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Beagá, 14 de abril de 2003 d.C.
 
Boicotes e bandeiras
Por Henry Chinaski
 

Compreender a lógica dos movimentos pacifistas, especialmente ativos após o início da Guerra no Iraque, é tarefa bastante complicada. No Brasil, o tradicional faça amor não faça guerra ganhou especial conotação de farra, tamanha presença de estudantes pouco interessados em assistir aulas. No Rio, São Paulo e até em Curitiba centenas de secundaristas querendo beber e aparecer nas fotografias se juntam a hippies anacrônicos e aos tradicionais militantes de esquerda. Líderes estudantis prontos a distribuir seus panfletos enaltecendo o líder Saddam e sua resistência, a queimar mais uma bandeira norte-americana e incentivar boicotes a Coca-Cola e ao Mac Donald's, culpados, como sabemos, pelo sofrimento dos civis iraquianos.

O boicote, aliás, é prática mundial da juventude de esquerda e contagia até os mais novos intelectuais de plantão, como a dublê de jornalista Danuza Leão. A autora de Na Sala com Danuza, manual de etiqueta para a classe média, resolveu virar anti-yankee. Não é a única. Muita gente letrada parou de comer no famigerado Mac Donald's como forma de protesto.

Ocupando bem menos espaço do noticiário, mas bem mais perto de nós, o Rio de Janeiro explode. Cidadãos que voltam do trabalho são carbonizados dentro de carros, policiais são mortos exatamente por serem policiais, shoppings são alvejados de balas e granadas são atiradas em faculdades. O governo do tráfico parece cada vez mais governo de verdade. Os cariocas falam abertamente em guerra civil e a comparação com o Iraque é inevitável. O Rio é bem pior.

De quando em quando, a situação chega a tal ponto que os movimentos pela paz entram em ação. Os pacifistas aí são um pouco diferentes: sem bandeiras americanas queimadas e sem centenas de jovens alcoolizados. A faixa etária é mais alta e uns bons velhinhos marcam presença. Alguns dos pacifistas de carteirinha, aqueles do "não como no Mac Donald's", estão lá, bem mais comportados. As caminhadas pela paz na cidade reclamam das conseqüências do problema. Em um mundo de gritaria, algumas esparsas vozes dão conta da constatação mais que óbvia: só protesto não adianta.

O crime organizado, o poder paralelo, é de funcionamento simples e eficiente. O rapaz classe média sobe o morro para comprar maconha com o pequeno traficante, que compra do maior, que compra do grande que está ligado aos chefões do morro que obedecem aos Beira-Mares da vida. Estes, mesmo dentro das cadeias, matam juízes, desafiam autoridades e mandam botar fogo na cidade quando provocados. Aquele mesmo rapaz que subiu o morro para comprar drogas morre com a namorada na linha amarela. De dentro da cadeia, o chefe mandou aterrorizar. Simples assim. E todo mundo entende quando vê em Cidade de Deus. O tráfico gera dinheiro, muito dinheiro, que permite as quadrilhas se armarem, passarem por cima da polícia e decidirem se o Rio vai estar em paz ou não. Mas boicotar a maconha... Ah! Isso ninguém faz. Não tomo Coca, mas meu baseadinho... A lógica serve para o Rio, São Paulo, Curitiba e outras capitais, que cada vez mais sofrem com o tráfico de drogas, enquanto os pacifistas gritam palavras de ordem em mais um Mac Donald's e atiram pedras na embaixada americana.

Os movimentos pela paz e contra a guerra, em sua imensa bondade, também choram as vítimas iraquianas e, num raciocínio bastante esperto, pedem a resistência do povo iraquiano e de seu líder contra os americanos e ingleses. Certo. Eles que estão na frente dos tanques e marines, tomando bomba na cabeça, que resistam. Nós, que estamos aqui, aplaudimos os heróis. Pensando assim, os civis que recepcionaram as tropas da coalizão e faziam questão de destruir tudo que lembrasse o regime deposto são traidores de Saddam. Fracos, que se renderam e não lutaram até o fim contra o monstro imperialista.

Em tempo: um dia de batalha tribal no Congo deixou cerca de mil mortos e um sem número de feridos, segundo agências internacionais. O conflito já teria matado mais de 50 mil pessoas e promovido o deslocamento e fuga de outras 500 mil, que estão fadadas a morrer nos campos de refugiados de disenteria, aids, ebola e toda sorte de doenças. O assassinato de centenas é um crime. O assassinato de um só também o é. Mas em tempos de contagem de corpos, a matemática é desigual. Entre mil e mil e quinhentos civis morreram no Iraque durante vinte dias de guerra. Um só dia de briga do Congo fez o mesmo estrago. Isso sem falar de Ruanda e Uganda, onde o extermínio não é menor. ONU, chefes de estado e aí se incluem Bush, Blair, Chirac, Putin, Schröder e Lula e até a maioria da imprensa não costumam comentar o assunto. Sem mídia e sem bandeiras pra queimar, pedir paz no Congo não tem a mínima graça.

 
Henry Chinaski é jornalista bebum e, quando está sóbrio, envia lá de Curitiba suas matérias para o ABACAXI ATÔMICO. E-mail: chinaski@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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