Eu sou um grande teólogo, dos
bons. E daria um ótimo cientista político também.
É só ler o que escrevem os padres libertários
assessores do presidente que eu me sinto assim. Não preciso
nem ler a Bíblia, nem Santo Agostinho. Não preciso
saber muita coisa de política.
Eu já consigo diferenciar estado de igreja. Eu sei que o
Brasil não é um estado laico. Com a morte do papa,
descobri que alguns bispos, conselheiros espirituais do presidente
e excomungados de plantão, não sabem disso. Não
acredite neles, leitor. Nos bispos, padres petistas e nos liberatários
excomungados. Não acredite, aliás, nos petistas e
nem nos tucanos. Não acredite no PFL. Os políticos
brasileiros são ruins demais e alguns padres gostam deles.
O estado, o grande irmão, não pode ter padres como
assessores especiais teológicos. O estado deve ser pequeno
para que possamos cobrar dele ao máximo. Para que ele funcione
razoavelmente. Caso contrário, o estado não trabalha.
Um estado inchado é sinônimo de fracasso.
O Brasil é um país medíocre porque o governo
quer meter a colher em tudo. Pagamos muito e não combramos
nada.
O estado tem que ser pequeno e eficiente. O estado precisa investir
(para desespero dos very libertarians orkutianos) em saúde
e educação. O estado deve tentar fazer com que os
miseráveis deixem de ser miseráveis. Só isso.
O estado não precisa ajudar os pobres. Basta deixar que os
pobres se ajudem. Pobre não precisa de ajuda. Basta eliminar
um monte de impostos. Basta deixar eles montarem seu próprio
negócio ou deixar que uma empresa os contratem. Mas o estado
não entende nada de economia. Quando mais impostos o estado
cobra, mais gente saída das faculdades de Ciências
Sociais o governo contrata. O governo do PT está cheio dessa
gente que tem um cargo qualquer. O governo está cheio de
assessores especiais de segundo escalão de divisões
secundárias de ministérios que nada fazem. Quanto
mais imposto o governo cobra, mais sobra para pagar assessores espirituais
para o presidente. O estado se mete em tudo.
Eu não sou mulher e não tenho opinião definida
sobre o aborto, tenho medo de armas, não uso drogas, sou
favorável ao casamento gay, comeria transgênicos numa
boa e não gosto do Exército. Por que esse pessoal
que elegeu o Severino acha que pode definir como eu devo proceder
sobre tudo isso? Os burocratas de Brasília são as
pessoas mais indicadas para saber se você leitora mulher pode
ou não abortar, se você pode ou não ter uma
arma, se você pode fumar um baseado no fim semana, se você
pode firmar um contrato de casamento com uma pessoa do mesmo sexo,
se você pode ou não comprar um tomate mais barato no
mercado, se você deve perder seus 18 anos numa farda?
Aquele pessoal que assesora o Lula acha que sim. Eles têm
opinião para todas essas coisas.
O estado decide que você não aborta, que você
não usa armas, que gays e lésbicas não se casam,
quando e como o agricultor pode plantar transgênico, onde
você vai estar quando completar 18 anos, se você pode
cheirar cocaína, como você vai gastar 30% do seu saláio
(dando para o governo), que você é obrigado a votar,
como você deve proceder em relação a seu filho
e seus pais.

Esse pessoal que assessora o presidente condenava o papa João
Paulo II. O papa era conservador, diziam. Os teólogos da
liberação sabem menos da Igreja Católica do
que eu. A Igreja não é governo. A Igreja não
muda em nada sua vida, não te obriga a nada, você não
depende da Igreja para viver. Mas sua vida pode mudar (ou não)
se você for à Igreja. A Igreja está aí
há centenas de anos. Milhões de pessoas têm
fé na Igreja. A religião católica segue aquilo
que Jesus teria pregado. Basta você ter fé ou não.
Ser Católico ou não. Religião não é
um fast food existencial onde você acha legal umas partes
e diz “ah isso está errado, esses caras caras têm
de mudar. Aposto que aquele cabeludinho de olho azul não
quis dizer isso ou esse tal de Buda é bacana mas têm
coisas aí que me cansam”.
As religiões têm bases milenares que, para o bem ou
para o mal, ajudaram a sociedade a ser isso que é hoje. A
idéia de fé, de obedecer condutas, de força
espiritual, é a base da Igreja. Quem sente isso, sabe do
que eu estou falando, quem não sente (como eu) que entenda
e exerça seu sagrado direito de não ir à missa
ou de ir, cochilar e usar aqueles óculos do Homer Simpson
quando ele era obrigado a assistir ao culto.
Este escriba, assumidamente caótico e não católico,
entraria em crise existencial se o papa apoiasse o aborto em nome
da Saúde Pública, apoiasse a camisinha em nome da
Saúde Pública. Se o Papa dissesse “tudo bem,
vamos casar o pessoal GLS!”. Se o papa dissesse: vão
dar uma trepadinha, mas usem camisinha.
A Igreja se baseia nessa idéia: você não mata,
você não faz sexo antes do casamento, homem casa com
mulher. É foda? É. Se fosse fácil, a própria
religião não diria que todo mundo aqui é pecador
e insignificante perto de Deus.
Se o papa dissesse que é bacana dividir o mundo entre burgueses
e proletariado e botar fogo na luta de classes. O papa deveria fazer
isso em nome da modernização? Qual modernização?
O que religião tem a ver com modernização?
Ah, mas a Igreja está perdendo fiéis. Que perda. Tem
muito católico no mundo e uns cinco milhões de fiéis
xaropes não fariam diferença.
Portanto leitor, não acredite nos padres assessores, nesses
barbudos que escrevem por aí. Estado e governo é uma
coisa. São necessários, mas não devem encher
nosso saco. O governo não pode e não tem o poder de
decidir por você.
Igreja é outra coisa. Igreja é você com sua
espiritualidade, sem intermediários. Acredite, tenha fé,
sofra, peque e comungue, se você topa. Se você não
topa, lembre-se do Homer. |