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Beagá, 26 de maio de 2003 d.C.
 
Pico na Veia
Por Henry Chinaski
 

Pico na Veia
Dalton Trevisan

"Minha irmã abortou no banheiro e veio ao meu quarto chorando. Com mão fechada, perguntou se eu tinha coragem de ver. Abriu os dedos: ele cabia todinho na palma da mão".

Em Pico na Veia, seu último livro, Dalton Trevisan abusa daquilo que os críticos chamam de minimalismo ficcional. O resultado são 295 contos que funcionam como baques surdos, tapas na cara de um leitor despreparado. Dalton sempre, sempre procurou o texto enxuto. Seus contos privilegiam o momento banal, o diálogo diário e revelador. Em Pico, a obsessão pela síntese atinge o auge. Os personagens são as moças, mocinhas, velhos e rapazes de bigodinhos sem nome. Quando muito, chamam-se João e Maria. Suas vidas, seu passado pouco importam. São mais um dentre tantos outros. O que importa são os pequenos relatos dos quais tornam-se protagonistas. A cada página histórias parecidas, os mesmos gestos e os mesmos atos. O leitor mais desatento pode até reclamar e, para esse, o vampiro responde na página 224. "Ora, direis, ele se repete. E eu vos direis, no entanto, como poderia se cada personagem é baseado numa pessoa diferente? Se alguém se repete são elas, essas pessoas iguais sempre as mesmas. Pô, destino próprio, história única, vida original - não há mais?"

É a resposta de Dalton ao público, crítica acadêmica e à imprensa, aquela que Dalton nunca atende. Só que o isolamento, nesse caso, queira o autor ou não, tem um efeito de marketing devastador. Enquanto o vampiro não dá sinais de vida, as páginas de literatura dos cadernos culturais tratam da eleição de Paulo Coelho para a Academia, do mais novo genial poeta concretista estilo Arnaldo Antunes ou da mais nova representante da literatura pop egressa de algum blog descolado. De repente, Dalton revive e surge com um livro. A agitação é geral e a imprensa vai do esquecimento à admiração bovina sem nenhum pudor. Exemplo nítido é a operação caça-vampiro que a Época promoveu no final de 98. Cercaram Dalton de todos os lados. Sem sucesso, obviamente. Da assessoria da Editora Record escutam a resposta oficial. "Nada para dizer fora dos livros. Interessa o conto, não o contista".

Finalmente, sem conseguir nenhuma aspas, a ansiedade da turma de repórteres culturais vai embora. Afinal de contas, eles têm em mãos uma multidão de novos escritores que falam pelos cotovelos. Pode então o vampiro voltar a sua rotina. Café na Confeitaria das Famílias, conversa com o Chain na livraria, cinema no Ritz, leitura na biblioteca e passeio noturno pela Rua XV. Em Curitiba, Dalton está salvo, não precisa se preocupar. Afinal, é ele, o vampiro, essência e antítese da própria cidade. Desde que a capital das araucárias adotou a rebeldia tropicalista de Leminski como literatura oficial, Dalton segue maldito em um anonimato forçado e, por isso mesmo, segue mais curitibano do que nunca. A maioria da cidade não o vê e quem vê silencia. Por respeito ou pela mudez da admiração. Dalton agradece.

Carandiru

A notícia foi destaque da imprensa brasileira durante a semana. A crítica de Cannes torceu o beiço para Carandiru e o público gostou, com direito a muitas palmas. A bíblia do jornalismo europeu, Le Monde, fez duras críticas ao filme e se assumiu como porta-voz dos críticos chatinhos. Para o diário francês, o diretor Hector Babenco erra ao tratar os bandidos do presídio como "belos, inteligentes, gentis e quase sempre inocentes". E atribui os aplausos da grande massa ao desconhecimento em relação ao contexto de Carandiru. A mídia corporativa brasileira, lógico, saiu em defesa de Babenco. Pois bem, até o mais inocente dos espectadores sabe que Carandiru glamouriza sim seus detentos, coisa que está no livro de Dráuzio Varella. Afinal, toda história acontece dentro do presídio e, nesse caso, pouco importa o curriculum vitae dos astros de Carandiru. Ali dentro todos são "inocentes". Mesmo assim, o filme ainda faz uma mea culpa cinematográfica. "Só os presos, a PM e Deus sabem o que realmente aconteceu em 2 de outubro de 92. Eu só ouvi os presos", avisa Varella.

O crítico do Le Monde e boa parte da inteligência brasileira têm visões distintas do filme, mas erram no mesmo aspecto. Tarantino, Guy Ritchie e uma série de diretores americanos e europeus revitalizaram, a partir da década de 90, a temática da violência, uma violência bem glamourizada sim. Ninguém falou nada para eles, já que cinema, tanto como arte e tanto como produto, não precisa e não deve ser definidor de condutas morais. O mal-humorado do Le Monde sabe disso, mas não quis ver em Carandiru. Mas o erro não foi só dele. Atribuir um valor social, moral e cívico para Carandiru é besteira grande. É típico papo de boteco de depois do filme: Carandiru serve para mostrar à classe média alienada uma realidade que ela não vê e bláblá... Qualquer cidadão que ande pelo centro de qualquer metrópole brasileira não precisa de filme nenhum para aprender sobre violência urbana, pobreza e caos social.

Não acompanhei com regularidade o 7° Festival de Cinema, Vídeo e Dcine de Curitiba. Mas trago alguma coisa do Festival na próxima coluna, com ajuda de dos amigos. Destaque para Amarelo Manga e o premiado em Gramado, Durval Discos.

Ainda não assisti Matrix Reloaded. Mas tenho acompanhado o tratamento que o filme vem recebendo na imprensa. Do que eu li, destaque para a matéria da Superinteressante assinada por Rafael Kenski. A reportagem vai além do tratamento costumeiro dado pela revistas semanais ao filme. Enquanto a maioria concentra-se no quanto custou, no efeito sobre os fãs e nas técnicas de filmagem, Kenski vai atrás das dezenas de referências que o filme traz. Belo trabalho de reportagem.

 
Henry Chinaski é jornalista bebum e, quando está sóbrio, envia lá de Curitiba suas matérias para o ABACAXI ATÔMICO. E-mail: chinaski@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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