É curioso observar as bandas de rock progressivo
que surgiram dos anos 90 para cá. Belo Horizonte é
a cidade natal de algumas delas, apesar de não poder sentir-se
previlegiada por isso. Poucas têm alguma qualidade e muitas
não têm qualidade nenhuma, sendo que as primeiras são
formadas por pessoas que conseguem no máximo fazer plágios
aceitáveis. Essas bandas podem até apreciar o rock
progressivo, mas só conseguem cair em estereótipos
e produzir paródias; os temas são os mesmos do Yes,
Jethro Tull ou Renaissance muito pouco disfarçados (e bem
piores).
Tais conjuntos possivelmente desejam conquistar o público
que ouviu o som dos anos 70 e que gosta de bandas como as acima
referidas; pessoalmente, eu gosto dessas bandas, não de suas
porcas imitações.
Aqueles que entendem a época e esse gênero musical
(independentemente da faixa etária) podem distinguir um som
plastificado de um som original, e se a intenção é
parecer o menos comercial possível, ao menos essa meta foi
atingida por essas bandas de imitação. Não
pelo seus discos serem ousados ou autênticos, mas sim por
serem extremamente chatos e repetitivos. Ou as pessoas estão
sendo facilmente enganadas, ou ninguém compra esses discos...
Para citar um desagradável exemplo: quando a banda Wishbone
Ash veio ao Brasil, assisti ao seu show no Rio de Janeiro e o conjunto
que abria para eles era um tal de Ashtar que, sem saber da tortura
que sofreria, me prontifiquei a ver. Uma mocinha com uma voz agradavelmente
digestiva estava à frente da banda como vocalista, provavelmente
se sentindo a Anne Haslam, que é a heroína de todas
essas "cantoras" (nada contra a Anne Haslam!). Fui pega
desprevenida por arranjos incompetentes, melodias enganadoras e
letras que pareciam ter sido escritas por pessoas que não
conhecem o significado de meia dúzia de músicas do
Pink Floyd.
O pior é que eu sei que existem pessoas que conhecem de
música (bandas, discos etc), são ótimos ouvintes,
mas não sabem fazer música. Não há nenhum
problema nissso, quando os mesmos sabem dos seus atributos: não
maltratam os tímpanos de pobres coitados como eu. A banda
que citei deve ser do Rio, mas não difere essencialmente
das belo horizontinas ou paulistanas. A falta de originalidade só
está em maior ou menor grau...
O que ouvimos em um bom disco da década de 70 são
experiências de músicos que tinham algo de novo para
mostrar. Já o que ouvimos nas novas bandas de progressivo
são pessoas que fazem música como que seguindo a receita
de um bolo. Temas medievais ou idílicos, fadas, historinhas
e afins parecem fazer parte dessa indigesta receita.
O fato é que ouvem música superficialmente. Podem
achar "lindo" ou "genial", mas são incapazes
de chegar realmente perto dessas idéias e sensações,
afastam-se cada vez mais delas à medida que as mistificam.
Há uma mistificação em relação
àquela época, um deslumbramento que a deixa cem anos
mais longe do que ela de fato está de nós.
Repetir os temas do Genesis ou Yes exaustivamente é resultado
de uma profunda falta de criatividade. É preciso tratar essa
música seriamente como uma música atemporal, é
preciso fazer música como os grandes a fazem, permanentemente
excitados com o presente e refletindo sobre o passado e o futuro.
A partir daí, se encontrará uma música de alto
nível sem ela estar presa pelas amarras do tempo e das fórmulas
que nesse tempo começou-se a adotar. Não devemos tentar
criar como o Roger Watters ou o Robert Fripp, mas pensar por nós
mesmos e, se conhecemos verdadeiramente o que eles e outros tentaram
nos mostrar, essa influência se manifestará livremente
dentro de nós para se transformar numa experiência
totalmente diferente. Esse é o único recado que é
necessário que entendam para que fujam da mediocridade e
se tornem músicos de verdade. |