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Depois
do elogiadíssimo Bloco do Eu Sozinho (que eu considero o
melhor disco nacional dos últimos anos), a banda Los Hermanos tinha
uma missão ingrata: gravar seu sucessor. E a missão está cumprida.
Se não é melhor do que Bloco... (creio que não), afirmo que
Ventura se aproxima bastante. Outro excelente trabalho da
banda, que fatalmente estará na relação entre os três melhores discos
nacionais do ano. As letras continuam excelentes e os arranjos,
preciosos. O naipe de metais e o teclado transpiram emoção e fazem
o papel do vocal, quando este se ausenta.
Depois
de "amadurecer" com o disco anterior, parece que agora a banda "envelheceu".
Parecem veteranos que continuam despretensiosos e que não se prendem
a nenhum rótulo. Não fazem apenas música. Fazem músicas inteligentes,
para pensar, não pra dançar (como a maioria das bandas pop daqui).
Ventura
possui quinze deliciosas canções, que dão alguma esperança pra quem
gosta de música nacional (rock, mpb, o que for) de qualidade e que
se cansou de ouvir discos antigos e bandas gringas.
O Henry
Chinaski já falou sobre esse disco, na semana passada. Mas o disco
está tão bom que merece mais uma resenha, um pouco mais minuciosa.
Faixa por faixa, para não perder o costume:

