O vocal encanta. Balada maravilhosa, muito lenta pra ser pop.

"Backdrifts" ou "Honeymoon is Over": totalmente eletrônica, como a banda fez na maioria das canções dos últimos trabalhos. Legalzinha, mas não recomendo para quem não gostou do Amnesiac. Não é nada demais, possui um vocal muito bom. E um som pra viajar. Lá pelo meio, ela melhora com o aparecimento do piano. Enfim, bem climática, pra ouvir deitado. Mas enjoa um pouco.

"Go to Sleep" ou "Little Man Being Erased": maravilhosa. Depois de "séculos", o Radiohead volta a usar violão. Uma das melhores músicas do ano, as guitarras no fim são deliciosas. Os backing vocals também. Deve virar "música de trabalho". Essa entraria fácil no The Bends. Vale a pena fazer o download.

"Where I End and You Begin" ou "The Sky is Falling in": outra excelente canção. Rock mais denso, mais complexo, bem OK Computer. O teclado no fundo dá um clima sombrio. O vocal só complementa. Baixo e bateria fazem o fundo com categoria. O teclado e vocal tomam as rédeas da canção. Lá pela metade, aparece a tão esperada guitarra, tímida, mas o suficiente para te encantar, e você se rende. No final, ela reaparece, mas você já é refém.

"We Suck Young Blood" ou "Your Time is Up": mais um destaque. Vocal angustiado, piano e palmas. Só com isso, a música já vale a pena. Mas ainda aparece o backing vocal do Ed O'Brien junto com o vocal "dobrado" do Thom Yorke e um teclado de cemitério que deixam a canção ainda mais bela. Isso sem contar a parte que a canção acelera... Pode fazer o download, canção linda.

"The Gloaming" ou "Softly Open Our Mouths in the Cold": a "outra" canção totalmente eletrônica do disco. A parte eletrônica é até mais interessante do que a "Backdrifts", mas o vocal repetitivo acaba enjoando. O destaque é o backing vocal, muito bom.

"There There" ou "The Boney King of Nowhere": um dos destaques de 2003. Primeira "música de trabalho", dá alguma esperança pra quem quer ver o Radiohead fazer rock. Não, não é um rock como "Just" ou "You". É o rock da atual fase, com mais feeling. As guitarras dizem alguma coisa, não fazem só barulho. Canção complexa e belíssima. A "bridge" da música já explica toda a filosofia do Radiohead: "Just because you feel it / Doesn't mean it's there". Música linda, videoclipe maravilhoso, é o Radiohead que eu gostaria de ouvir daqui pra frente. Procure-a na internet.

"I Will" ou "No Man's Land": calma e sombria. É muito bonita, pois trata-se de uma canção curta, de apenas dois minutos. Se ficasse nessa lentidão por mais dois minutos, eu morria de tédio. Mas bem, nesses dois minutos o vocal, as demais vozes e a guitarra são delicados, belos. Ótima e lenta.

"A Punchup at a Wedding" ou "No no no no no no no no": levada excelente. Nem tão agitada, nem tão calma. O piano está uma beleza, vocal idem. Letra bacana, outro destaque. Vale o download.

"Myxomatosis" ou "Judge, Jury & Executioner": segundo Thom Yorke, esse seria o "funk" do Radiohead. "Comparações absolutamente desconexas à parte", é outra boa canção do disco. Não sou músico, mas me parece que o "fundo" da canção é uma soma de baixo com distorção, guitarra e teclado. Além disso: bom vocal, teclado pra viajar e a bateria. Excelente e esquisita, bem Radiohead.

"Scatterbrain" ou "As Dead as Leaves": balada das mais belas. Vocal e guitarra se completam. Quando a segunda guitarra aparece, você agradece, mas nem precisava.

"A Wolf at the Door" ou "It Girl. Rag Doll.": aqui está o maior destaque do disco. Briga com "2+2=5", "There There" e "Go to Sleep" como a melhor de todas. Leva a vantagem por soar diferente, original. Não tenho o que dizer. Baixe-a. Canção indispensável, pra se cantar acompanhando a letra. Fecha o disco de forma soberba.

Aproveito pra fazer meu ranking dos discos de estúdio do Radiohead:

1. OK Computer
2. The Bends
3. Hail to the Thief
4. Kid A
5. Pablo Honey
6. Amnesiac

Ouro de tolo! O Lúcio Ribeiro continua forçando a barra: não pára de incensar o tal Yeah Yeah Yeahs, banda americana (hype do momento) do tal "novo rock". Fiquei quieto. Aí, o "Mac", o Marcelo Costa (site Scream & Yell) também elogiou horrores. Então fui conferir. Como é ruim! Além disso, é um tipo de som artificial, "descartável". É um rock que posso até ouvir direto, mas que estarei enjoado daqui a dois meses. Tipo música pop. A tal vocalista Karen O, que está despertando elogios na imprensa, canta mal à beça. E sua voz é extremamente irritante. Yeah Yeah Yeahs é uma das maiores bobagens que surgiram neste ano. É engraçado como esses jornalistas "especializados" em música adoram o que é tosco. Tem tanta coisa tosca melhor do que Yeah Yeah Yeahs que nem vou começar a enumerar...

