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Beagá, 23 de junho de 2003 d.C.
 
A melhor banda do Brasil
Por Henry Chinaski
 

Disco novo e show do Los Hermanos no sábado. Assunto decidido pra compensar minha licença no Abacaxi. Os Hermanos tocaram dois sábados atrás em Curitiba lançando seu novo disco, Ventura. Bar cheio, não lotado, e público ganho. Sei que boa parte do staff do Abacaxi torce o nariz para os rapazes (com exceção do Sukrilius). Problema deles, eu diria. O Hermanos é, sem dúvida, a melhor banda do Brasil atualmente em qualquer tipo da análise.

A capacidade de criação de Camelo e Amarante é impressionante. Ventura dá continuidade a Bloco Do Eu Sozinho em um trabalho que já amadurecia no álbum de "Primavera" e "Anna Júlia". O terceiro disco é a comprovação de que Amarante e Camelo são os dois melhores compositores do rock brasileiro. Não é delírio dizer que são os dois melhores compositores a aparecerem na cena pop rock nos últimos dez anos. As letras da dupla conseguem ir além da melhor cartilha pop: subjetivas, românticas, simples e por isso mesmo pessoais a todos nós. Se no primeiro disco a banda conseguia uma mistura competente de hardcore e ritmos diversos, em Bloco... e Ventura os Hermanos trabalham um sem número de influências em canções assobiáveis, pops até a medula, com tudo de mais interessante que isso pode significar. Salsa, samba, hardcore, power pop. Em Ventura essas referências ganham corpo em faixas lindas, densas, trabalhadas, marcantes.

"Samba a Dois" é a música de um artista nacional que a Trama queria lançar e não acha. "O Vencedor" e "Cara Estranho" são hits perfeitos, pop grudento dos melhores para agradar tanto o fã de Sonic Youth como o de Cartola. "Tá Bom", uma das minhas preferidas no disco, ficou fantástica ao vivo. "Último Romance" e "Sétimo Andar" trazem a marca de Amarante. Se "Sentimenal" roubava a cena em Bloco..., essas duas não deixam por menos. São típicas do "segundo" compositor da banda. Se Camelo narra amores de terceiros, jovens e adolescentes cheios de insegurança com metáforas de alegria, carnaval, baile, fim e tristeza; Amarante parece mais adulto e mais direto, menos doce e estranhamente mais dramático. Fala da fila do pão, do jornal e do café da manhã; trata com maestria incomparável os grandes dramas surgidos entre quatro paredes e tantos desencontros. "A Outra" traz de volta a voz quase infantil de Camelo, melodia açucarada em que o carioca acerta em cheio as fãs da melhor fase de Chico Buarque. "O Velho e o Moço" é Amarante brincando com o fim, o adeus, o acaso e ciúmes... "Eu gosto é do estrago...Se não sou eu quem mais vai decidir o que mais é bom pra mim".O disco ainda tem "Além do que Se Vê", em um daqueles andamentos de bloco de carnaval que Camelo tanto sabe usar, e "O Pouco que Sobrou", com vários efeitos legais de guitarra e letra simples do próprio Camelo, que também é autor de "Conversa de Botas Batidas", música pra todo mundo dançar abraçado com a namorada.

O show em Curitiba ainda teve, claro, as músicas do Bloco... e do primeiro disco, com todo mundo cantando junto "Azedume" e "Quem Sabe". O Los Hermanos fugiu do sucesso instantâneo de "Anna Julia", brigou com gravadora, vendeu relativamente pouco e ainda desagrada uma boa parcela dos puristas indies. Tudo bem. Escute Ventura sem medo e vá ao show. Depois, concorde comigo ou com os colegas do Abacaxi.

Nas próximas colunas, falarei de duas bandas de Curitiba: Poléxia e Terminal Guadalupe.

 
Henry Chinaski é jornalista bebum e, quando está sóbrio, envia lá de Curitiba suas matérias para o ABACAXI ATÔMICO. E-mail: chinaski@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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