|
Cemitério
de Elefantes
Dalton Trevisan
Posso
parecer óbvio, mas antes de escrever de Cemitério de Elefantes
preciso escrever do autor, Dalton Trevisan. Posso parecer repetitivo
para quem já o conhece. É um risco que tenho de correr.
Dalton
é curitibano, escritor, torcedor do Atlético Paranaense (é o que
dizem), andarilho, vampiro, leitor de Homero, completamente anti-imprensa
ao ponto de boa parte de nós, curitibanos, o conhecermos apenas
por fotografias tiradas contra sua vontade. Como escritor, segundo
a crítica, Dalton é, junto com Rubem Fonseca, o mais representativo
contista brasileiro da atualidade. Na minha opinião é o melhor,
sozinho.
Como
curitibano, é uma das representações vivas e mais sinceras da cidade.
A união dos dois (escritor genial e curitibano típico) gera um universo
de homens e mulheres, crianças e jovens curitibanos de sotaque Leite
Quente pesado, de cachecol enrolado e nariz vermelho a andarem apressados
na Praça Tiradentes. Ao mesmo tempo, seus contos mostram sentimentos
universais e descritos com maestria e violência. Ler O Vampiro
é como tomar uma pancada. Parece que estamos salvos em terreno conhecido,
já que ele narra o cotidiano de todos nós, donas de casa, estudantes,
profissionais liberais, adolescentes no primeiro amor, botequeiros
incorrigíveis, jornalistas em depressão. Estão todos nos livros
de Dalton prontos a, sem mais nem menos, revelarem uma face escondida
e darem impulso a seus desejos. De repente, os personagens com os
quais esbarramos todos os dias na rua, no ônibus, na lanchonete
revelam-se tarados, loucos, bêbados, putas, santos, bobos ou malvados.
Em
Cemitério de Elefantes, os contos de Dalton parecem falar
de um conhecido nosso, primo daquele antigo vizinho. Os parágrafos
de Cemitério... descrevem perfeitamente aquela história que
conhecíamos mas que nunca contávamos direito.
"...Às
festinhas de família, comparece o irmão Agenor, preferido do pai.
José volta bêbado de madrugada. A mãe traz-lhe comida, ele se queixa,
coçando a barba: O menino de ouro vem aí, Dão o carrão pra ele.
O menino querido sai de carro. E o bichão aqui não tem nada. Depois
sou eu que eu vivo à custa do Chiquinho.
-Respeite
o pai, meu filho.
-Quem,
o Chiquinho? Que se dê o respeito para as negas dele." ("O
Caçula" - Cemitério de Elefantes)

"Bebeu
no botequim: ali não havia homem. E cuspiu no soalho. Ai de quem
protestou...Invadiu a casa do velho Felipe. Derrubou cadeira, bradava
nome feio contra a sogra. Aos gritos pulava com a faca na mão. Discutiu
como velho, tirou o paletó para brigar. Conseguiu Felipe que lhe
entregasse a garrafa. Miguel estranhou a sogra e lhe passou uma
rasteira, sentada no chão com as pernas de fora.
Felipe
acudiu a velha, que gemia muito. Com a machadinha de picar lenha,
Miguel desferiu três golpes que foram desviados . O sogro alcançou
a garrafa e o derrubou com uma pancada na cabeça. Partiu-se o vidro
e gritou o velho:
-Acertei
uma boa...
Ergueram-se
as duas mulheres. Era pequeno e magrinho, só quando bebia perigoso
e muito ligeiro.
Amparado,
Miguel caminhou até o quarto. Ainda se voltou para resmungar palavrões
contra o sogro. Na cama balbuciou alguns nomes. Foi se arruinando
ao ponto de perder a fala. De madrugada saiu-lhe na boca uma espuma
branca. Pela manhã, conduzido ao hospital, morria sem conhecer a
mulher que lhe sustentava a cabeça no colo. Quando o desceram da
carroça ficou um pouco de sangue no vestido amarelo de Elira." ("Questão
de Família" - Cemitério de Elefantes)

"O
desgosto do velho Tobias é o filho: a medonha carinha vermelha de
mongolóide.
- É
tarado - desculpa-se e corrige - Doente de nascença.
- Um
bicho em criança, andava de quatro, a língua de fora; aos pulos
subia na árvore com a agilidade de mico. Amarrado com os cachorros
no fundo do quintal. Escapando, arrastava a coleira pela rua - uma
correria entre as crianças. Cabeça bem pequena, nariz purpurino,
um guincho selvagem. Aos vinte anos, engolia as palavras - a língua
uma ostra que não engolia.
- A
omba oou...
- A
pomba voou. Mais que as surras de correia do pai, domesticava-o
a paciência amorosa de Dona Zica. No sábado apara-lhe as unhas e
dá um cigarrinho para que aceite o barbeiro; inquieto na cadeira
, três talhos no pescoço atarracado." ("Beto"
- Cemitério de Elefantes)
Na
próxima coluna volto a falar de Dalton e comento seu novo livro,
Pico na Veia.

Gente
Boa da Melhor Qualidade
Certo.
Eu também vou ao James (bar alternativo aqui de Curitiba), tomo
Carlsberg e entro na catarse coletiva quando toca Smiths, Pulp e
Pavement. Mas ver o Gente Boa da Melhor Qualidade é ter certeza
de que você está no Brasil e nasceu brasileiro. Tocando clássicos
do samba como Cartola, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva
e Ataulfo Alves eles colocam todo mundo para dançar. Musica de uma
época de ouro, sem cabecismo, sem discurseira. Samba de verdade
e, por mais estranho que isso possa parecer, pop ao extremo. Prova
de que dá para brincar de Manchester em um dia e sambar bêbado no
outro sem problema nenhum. Seja no frio de verdade aqui de Curitiba,
seja no calor bem brasileiro.

Jamil
Snege morreu na sexta-feira em Curitiba, vítima de uma parada cardiorrespiratória.
Minha última coluna foi dedicada a um
livro dele, Como Tornar-se Invisível de Curitiba. A de hoje
vai em sua memória.
|