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Beagá, 19 de maio de 2003 d.C.
 
Cemitério de Elefantes
Por Henry Chinaski
 

Cemitério de Elefantes
Dalton Trevisan

Posso parecer óbvio, mas antes de escrever de Cemitério de Elefantes preciso escrever do autor, Dalton Trevisan. Posso parecer repetitivo para quem já o conhece. É um risco que tenho de correr.

Dalton é curitibano, escritor, torcedor do Atlético Paranaense (é o que dizem), andarilho, vampiro, leitor de Homero, completamente anti-imprensa ao ponto de boa parte de nós, curitibanos, o conhecermos apenas por fotografias tiradas contra sua vontade. Como escritor, segundo a crítica, Dalton é, junto com Rubem Fonseca, o mais representativo contista brasileiro da atualidade. Na minha opinião é o melhor, sozinho.

Como curitibano, é uma das representações vivas e mais sinceras da cidade. A união dos dois (escritor genial e curitibano típico) gera um universo de homens e mulheres, crianças e jovens curitibanos de sotaque Leite Quente pesado, de cachecol enrolado e nariz vermelho a andarem apressados na Praça Tiradentes. Ao mesmo tempo, seus contos mostram sentimentos universais e descritos com maestria e violência. Ler O Vampiro é como tomar uma pancada. Parece que estamos salvos em terreno conhecido, já que ele narra o cotidiano de todos nós, donas de casa, estudantes, profissionais liberais, adolescentes no primeiro amor, botequeiros incorrigíveis, jornalistas em depressão. Estão todos nos livros de Dalton prontos a, sem mais nem menos, revelarem uma face escondida e darem impulso a seus desejos. De repente, os personagens com os quais esbarramos todos os dias na rua, no ônibus, na lanchonete revelam-se tarados, loucos, bêbados, putas, santos, bobos ou malvados.

Em Cemitério de Elefantes, os contos de Dalton parecem falar de um conhecido nosso, primo daquele antigo vizinho. Os parágrafos de Cemitério... descrevem perfeitamente aquela história que conhecíamos mas que nunca contávamos direito.

"...Às festinhas de família, comparece o irmão Agenor, preferido do pai. José volta bêbado de madrugada. A mãe traz-lhe comida, ele se queixa, coçando a barba: O menino de ouro vem aí, Dão o carrão pra ele. O menino querido sai de carro. E o bichão aqui não tem nada. Depois sou eu que eu vivo à custa do Chiquinho.

-Respeite o pai, meu filho.

-Quem, o Chiquinho? Que se dê o respeito para as negas dele." ("O Caçula" - Cemitério de Elefantes)

"Bebeu no botequim: ali não havia homem. E cuspiu no soalho. Ai de quem protestou...Invadiu a casa do velho Felipe. Derrubou cadeira, bradava nome feio contra a sogra. Aos gritos pulava com a faca na mão. Discutiu como velho, tirou o paletó para brigar. Conseguiu Felipe que lhe entregasse a garrafa. Miguel estranhou a sogra e lhe passou uma rasteira, sentada no chão com as pernas de fora.

Felipe acudiu a velha, que gemia muito. Com a machadinha de picar lenha, Miguel desferiu três golpes que foram desviados . O sogro alcançou a garrafa e o derrubou com uma pancada na cabeça. Partiu-se o vidro e gritou o velho:

-Acertei uma boa...

Ergueram-se as duas mulheres. Era pequeno e magrinho, só quando bebia perigoso e muito ligeiro.

Amparado, Miguel caminhou até o quarto. Ainda se voltou para resmungar palavrões contra o sogro. Na cama balbuciou alguns nomes. Foi se arruinando ao ponto de perder a fala. De madrugada saiu-lhe na boca uma espuma branca. Pela manhã, conduzido ao hospital, morria sem conhecer a mulher que lhe sustentava a cabeça no colo. Quando o desceram da carroça ficou um pouco de sangue no vestido amarelo de Elira." ("Questão de Família" - Cemitério de Elefantes)

"O desgosto do velho Tobias é o filho: a medonha carinha vermelha de mongolóide.

- É tarado - desculpa-se e corrige - Doente de nascença.

- Um bicho em criança, andava de quatro, a língua de fora; aos pulos subia na árvore com a agilidade de mico. Amarrado com os cachorros no fundo do quintal. Escapando, arrastava a coleira pela rua - uma correria entre as crianças. Cabeça bem pequena, nariz purpurino, um guincho selvagem. Aos vinte anos, engolia as palavras - a língua uma ostra que não engolia.

- A omba oou...

- A pomba voou. Mais que as surras de correia do pai, domesticava-o a paciência amorosa de Dona Zica. No sábado apara-lhe as unhas e dá um cigarrinho para que aceite o barbeiro; inquieto na cadeira , três talhos no pescoço atarracado." ("Beto" - Cemitério de Elefantes)

Na próxima coluna volto a falar de Dalton e comento seu novo livro, Pico na Veia.

Gente Boa da Melhor Qualidade

Certo. Eu também vou ao James (bar alternativo aqui de Curitiba), tomo Carlsberg e entro na catarse coletiva quando toca Smiths, Pulp e Pavement. Mas ver o Gente Boa da Melhor Qualidade é ter certeza de que você está no Brasil e nasceu brasileiro. Tocando clássicos do samba como Cartola, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva e Ataulfo Alves eles colocam todo mundo para dançar. Musica de uma época de ouro, sem cabecismo, sem discurseira. Samba de verdade e, por mais estranho que isso possa parecer, pop ao extremo. Prova de que dá para brincar de Manchester em um dia e sambar bêbado no outro sem problema nenhum. Seja no frio de verdade aqui de Curitiba, seja no calor bem brasileiro.

Jamil Snege morreu na sexta-feira em Curitiba, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Minha última coluna foi dedicada a um livro dele, Como Tornar-se Invisível de Curitiba. A de hoje vai em sua memória.

 
Henry Chinaski é jornalista bebum e, quando está sóbrio, envia lá de Curitiba suas matérias para o ABACAXI ATÔMICO. E-mail: chinaski@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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