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Beagá, 30 de junho de 2003 d.C.

 
Los Hermanos repete a dose
Por Sukrilius
 

Depois do elogiadíssimo Bloco do Eu Sozinho (que eu considero o melhor disco nacional dos últimos anos), a banda Los Hermanos tinha uma missão ingrata: gravar seu sucessor. E a missão está cumprida. Se não é melhor do que Bloco... (creio que não), afirmo que Ventura se aproxima bastante. Outro excelente trabalho da banda, que fatalmente estará na relação entre os três melhores discos nacionais do ano. As letras continuam excelentes e os arranjos, preciosos. O naipe de metais e o teclado transpiram emoção e fazem o papel do vocal, quando este se ausenta.

Depois de "amadurecer" com o disco anterior, parece que agora a banda "envelheceu". Parecem veteranos que continuam despretensiosos e que não se prendem a nenhum rótulo. Não fazem apenas música. Fazem músicas inteligentes, para pensar, não pra dançar (como a maioria das bandas pop daqui).

Ventura possui quinze deliciosas canções, que dão alguma esperança pra quem gosta de música nacional (rock, mpb, o que for) de qualidade e que se cansou de ouvir discos antigos e bandas gringas.

O Henry Chinaski já falou sobre esse disco, na semana passada. Mas o disco está tão bom que merece mais uma resenha, um pouco mais minuciosa. Faixa por faixa, para não perder o costume:

"Samba a Dois": linda. Samba com guitarra, baixo, bateria, além do afiado naipe de metais e teclado. O refrão é bacana, o vocal de Marcelo Camelo está perfeito. Levada meio bossa-nova. No final, o teclado comanda. Agora, são tantos os detalhes, tantos destaques (guitarra, metais) que fica difícil ficar apontando. Por exemplo, no refrão o naipe de metais faz o "fundo" da canção com maestria. A letra é muito boa: "Não, eu não sambo mais em vão / O meu samba tem cordão / O meu bloco tem sem ter e ainda assim / Sambo bem a dois por mim / Bambo e só, mas sambo sim". E o final é muito bacana.

"O Vencedor": um dos vários destaques do disco. A guitarra, deliciosa, lembra algo de John, do Pato Fu. A letra é um primor: "Olha lá quem acha que perder / é ser menor na vida / Olha lá quem sempre quer vitória / e perde a glória de chorar". Mais uma canção que entra na minha classificação como "pop perfeito". Metais acertados, belos riffs, ótimo baixo. O refrão é belíssimo. Enfim, acho que faltarão adjetivos até o final do meu texto.

"Tá Bom": balada maravilhosa. Bateria de dar inveja pra quem acha que, em baladas, ela precisa ser contida. Guitarra e teclados dão o clima. A letra, ótima: "Pois se é no não que se descobre de verdade / o que te sobra além das coisas casuais / Me diz se assim está em paz / achando que sofrer é amar demais". Sem refrão, canção curta e bela.

"Último Romance": triste e bela. Ótimo vocal de Rodrigo Amarante. Outro destaque é a letra, repare o (segundo) refrão: "Me diz o que é o sossego / que eu te mostro alguém / a fim de te acompanhar / E se o tempo for te levar / eu sigo essa hora / e pego carona / pra te acompanhar". Trombone, sax-barítono e baixo, os três só adicionam emoção. Maravilha.

"Do Sétimo Andar": mais uma canção que não dá pra apontar um destaque. Guitarra, bateria, metais... A banda possui um bom gosto nos arranjos de dar inveja. As letras... Bom, já sabem, né: "Deus sabe, o que eu quis foi te proteger / do perigo maior que é você / E eu sei que parece o que não se diz... / o seu caso é o tempo passar / Quem fala é o doutor".

"A Outra": um início bem... Estranho. Mas o teclado discretamente some no meio dos outros instrumentos. Ótima balada dor-de-cotovelo. A letra é uma beleza: "Se desta vez ela é senhora desse amor / pois vá embora, por favor / que não demora pra essa dor / sangrar". O arranjo de metais é fabuloso, só isso.