"Samba
a Dois": linda. Samba com guitarra, baixo, bateria, além do afiado
naipe de metais e teclado. O refrão é bacana, o vocal de Marcelo
Camelo está perfeito. Levada meio bossa-nova. No final, o teclado
comanda. Agora, são tantos os detalhes, tantos destaques (guitarra,
metais) que fica difícil ficar apontando. Por exemplo, no refrão
o naipe de metais faz o "fundo" da canção com maestria. A letra
é muito boa: "Não, eu não sambo mais em vão / O meu samba tem cordão
/ O meu bloco tem sem ter e ainda assim / Sambo bem a dois por mim
/ Bambo e só, mas sambo sim". E o final é muito bacana.
"O
Vencedor": um dos vários destaques do disco. A guitarra, deliciosa,
lembra algo de John, do Pato Fu. A letra é um primor: "Olha lá quem
acha que perder / é ser menor na vida / Olha lá quem sempre quer
vitória / e perde a glória de chorar". Mais uma canção que entra
na minha classificação como "pop perfeito". Metais acertados, belos
riffs, ótimo baixo. O refrão é belíssimo. Enfim, acho que faltarão
adjetivos até o final do meu texto.
"Tá
Bom": balada maravilhosa. Bateria de dar inveja pra quem acha que,
em baladas, ela precisa ser contida. Guitarra e teclados dão o clima.
A letra, ótima: "Pois se é no não que se descobre de verdade / o
que te sobra além das coisas casuais / Me diz se assim está em paz
/ achando que sofrer é amar demais". Sem refrão, canção curta e
bela.
"Último
Romance": triste e bela. Ótimo vocal de Rodrigo Amarante. Outro
destaque é a letra, repare o (segundo) refrão: "Me diz o que é o
sossego / que eu te mostro alguém / a fim de te acompanhar / E se
o tempo for te levar / eu sigo essa hora / e pego carona / pra te
acompanhar". Trombone, sax-barítono e baixo, os três só adicionam
emoção. Maravilha.
"Do
Sétimo Andar": mais uma canção que não dá pra apontar um destaque.
Guitarra, bateria, metais... A banda possui um bom gosto nos arranjos
de dar inveja. As letras... Bom, já sabem, né: "Deus sabe, o que
eu quis foi te proteger / do perigo maior que é você / E eu sei
que parece o que não se diz... / o seu caso é o tempo passar / Quem
fala é o doutor".
"A
Outra": um início bem... Estranho. Mas o teclado discretamente some
no meio dos outros instrumentos. Ótima balada dor-de-cotovelo. A
letra é uma beleza: "Se desta vez ela é senhora desse amor / pois
vá embora, por favor / que não demora pra essa dor / sangrar". O
arranjo de metais é fabuloso, só isso.
"Cara
Estranho": mais um destaque, a mais rock do disco. Primeira "música
de trabalho". Simplesmente perfeita. A letra, excelente, não se
repete. O teclado faz uma tabelinha campeã com o vocal. Eu estou
tão acostumado a ouvir letras ruins que, quando vejo algo deste
porte, me assusto. Por isso, a letra (de Marcelo Camelo) vai na
íntegra. Uma das melhores músicas do ano, fácil, fácil:
"Olha só que cara estranho que chegou / Parece não achar lugar
/ no corpo em que Deus lhe encarnou / Tropeça a cada quarteirão
/ mão mede a força que já tem / exibe à frente o coração / que não
divide com ninguém / Tem tudo sempre às suas mãos / mas leva a cruz
um pouco além / talhando feito um artesão / a imagem de um rapaz
de bem / Olha ali quem está pedindo aprovação / Não sabe nem pra
onde ir / se alguém não aponta a direção / Periga nunca se encontrar
/ Será que ele vai perceber / que foge sempre do lugar / deixando
o ódio se esconder / Talvez se nunca mais tentar / viver o cara
da TV / que vence a briga sem suar / e ganha aplausos sem querer
// Faz parte desse jogo / dizer ao mundo todo / que só conhece o
seu quinhão ruim // É simples desse jeito / quando se encolhe o
peito / e finge não haver competição // É a solução de quem não
quer / perder aquilo que já tem / e fecha a mão pro que há de vir".
"O
Velho e o Moço": outra balada campeã. Destaques para a guitarra,
bateria e os metais. Rodrigo Amarante encarna um senhor de idade
e canta: "Ora, se não sou eu quem mais / vai decidir o que é bom
pra mim? / Dispenso a previsão! / Ah, se o que eu sou é também /
o que eu escolhi ser / aceito a condição". Uma beleza.
"Além
do Que Se Vê": pára tudo! O arranjo de metais no final desta canção
é uma das coisas mais belas que já escutei em toda a minha vida,
sem exagero. Arrepia o mais insensível dos homens. Só pelo final
desta música já vale a pena ter o disco. Vou dar nome aos bois:
Jessé Sadoc Filho (trompete), Serginho Trombone (trombone, óbvio...),
Zé Canuto (sax-barítono) e Eliezer Rodrigues (tuba). Além disso,
a melodia no início, o vocal bem Chico Buarque e a letra são sensacionais
("Sei que a tua solidão me dói / e que é difícil ser feliz / mas
do que somos todos nós") . Corre grande risco de ser a melhor música
nacional do ano.
"O
Pouco que Sobrou": levada meio mpb, um teclado muito bacana. Canção
triste, de desilusão. No final, é "engolida" pelo teclado, muito
bom.
"Conversa
de Botas Batidas": essa canção me faz lembrar da minha infância,
quando escutava "Saltimbancos". Perfeita, outro grande destaque.
Piano, vocal, metais... A letra, como não podia deixar de ser, é
bela. E desta vez, positiva: "Abre a janela agora, deixa que o sol
te veja / E só lembrar que o amor é tão maior / que estamos sós
no céu / Abre as cortinas pra mim / que eu não me escondo de ninguém
/ O amor já desvendou nosso lugar / e agora está de bem". No final,
todos cantam juntos e o que se tornaria brega torna-se belo, graças
ao conjunto vozes e metais, belíssimo.
"Deixa
o Verão": descompromissada, divertida. Ouça sem prestar muita atenção,
pois o intuito da música é entreter, divertir. A letra é simples,
ensolarada e relaxante: "Deixa eu decidir é cedo ou tarde / espere
eu considerar / ver se eu vou assim chique-à-vontade / qual o tom
do lugar". O clarinete é belíssimo.
"Do
Lado de Dentro": começa tímida e logo ganha força. Repare no teclado
e na intensidade do vocal do Marcelo Camelo, além da bateria e guitarra.
A letra, bem... Pra variar, afiada: "Cala essa boca que isso é coisa
pouca perto do que passei / Eu que lavei os seus lençóis sujos de
tantas outras paixões, / que ignorei as outras muitas / Vai, depois
liga, diz pra sua irmã passar que eu vou mandar / tudo o que é seu
que tem aqui, tudo que eu não quero guardar / que é pra esquecer
de uma só vez / que este castelo só me prendeu, viu?". Quem quer
desmanchar um namoro pode usar essa letra!
"Um
Par": de cara, ótima guitarra. A letra é muito boa, mas não vou
transcrever pois são cinco trechos que são interligados. Se eu colocar
um trecho, terei que colocar todos. De qualquer forma, é mais uma
ótima composição. Vocal do Rodrigo se destaca, assim como o naipe
de metais e a bateria.
"De
Onde Vem a Calma": ao lado de "Além do Que Se Vê" e "Cara Estranho",
concorre como melhor música do ano. Vocal perfeitamente entrosado
com os metais. A canção cresce aos poucos até o fim, grandioso.
O teclado no final da canção é de uma sensibilidade ímpar na nossa
música. A letra é linda: "De onde vem a calma daquele cara? / Ele
não sabe ser melhor, viu? / Como não entende de ser valente / ele
não sabe ser mais viril / Ele não sabe não, viu? / Às vezes dá como
um frio / É o mundo que anda hostil / O mundo todo é hostil // De
onde vem o jeito tão sem defeito / que esse rapaz consegue fingir?
/ Olha esse sorriso tão indeciso / Está se exibindo pra solidão
/ Não vão embora daqui / Eu sou o que vocês são / Não solta da minha
mão / Não solta da minha mão // Eu não vou mudar não / Eu vou ficar
são / Mesmo se for só, / não vou ceder / Deus vai dar aval sim,
/ o mal vai ter fim / e no final assim calado / eu sei que vou ser
coroado rei de mim". Bravo!
Los
Hermanos é um sopro de inteligência na música nacional. É um alento
e tanto.

