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Beagá, 20 de setembro de 2004 d.C.
 
"Think for yourself"
Por Sonja Cristina
 

É curioso observar as bandas de rock progressivo que surgiram dos anos 90 para cá. Belo Horizonte é a cidade natal de algumas delas, apesar de não poder sentir-se previlegiada por isso. Poucas têm alguma qualidade e muitas não têm qualidade nenhuma, sendo que as primeiras são formadas por pessoas que conseguem no máximo fazer plágios aceitáveis. Essas bandas podem até apreciar o rock progressivo, mas só conseguem cair em estereótipos e produzir paródias; os temas são os mesmos do Yes, Jethro Tull ou Renaissance muito pouco disfarçados (e bem piores).

Tais conjuntos possivelmente desejam conquistar o público que ouviu o som dos anos 70 e que gosta de bandas como as acima referidas; pessoalmente, eu gosto dessas bandas, não de suas porcas imitações.

Aqueles que entendem a época e esse gênero musical (independentemente da faixa etária) podem distinguir um som plastificado de um som original, e se a intenção é parecer o menos comercial possível, ao menos essa meta foi atingida por essas bandas de imitação. Não pelo seus discos serem ousados ou autênticos, mas sim por serem extremamente chatos e repetitivos. Ou as pessoas estão sendo facilmente enganadas, ou ninguém compra esses discos...

Para citar um desagradável exemplo: quando a banda Wishbone Ash veio ao Brasil, assisti ao seu show no Rio de Janeiro e o conjunto que abria para eles era um tal de Ashtar que, sem saber da tortura que sofreria, me prontifiquei a ver. Uma mocinha com uma voz agradavelmente digestiva estava à frente da banda como vocalista, provavelmente se sentindo a Anne Haslam, que é a heroína de todas essas "cantoras" (nada contra a Anne Haslam!). Fui pega desprevenida por arranjos incompetentes, melodias enganadoras e letras que pareciam ter sido escritas por pessoas que não conhecem o significado de meia dúzia de músicas do Pink Floyd.

O pior é que eu sei que existem pessoas que conhecem de música (bandas, discos etc), são ótimos ouvintes, mas não sabem fazer música. Não há nenhum problema nissso, quando os mesmos sabem dos seus atributos: não maltratam os tímpanos de pobres coitados como eu. A banda que citei deve ser do Rio, mas não difere essencialmente das belo horizontinas ou paulistanas. A falta de originalidade só está em maior ou menor grau...

O que ouvimos em um bom disco da década de 70 são experiências de músicos que tinham algo de novo para mostrar. Já o que ouvimos nas novas bandas de progressivo são pessoas que fazem música como que seguindo a receita de um bolo. Temas medievais ou idílicos, fadas, historinhas e afins parecem fazer parte dessa indigesta receita.

O fato é que ouvem música superficialmente. Podem achar "lindo" ou "genial", mas são incapazes de chegar realmente perto dessas idéias e sensações, afastam-se cada vez mais delas à medida que as mistificam. Há uma mistificação em relação àquela época, um deslumbramento que a deixa cem anos mais longe do que ela de fato está de nós.

Repetir os temas do Genesis ou Yes exaustivamente é resultado de uma profunda falta de criatividade. É preciso tratar essa música seriamente como uma música atemporal, é preciso fazer música como os grandes a fazem, permanentemente excitados com o presente e refletindo sobre o passado e o futuro. A partir daí, se encontrará uma música de alto nível sem ela estar presa pelas amarras do tempo e das fórmulas que nesse tempo começou-se a adotar. Não devemos tentar criar como o Roger Watters ou o Robert Fripp, mas pensar por nós mesmos e, se conhecemos verdadeiramente o que eles e outros tentaram nos mostrar, essa influência se manifestará livremente dentro de nós para se transformar numa experiência totalmente diferente. Esse é o único recado que é necessário que entendam para que fujam da mediocridade e se tornem músicos de verdade.

 
Sonja Cristina é uma carioca exilada em Belo Horizonte e não agüenta mais viver nesta roça. E-mail: sonja@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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