"Cara Estranho": mais um destaque, a mais rock do disco. Primeira "música de trabalho". Simplesmente perfeita. A letra, excelente, não se repete. O teclado faz uma tabelinha campeã com o vocal. Eu estou tão acostumado a ouvir letras ruins que, quando vejo algo deste porte, me assusto. Por isso, a letra (de Marcelo Camelo) vai na íntegra. Uma das melhores músicas do ano, fácil, fácil:
"Olha só que cara estranho que chegou / Parece não achar lugar / no corpo em que Deus lhe encarnou / Tropeça a cada quarteirão / mão mede a força que já tem / exibe à frente o coração / que não divide com ninguém / Tem tudo sempre às suas mãos / mas leva a cruz um pouco além / talhando feito um artesão / a imagem de um rapaz de bem / Olha ali quem está pedindo aprovação / Não sabe nem pra onde ir / se alguém não aponta a direção / Periga nunca se encontrar / Será que ele vai perceber / que foge sempre do lugar / deixando o ódio se esconder / Talvez se nunca mais tentar / viver o cara da TV / que vence a briga sem suar / e ganha aplausos sem querer // Faz parte desse jogo / dizer ao mundo todo / que só conhece o seu quinhão ruim // É simples desse jeito / quando se encolhe o peito / e finge não haver competição // É a solução de quem não quer / perder aquilo que já tem / e fecha a mão pro que há de vir".

"O Velho e o Moço": outra balada campeã. Destaques para a guitarra, bateria e os metais. Rodrigo Amarante encarna um senhor de idade e canta: "Ora, se não sou eu quem mais / vai decidir o que é bom pra mim? / Dispenso a previsão! / Ah, se o que eu sou é também / o que eu escolhi ser / aceito a condição". Uma beleza.

"Além do Que Se Vê": pára tudo! O arranjo de metais no final desta canção é uma das coisas mais belas que já escutei em toda a minha vida, sem exagero. Arrepia o mais insensível dos homens. Só pelo final desta música já vale a pena ter o disco. Vou dar nome aos bois: Jessé Sadoc Filho (trompete), Serginho Trombone (trombone, óbvio...), Zé Canuto (sax-barítono) e Eliezer Rodrigues (tuba). Além disso, a melodia no início, o vocal bem Chico Buarque e a letra são sensacionais ("Sei que a tua solidão me dói / e que é difícil ser feliz / mas do que somos todos nós") . Corre grande risco de ser a melhor música nacional do ano.

"O Pouco que Sobrou": levada meio mpb, um teclado muito bacana. Canção triste, de desilusão. No final, é "engolida" pelo teclado, muito bom.

"Conversa de Botas Batidas": essa canção me faz lembrar da minha infância, quando escutava "Saltimbancos". Perfeita, outro grande destaque. Piano, vocal, metais... A letra, como não podia deixar de ser, é bela. E desta vez, positiva: "Abre a janela agora, deixa que o sol te veja / E só lembrar que o amor é tão maior / que estamos sós no céu / Abre as cortinas pra mim / que eu não me escondo de ninguém / O amor já desvendou nosso lugar / e agora está de bem". No final, todos cantam juntos e o que se tornaria brega torna-se belo, graças ao conjunto vozes e metais, belíssimo.

"Deixa o Verão": descompromissada, divertida. Ouça sem prestar muita atenção, pois o intuito da música é entreter, divertir. A letra é simples, ensolarada e relaxante: "Deixa eu decidir é cedo ou tarde / espere eu considerar / ver se eu vou assim chique-à-vontade / qual o tom do lugar". O clarinete é belíssimo.

"Do Lado de Dentro": começa tímida e logo ganha força. Repare no teclado e na intensidade do vocal do Marcelo Camelo, além da bateria e guitarra. A letra, bem... Pra variar, afiada: "Cala essa boca que isso é coisa pouca perto do que passei / Eu que lavei os seus lençóis sujos de tantas outras paixões, / que ignorei as outras muitas / Vai, depois liga, diz pra sua irmã passar que eu vou mandar / tudo o que é seu que tem aqui, tudo que eu não quero guardar / que é pra esquecer de uma só vez / que este castelo só me prendeu, viu?". Quem quer desmanchar um namoro pode usar essa letra!

"Um Par": de cara, ótima guitarra. A letra é muito boa, mas não vou transcrever pois são cinco trechos que são interligados. Se eu colocar um trecho, terei que colocar todos. De qualquer forma, é mais uma ótima composição. Vocal do Rodrigo se destaca, assim como o naipe de metais e a bateria.

"De Onde Vem a Calma": ao lado de "Além do Que Se Vê" e "Cara Estranho", concorre como melhor música do ano. Vocal perfeitamente entrosado com os metais. A canção cresce aos poucos até o fim, grandioso. O teclado no final da canção é de uma sensibilidade ímpar na nossa música. A letra é linda: "De onde vem a calma daquele cara? / Ele não sabe ser melhor, viu? / Como não entende de ser valente / ele não sabe ser mais viril / Ele não sabe não, viu? / Às vezes dá como um frio / É o mundo que anda hostil / O mundo todo é hostil // De onde vem o jeito tão sem defeito / que esse rapaz consegue fingir? / Olha esse sorriso tão indeciso / Está se exibindo pra solidão / Não vão embora daqui / Eu sou o que vocês são / Não solta da minha mão / Não solta da minha mão // Eu não vou mudar não / Eu vou ficar são / Mesmo se for só, / não vou ceder / Deus vai dar aval sim, / o mal vai ter fim / e no final assim calado / eu sei que vou ser coroado rei de mim". Bravo!