Promessa
é dívida. Se você gosta de rock e não conhece as coisas boas que
os Rolling Stones fizeram, você estará devidamente perdoado escutando
estes discos:
1.
Exile on Main Street (1972)
2. Sticky Fingers (1971)
3. Let It Bleed (1969)
4. Beggar's Banquet (1968)
5. Get Yer Ya-Ya's Out! (Ao Vivo - 1970)
E em
menor escala:
6.
Goats Head Soup (1973)
7. Their Satanic Majesties Request (1967)
8. Between the Buttons (1967)
9. It's Only Rock and Roll (1974)
10. Some Girls (1978)
Os
cinco primeiros são simplesmente obrigatórios. Os outros são excelentes,
"apenas".

Já
que comecei a fazer rankings, vou fazer agora um Top 20 das bandas/artistas
de que mais gosto. Claro, essa lista depende muito do momento, mas
esses 20 aí eu jamais vou deixar de escutar:
1.
The Beatles
2. The Rolling Stones
3. Radiohead
4. R.E.M.
5. Oasis
6. Smashing Pumpkins
7. Bob Dylan
8. Pink Floyd
9. Pearl Jam
10. Neil Young
11. Blur
12. Foo Fighters
13. Red Hot Chili Peppers
14. Led Zeppelin
15. Wilco
16. U2
17. Dave Matthews Band
18. Velvet Underground
19. Weezer
20. Portishead
Lista
razoável, não? Ainda faltou muita coisa boa (quem me conhece sabe
que tem muita banda foda que ficou de fora), mas rezo na cartilha
de todos esses acima.

O Indiegesto
tem toda razão. O Jornal da MTV tá uma porcaria, é pura enrolação.
Sempre ficam mostrando "videoclipes preferidos" pra preencher espaço...
A MTV podia voltar com o "Jornal" semanal. Aí teriam assunto. E
eu preferia o Massari. Sim, mesmo quando ele fala do alto de um
pódio, de um altar (como se fosse um deus). Ainda assim, algumas
(poucas) coisas se salvam. Em um dia desses, já que precisavam "preencher
espaços", eles soltaram a maravilhosa "2+2=5" do Radiohead, ao vivo
e na íntegra. Mas é exceção.
E o
quadro do Rafa? Falaram tanto naquilo, principalmente o Lúcio Ribeiro,
que acredita em qualquer bobagem - inclusive que o time dele vai
voltar pra 1ª divisão. É o seguinte, o Rafa faz uma divagação extremamente
superficial, joga frases de efeito ao vento. Daqui a pouco, ele
escreve um livro inspirado na "poesia" do Arnaldo Antunes...

Na
próxima coluna, falarei sobre The Sounds, Yeah Yeah Yeahs e sobre
uma ótima banda daqui de BH, o 4Sale. Mas o destaque será Hail
to the Thief, novo disco do Radiohead. Até!
Links
do Sukrilius:


www.uol.com.br/folha/pensata
- coluna do jornalista Lúcio Ribeiro. Música, cinema, televisão,
só coisas boas. Claro, sempre há uma banda que ele "enche a bola"
e não é nenhuma maravilha, mas na maioria dos casos só grandes bandas
que poucos conhecem são recomendadas por ele.
www.screamyell.com.br
- ótimo site sobre cultura pop em geral. Música, cinema, teatro,
livros. Tudo que é interessante e bom está lá.
www.6emeia.cjb.net
- zine com ótimos textos, reflexões, críticas de shows, discos,
livros, filmes... Comandado pelo genial LF, grande amigo, sofredor
e DJ. Foi meu companheiro no antigo site Gritonline (www.gritonline.cjb.net).
www.britrockgroup.hpg.ig.com.br
- Britrockgroup é uma lista de discussão do Yahoogrupos sobre rock
britânico e eu sou um dos moderadores desta lista.
www.udora.net,
www.valv.dk e www.4sale.kit.net
- Sites de três das melhores bandas de rock do país.
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