Aviso pra galera de São Paulo: o 4Sale (excelente banda daqui de BH) não deve mais participar de um festival em Sampa, em Agosto. A banda estava juntando grana pra viajar. Mas aí eles tiveram a sensata decisão (ok, também dei esse palpite...) de "investir" esse dinheiro na gravação de um disco "cheio". Deixe-me explicar: o 4Sale tem uma demo com 3 músicas. A banda já tem 9 canções prontas (quase 10). Então, é melhor gravar um disco "normal" e correr atrás dos shows com ele debaixo do braço, não é mesmo?

Quem é meu leitor (bem) antigo sabe que quando eu recomendo uma banda nova, independente, é porque compensa (putz, a modéstia passou longe...). Nem sei bem quando foi, acho que em 2001, fiz um texto falando sobre uma tal banda Diesel. Bom, deu certo (não só por minha causa, haha). Os caras estão muito bem em L.A. e novo disco do Udora (ex-Diesel) sai em breve. Sim, trabalhei pra banda. Era tão fã que peguei no pé do então empresário, Tiago Dolabella, que acabou aceitando. Dois anos se passaram.

Já escrevi algumas coisas sobre essa banda, 4Sale. Sim, faço parte da equipe, do "cast" - já deu pra reparar, né... Faço um hype intenso... "Trabalho de graça" pra banda. Aliás, saio no lucro. Vou aos shows de carona, assisto o show de graça (e do palco, às vezes segurando a bateria) e ainda almoço todo domingo na casa do Cacau, o baterista. É, me dei bem... Vou fazer um texto "de verdade" sobre o 4Sale assim que o disco "cheio" ficar pronto. Claro, serei idôneo. Se estiver ruim (não creio), serei o primeiro a falar. Se não fosse assim, jamais escreveria para este majestoso site. Aliás, jamais escreveria.

Pra quem gosta de rock anos 80, a boa pedida é uma banda chamada The Sounds, da Suécia. Rock divertido para festas. Se você é fã de Blondie (principalmente), Talking Heads, B-52's e de technopop, não perca tempo. Os destaques são "Seven Days a Week", "Dance With Me", "Hit Me", "Like a Lady" (esse teclado é o que há de melhor e pior na música dos anos 80) e "Fire". A melhor é a faixa "Rock'n'Roll", que de rock não tem muito. A diversão está garantida. Ah, o nome do único disco é Living in America e saiu este ano.

Vocês não acreditam o "revival" que rolou enquanto escutava esse disco. As festas da minha infância, quanta saudade...

No blog da Regina de Andrade (perplexoes.blig.ig.com.br), ela disse que teve a infelicidade de escutar uma cover da terrível "Whatever Will You Go", da boyband Calling. A cover foi em português: a dupla breganeja-espinha-teen Pedro & Thiago. Escrevam pra mim e me digam qual a pior versão. Páreo duro...

Essa é pra quem curte heavy metal meio trash: Armpyt, banda bacana de Campinas. Se você é fã de Pantera e gosta de pauleiras nesse estilo, acesse o site dos caras (www.armpyt.com).

E com toda a justiça, o Boca foi campeão da Libertadores. Além de ter jogado melhor nos dois jogos, marcou com extrema eficiência. Os argentinos deram um baile de consciência tática. O brasileiro acha que é o bom, que é só entrar em campo e ganhar... Os argentinos são bons também, souberam anular as armas do Santos e a hora certa de atacar. Os dois atacantes do Boca corriam para marcar os avanços dos zagueiros do Santos. Deram aula.

Nossa, escrevi demais dessa vez, hein? Talvez(!) eu fale sobre o novo disco do Skank na próxima semana, além de Led Zeppelin. Certo mesmo, só Beatles e a picaretagem que está sendo esse próximo (só esse?) VMB da MTV. Até!

Links do Sukrilius:

Real Love  -
Smashing
Pumpkins Song Adoption

Hang On

www.uol.com.br/folha/pensata - coluna do jornalista Lúcio Ribeiro. Música, cinema, televisão, só coisas boas. Claro, sempre há uma banda que ele "enche a bola" e não é nenhuma maravilha, mas na maioria dos casos só grandes bandas que poucos conhecem são recomendadas por ele.

www.screamyell.com.br - ótimo site sobre cultura pop em geral. Música, cinema, teatro, livros. Tudo que é interessante e bom está lá.

www.6emeia.cjb.net - zine com ótimos textos, reflexões, críticas de shows, discos, livros, filmes... Comandado pelo genial LF, grande amigo, sofredor e DJ. Foi meu companheiro no antigo site Gritonline (www.gritonline.cjb.net).

www.britrockgroup.hpg.ig.com.br - Britrockgroup é uma lista de discussão do Yahoogrupos sobre rock britânico e eu sou um dos moderadores desta lista.

www.udora.net, www.valv.dk e www.4sale.kit.net - Sites de três das melhores bandas de rock do país.

 
Sukrilius é músico frustrado e tenista arrependido, além de estar momentaneamente desempregado. Ofertas de emprego podem ser enviadas para o e-mail sukrilius@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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