Los Hermanos é um sopro de inteligência na música nacional. É um alento e tanto.

Promessa é dívida. Se você gosta de rock e não conhece as coisas boas que os Rolling Stones fizeram, você estará devidamente perdoado escutando estes discos:

1. Exile on Main Street (1972)
2. Sticky Fingers (1971)
3. Let It Bleed (1969)
4. Beggar's Banquet (1968)
5. Get Yer Ya-Ya's Out! (Ao Vivo - 1970)

E em menor escala:

6. Goats Head Soup (1973)
7. Their Satanic Majesties Request (1967)
8. Between the Buttons (1967)
9. It's Only Rock and Roll (1974)
10. Some Girls (1978)

Os cinco primeiros são simplesmente obrigatórios. Os outros são excelentes, "apenas".

Já que comecei a fazer rankings, vou fazer agora um Top 20 das bandas/artistas de que mais gosto. Claro, essa lista depende muito do momento, mas esses 20 aí eu jamais vou deixar de escutar:

1. The Beatles
2. The Rolling Stones
3. Radiohead
4. R.E.M.
5. Oasis
6. Smashing Pumpkins
7. Bob Dylan
8. Pink Floyd
9. Pearl Jam
10. Neil Young
11. Blur
12. Foo Fighters
13. Red Hot Chili Peppers
14. Led Zeppelin
15. Wilco
16. U2
17. Dave Matthews Band
18. Velvet Underground
19. Weezer
20. Portishead

Lista razoável, não? Ainda faltou muita coisa boa (quem me conhece sabe que tem muita banda foda que ficou de fora), mas rezo na cartilha de todos esses acima.

O Indiegesto tem toda razão. O Jornal da MTV tá uma porcaria, é pura enrolação. Sempre ficam mostrando "videoclipes preferidos" pra preencher espaço... A MTV podia voltar com o "Jornal" semanal. Aí teriam assunto. E eu preferia o Massari. Sim, mesmo quando ele fala do alto de um pódio, de um altar (como se fosse um deus). Ainda assim, algumas (poucas) coisas se salvam. Em um dia desses, já que precisavam "preencher espaços", eles soltaram a maravilhosa "2+2=5" do Radiohead, ao vivo e na íntegra. Mas é exceção.

E o quadro do Rafa? Falaram tanto naquilo, principalmente o Lúcio Ribeiro, que acredita em qualquer bobagem - inclusive que o time dele vai voltar pra 1ª divisão. É o seguinte, o Rafa faz uma divagação extremamente superficial, joga frases de efeito ao vento. Daqui a pouco, ele escreve um livro inspirado na "poesia" do Arnaldo Antunes...

Na próxima coluna, falarei sobre The Sounds, Yeah Yeah Yeahs e sobre uma ótima banda daqui de BH, o 4Sale. Mas o destaque será Hail to the Thief, novo disco do Radiohead. Até!

Links do Sukrilius:

Real Love  -
Smashing
Pumpkins Song Adoption

Hang On

www.uol.com.br/folha/pensata - coluna do jornalista Lúcio Ribeiro. Música, cinema, televisão, só coisas boas. Claro, sempre há uma banda que ele "enche a bola" e não é nenhuma maravilha, mas na maioria dos casos só grandes bandas que poucos conhecem são recomendadas por ele.

www.screamyell.com.br - ótimo site sobre cultura pop em geral. Música, cinema, teatro, livros. Tudo que é interessante e bom está lá.

www.6emeia.cjb.net - zine com ótimos textos, reflexões, críticas de shows, discos, livros, filmes... Comandado pelo genial LF, grande amigo, sofredor e DJ. Foi meu companheiro no antigo site Gritonline (www.gritonline.cjb.net).

www.britrockgroup.hpg.ig.com.br - Britrockgroup é uma lista de discussão do Yahoogrupos sobre rock britânico e eu sou um dos moderadores desta lista.

www.udora.net, www.valv.dk e www.4sale.kit.net - Sites de três das melhores bandas de rock do país.

 
Sukrilius é músico frustrado e tenista arrependido, além de estar momentaneamente desempregado. Ofertas de emprego podem ser enviadas para o e-mail sukrilius@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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