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Beagá, 12 de maio de 2003 d.C.
 
Invisível em Curitiba
Por Henry Chinaski
 

Como Tornar-se Invisível em Curitiba
Jamil Snege

O aniversário de Curitiba já se foi, mas não tem problema. Vou comentar aqui neste espaço alguns livros que tratam da cidade. A semana que passou me fez conviver durante alguns dias com um grupo de jornalistas e estudantes vindos de vários cantos do Brasil. As impressões anteriores que eles tinham da cidade e mesmo as que eles tiraram aqui são muito engraçadas. Nada anormal, já que mesmo para quem vive aqui, muito de Curitiba é misterioso e por isso mesmo literário.

Inauguro o espaço com Como Tornar-se Invisível em Curitiba, de Jamil Snege. Uma escolha proposital, já que Snege é um dos melhores escritores (senão o melhor) a descrever Curitiba depois de Dalton Trevisan. Em Como Tornar-se Invisível em Curitiba ele faz uma grande descrição de Curitiba e dos curitibanos. Não do jeito que pensam muitos neo-escritores da Universidade Federal. Contar Curitiba não significa contar do boteco que você bebe. Nenhum leitor - seja ele curitibano, paulista ou mineiro - está interessado em aventuras específicas de mais um bêbado metido a poeta. Contar Curitiba não é simplesmente colocar a cidade como pano de fundo de um enredo que só interessa a você e meia dúzia de amigos. Escrever de Curitiba, assim como escrever de outras cidades, é fazer com que qualquer um que mal saiba onde fica o Paraná consiga ler sobre a Rua XV e entender perfeitamente seu universo de taradinhos e polaquinhas. Snege sabe fazer isso com maestria. Em seu livro está retratada a insegurança curitibana, a autofagia, a sexualidade contida, os mitos da cidade européia e tudo mais. Segue um trecho da crônica A Arte de Tocar Piano de Borracha:

"A historinha retrata com alguma maldade a nossa velha Curitiba de guerra. Um piano de borracha à sombra dos pinheirais. Se você quiser tocar, pode. Mas não vá exigir que alguém escute. Ninguém viu, ninguém ouviu e quem ouviu fingiu que não viu... que estranha surdez é essa que congela a sensibilidade da nossa velhinha de 300 e tantos anos? Vocês conhecem outra, de igual porte e mesma faixa etária, que se comporta assim... Temos de conviver com a dissimulada vovó de ouvidos moucos, um cobertor sobre os joelhos, a dormitar ao lado de um fogão a lenha apagado. Vovó-ogre, inofensiva apenas na aparência. O grande Octavio Paz, que jamais veio a Curitiba, parece tê-la pressentido quando encerra assim um de seus poemas. 'Falo sobre a cidade, pastora de séculos, mãe que nos engendra e nos devora, nos inventa e nos esquece.'"

Descobri que tenho leitores aqui no Abacaxi. Em Curitiba, um dos meus textos ("Boicotes e bandeiras") gerou alguma repercussão. Alguns elogiaram, outros disseram que fui radical e teve gente dizendo que parecia um velho escrevendo. Acabei recebendo um e-mail também. A abacaxinauta Dandara fez uma observação bastante pertinente. Ela pergunta se a discriminalização da maconha não seria um caminho para o fim da violência. O questionamento é inteligente e a discussão é imensa. Afinal, tratar como bandido quem fuma maconha é burrice. Por outro lado a relação droga, dinheiro, armas e poder paralelo continua preservada. Sugestões para essa coluna e para o Ministério da Justiça.

O que estou escutando

Turn on the Bright Lights
Interpol

Esse disco merecia uma coluna inteira só para ele. A grande mídia parece ter gostado e todo mundo comentou o álbum. Por isso mesmo não preciso dizer que ouvir os rapazes novaiorquinos é identificar na primeira audição Smiths, Joy Division e Echo. Nova York 2003 como se fosse Manchester no começo da década de 80. O pessoal anti-hype, uma categoria de críticos que cada vez mais aumenta, aproveitou para falar mal. Esqueça: Interpol é uma preciosidade e, do chamado novo rock, é a única, junto do Strokes e White Stripes, a valer realmente a pena. Aqui, amores desesperados, paixões acabadas e angústia sem fim soam sinceros, urgentes. Bem ao contrário do sofrimento light pop de Travis e Coldplay.

 
Henry Chinaski é jornalista bebum e, quando está sóbrio, envia lá de Curitiba suas matérias para o ABACAXI ATÔMICO. E-mail: chinaski@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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