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Como
Tornar-se Invisível em Curitiba
Jamil Snege
O aniversário
de Curitiba já se foi, mas não tem problema. Vou comentar aqui neste
espaço alguns livros que tratam da cidade. A semana que passou me
fez conviver durante alguns dias com um grupo de jornalistas e estudantes
vindos de vários cantos do Brasil. As impressões anteriores que
eles tinham da cidade e mesmo as que eles tiraram aqui são muito
engraçadas. Nada anormal, já que mesmo para quem vive aqui, muito
de Curitiba é misterioso e por isso mesmo literário.
Inauguro
o espaço com Como Tornar-se Invisível em Curitiba, de Jamil
Snege. Uma escolha proposital, já que Snege é um dos melhores escritores
(senão o melhor) a descrever Curitiba depois de Dalton Trevisan.
Em Como Tornar-se Invisível em Curitiba ele faz uma grande
descrição de Curitiba e dos curitibanos. Não do jeito que pensam
muitos neo-escritores da Universidade Federal. Contar Curitiba não
significa contar do boteco que você bebe. Nenhum leitor - seja ele
curitibano, paulista ou mineiro - está interessado em aventuras
específicas de mais um bêbado metido a poeta. Contar Curitiba não
é simplesmente colocar a cidade como pano de fundo de um enredo
que só interessa a você e meia dúzia de amigos. Escrever de Curitiba,
assim como escrever de outras cidades, é fazer com que qualquer
um que mal saiba onde fica o Paraná consiga ler sobre a Rua XV e
entender perfeitamente seu universo de taradinhos e polaquinhas.
Snege sabe fazer isso com maestria. Em seu livro está retratada
a insegurança curitibana, a autofagia, a sexualidade contida, os
mitos da cidade européia e tudo mais. Segue um trecho da crônica
A Arte de Tocar Piano de Borracha:
"A
historinha retrata com alguma maldade a nossa velha Curitiba de
guerra. Um piano de borracha à sombra dos pinheirais. Se você quiser
tocar, pode. Mas não vá exigir que alguém escute. Ninguém viu, ninguém
ouviu e quem ouviu fingiu que não viu... que estranha surdez é essa
que congela a sensibilidade da nossa velhinha de 300 e tantos anos?
Vocês conhecem outra, de igual porte e mesma faixa etária, que se
comporta assim... Temos de conviver com a dissimulada vovó de ouvidos
moucos, um cobertor sobre os joelhos, a dormitar ao lado de um fogão
a lenha apagado. Vovó-ogre, inofensiva apenas na aparência. O grande
Octavio Paz, que jamais veio a Curitiba, parece tê-la pressentido
quando encerra assim um de seus poemas. 'Falo sobre a cidade, pastora
de séculos, mãe que nos engendra e nos devora, nos inventa e nos
esquece.'"

Descobri
que tenho leitores aqui no Abacaxi. Em Curitiba, um dos meus
textos ("Boicotes e bandeiras") gerou
alguma repercussão. Alguns elogiaram, outros disseram que fui radical
e teve gente dizendo que parecia um velho escrevendo. Acabei recebendo
um e-mail também. A abacaxinauta Dandara fez uma observação bastante
pertinente. Ela pergunta se a discriminalização da maconha não seria
um caminho para o fim da violência. O questionamento é inteligente
e a discussão é imensa. Afinal, tratar como bandido quem fuma maconha
é burrice. Por outro lado a relação droga, dinheiro, armas e poder
paralelo continua preservada. Sugestões para essa coluna e para
o Ministério da Justiça.
O
que estou escutando

Turn
on the Bright Lights
Interpol
Esse
disco merecia uma coluna inteira só para ele. A grande mídia parece
ter gostado e todo mundo comentou o álbum. Por isso mesmo não preciso
dizer que ouvir os rapazes novaiorquinos é identificar na primeira
audição Smiths, Joy Division e Echo. Nova York 2003 como se fosse
Manchester no começo da década de 80. O pessoal anti-hype, uma categoria
de críticos que cada vez mais aumenta, aproveitou para falar mal.
Esqueça: Interpol é uma preciosidade e, do chamado novo rock, é
a única, junto do Strokes e White Stripes, a valer realmente a pena.
Aqui, amores desesperados, paixões acabadas e angústia sem fim soam
sinceros, urgentes. Bem ao contrário do sofrimento light pop de
Travis e Coldplay.
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