|
Pico
na Veia
Dalton Trevisan
"Minha
irmã abortou no banheiro e veio ao meu quarto chorando. Com mão
fechada, perguntou se eu tinha coragem de ver. Abriu os dedos: ele
cabia todinho na palma da mão".
Em
Pico na Veia, seu último livro, Dalton Trevisan abusa daquilo
que os críticos chamam de minimalismo ficcional. O resultado são
295 contos que funcionam como baques surdos, tapas na cara de um
leitor despreparado. Dalton sempre, sempre procurou o texto enxuto.
Seus contos privilegiam o momento banal, o diálogo diário e revelador.
Em Pico, a obsessão pela síntese atinge o auge. Os personagens
são as moças, mocinhas, velhos e rapazes de bigodinhos sem nome.
Quando muito, chamam-se João e Maria. Suas vidas, seu passado pouco
importam. São mais um dentre tantos outros. O que importa são os
pequenos relatos dos quais tornam-se protagonistas. A cada página
histórias parecidas, os mesmos gestos e os mesmos atos. O leitor
mais desatento pode até reclamar e, para esse, o vampiro responde
na página 224. "Ora, direis, ele se repete. E eu vos direis, no
entanto, como poderia se cada personagem é baseado numa pessoa diferente?
Se alguém se repete são elas, essas pessoas iguais sempre as mesmas.
Pô, destino próprio, história única, vida original - não há mais?"
É
a resposta de Dalton ao público, crítica acadêmica e à imprensa,
aquela que Dalton nunca atende. Só que o isolamento, nesse caso,
queira o autor ou não, tem um efeito de marketing devastador. Enquanto
o vampiro não dá sinais de vida, as páginas de literatura dos cadernos
culturais tratam da eleição de Paulo Coelho para a Academia, do
mais novo genial poeta concretista estilo Arnaldo Antunes ou da
mais nova representante da literatura pop egressa de algum blog
descolado. De repente, Dalton revive e surge com um livro. A agitação
é geral e a imprensa vai do esquecimento à admiração bovina sem
nenhum pudor. Exemplo nítido é a operação caça-vampiro que a Época
promoveu no final de 98. Cercaram Dalton de todos os lados. Sem
sucesso, obviamente. Da assessoria da Editora Record escutam a resposta
oficial. "Nada para dizer fora dos livros. Interessa o conto, não
o contista".
Finalmente,
sem conseguir nenhuma aspas, a ansiedade da turma de repórteres
culturais vai embora. Afinal de contas, eles têm em mãos uma multidão
de novos escritores que falam pelos cotovelos. Pode então o vampiro
voltar a sua rotina. Café na Confeitaria das Famílias, conversa
com o Chain na livraria, cinema no Ritz, leitura na biblioteca e
passeio noturno pela Rua XV. Em Curitiba, Dalton está salvo, não
precisa se preocupar. Afinal, é ele, o vampiro, essência e antítese
da própria cidade. Desde que a capital das araucárias adotou a rebeldia
tropicalista de Leminski como literatura oficial, Dalton segue maldito
em um anonimato forçado e, por isso mesmo, segue mais curitibano
do que nunca. A maioria da cidade não o vê e quem vê silencia. Por
respeito ou pela mudez da admiração. Dalton agradece.

Carandiru
A
notícia foi destaque da imprensa brasileira durante a semana. A
crítica de Cannes torceu o beiço para Carandiru e o público
gostou, com direito a muitas palmas. A bíblia do jornalismo europeu,
Le Monde, fez duras críticas ao filme e se assumiu como porta-voz
dos críticos chatinhos. Para o diário francês, o diretor Hector
Babenco erra ao tratar os bandidos do presídio como "belos, inteligentes,
gentis e quase sempre inocentes". E atribui os aplausos da grande
massa ao desconhecimento em relação ao contexto de Carandiru.
A mídia corporativa brasileira, lógico, saiu em defesa de Babenco.
Pois bem, até o mais inocente dos espectadores sabe que Carandiru
glamouriza sim seus detentos, coisa que está no livro de Dráuzio
Varella. Afinal, toda história acontece dentro do presídio e, nesse
caso, pouco importa o curriculum vitae dos astros de Carandiru.
Ali dentro todos são "inocentes". Mesmo
assim, o filme ainda faz uma mea culpa cinematográfica. "Só os presos,
a PM e Deus sabem o que realmente aconteceu em 2 de outubro de 92.
Eu só ouvi os presos", avisa Varella.
O
crítico do Le Monde e boa parte da inteligência brasileira
têm visões distintas do filme, mas erram no mesmo aspecto. Tarantino,
Guy Ritchie e uma série de diretores americanos e europeus revitalizaram,
a partir da década de 90, a temática da violência, uma violência
bem glamourizada sim. Ninguém falou nada para eles, já que cinema,
tanto como arte e tanto como produto, não precisa e não deve ser
definidor de condutas morais. O mal-humorado do Le Monde
sabe disso, mas não quis ver em Carandiru. Mas o erro não
foi só dele. Atribuir um valor social, moral e cívico para Carandiru
é besteira grande. É típico papo de boteco de depois do filme: Carandiru
serve para mostrar à classe média alienada uma realidade que ela
não vê e bláblá... Qualquer cidadão que ande pelo centro de qualquer
metrópole brasileira não precisa de filme nenhum para aprender sobre
violência urbana, pobreza e caos social.

Não
acompanhei com regularidade o 7° Festival de Cinema, Vídeo e Dcine
de Curitiba. Mas trago alguma coisa do Festival na próxima coluna,
com ajuda de dos amigos. Destaque para Amarelo Manga e o
premiado em Gramado, Durval Discos.

Ainda
não assisti Matrix Reloaded. Mas tenho acompanhado o tratamento
que o filme vem recebendo na imprensa. Do que eu li, destaque para
a matéria da Superinteressante assinada por Rafael Kenski.
A reportagem vai além do tratamento costumeiro dado pela revistas
semanais ao filme. Enquanto a maioria concentra-se no quanto custou,
no efeito sobre os fãs e nas técnicas de filmagem, Kenski vai atrás
das dezenas de referências que o filme traz. Belo trabalho de reportagem.
|