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Primeiramente
queria parabenizar o site de vocês. Sobretudo por ser um site crítico
de argumentos quase sempre sólidos e embasados. Tenho apenas uma
dúvida, gostaria de saber quais a bandas que vocês gostam, porque
vejo crítica de A a Z. Sabe, meter o pau em Charlie Brown Jr, Jota
Quest, LS Jack é muito normal e corriqueiro mas em Renato Russo
é a primeira vez em minha vida que vejo alguém fazer. Respeito muito
as idéias de cada um e cada um gosta e fala o que quer sobre o que
quiser, mas tem me aguçado a curiosidade de lhes fazer uma pergunta.
Se vocês estivessem gravando um cd, pra curtir com namorada(o) ou
qualquer coisa do tipo... quais as músicas que fariam parte da coletânea?
Abraços,
Rafael
Ae
galera do abacaxi atômico, tudo jóia? Bem, estou mandando esse e-mail
com um certo sentimento de pessimismo. Pessimismo que aumenta ainda
mais quando leio críticas q vocês fazem à maioria, senão todas as
bandas, que estão por aí, críticas muitas vezes inconstantes, o
que pra um era bom, pra outro era lixo, mas sei lá, quem sou eu
pra julgar vocês. Eu queria mesmo era q vocês me respondessem, como
sendo tão críticos quanto vocês são, poderemos ter uma banda que
seja boa de verdade,pq vcs parecem colocar defeito em tudo, se toca
na mtv já é porcaria, se é underground, é pq na verdade está com
interesses mercadológicos, existe alguma coisa q vcs gostem?Quer
dizer, como nós descobriremos algum dia sendo tão críticos com as
bandas, q uma banda com um patamar superior, cito zeppelin e beatles,
vai estar no caminho certo, como vamos perceber isso?. Hoje em dia
infelizmente, a porra da música de fato virou indústria, e isso
é um pouco triste pra quem gosta de músicos de verdade, q tem tesão
com aquilo q fazem, q não parecem funcionários públicos em fim de
carreira, nada contra. Enfim caras, muitas perguntas, acho q exagerei
um pouco, só queria dizer q o site apesar de ser meio (ou totalmente)
crítico, é muito bom, parabéns pela volta. Espero respostas.
Anderson
Nunca
fui de ler as opiniões dos leitores do Abacaxi. Nem quando eu mesmo
era um leitor; nem quando passei a colaborar com o site. Das poucas
vezes que li, me deparei com críticas adolescentes, bobinhas, sem
nenhum argumento sólido contra as críticas dos colunistas. Nenhuma
foi dirigida a mim, acho eu, e se recebesse um e-mail daqueles tantos
que o Jako recebeu eu não conseguiria ser tão educado quanto o colega
foi. E olha que nessa época o Abacaxi era, vamos assim dizer, um
site porra loca. Sem incentivo e totalmente independente, poderíamos
mandar o leitor ir até a esquina ver se a mãe não estava lá. Não
devíamos nada pra ninguém e o slogan "o que tem de ser dito está
aqui" resumia as coisas.
Pois
bem, a situação mudou um pouco. Continuamos falando mal de quem
a gente quer, como bem entendemos. Eu mesmo já discordei de algumas
lixeiras, discordei de críticas e opiniões e, provavelmente, os
outros colunistas não devem ter gostado de coisas que escrevi. Sem
problemas. A liberdade aqui impera. A diferença está na relação
com os leitores. Queiramos ou não, o Abacaxi agora recebe incentivo
cultural. Ganhamos grana do governo minero e, portanto, é bem capaz
que o cara que mande um e-mail nos esculhambando esteja pagando
nosso incentivo. Portanto, não podemos dizer pro cara ir pastar.
Independente de o rapaz ser mineiro ou não. A partir de agora, esse
site tem função de mostrar certas coisas no mundo musical e desmistificar
outras. Teremos assim que agüentar e responder os leitores bravinhos.
O Cannabis,
nosso editor, nos passou esses dois mails que, por sinal, não são
de leitores bravinhos. Ambos são até bem educados e fazem questionamentos
inteligentes que darão corpo à coluna da semana. Há tempos eu vinha
querendo escrever sobre o suposto "contra tudo do site". Respondo
agora as perguntas de Anderson, de São José (SC), e Rafael, de Recife...
Falar
de Jota Quest e LS Jack é normal. Mas nunca vi ninguém falar mal
do Renato Russo... Provavelmente Rafael refere-se ao texto
do Indiegesto e pergunta o que nós escutaríamos com a namorada.
Não sei se alguém respondeu para o Rafael, faço minha parte. Eu
já gostei muito, muito de Legião Urbana e via nas letras do Renato
Russo um misto de profético e poético, no melhor estilo voz de sua
geração, que não era a minha, afinal de contas. Jovem da década
de 90 com a cabeça ainda na de 80, as letras caíam como uma luva
para certos conflitos da idade.
Pois
bem, do Legião eu fui pro Nirvana, do Nirvana pro Pixies e pro rock
inglês e descobri uma dezena de coisas gringas que pareciam estar
anos luz à frente das melodias, das letras, do clima e tudo no rock
brazuca e mesmo da Legião. Naturalmente, o gosto se inverteu e eu
mesmo passei a ter ojeriza de rodinhas de violão onde invariavelmente
apareciam "Pais e Filhos" e "Faroeste Caboclo". Minha resposta para
os fãs de Renato era direta. O "poeta" chupava Smiths e Joy Division
desavergonhadamente e ponto final. Cantar em português era crime.
Opinião essa que um amigo meu classificou de miopia musical, com
toda razão.
O jogo
duro com a banda de Renato durou até o momento em que eu me peguei
vendo uma fita de um ensaio de minha primeira banda. Um projeto
de metal-grunge de adolescentes espinhentos que fazia referência
aos marsupiais e acabou chamada de Marsúpio. Quatro caras aprendendo
a tocar e a beber como nossos ídolos cabeludos. Em meio à pancadaria
metaleira, a única coisa mais leve ali era o rock nacional, especialmente
as músicas da Legião. O saudosismo é uma merda, mas me peguei arrepiado
vendo nossa interpretação punk de "Que País é Este?" e "Ainda é
Cedo", da qual o Indiegesto falou. Eu, rapaz careca de calça rasgada,
ainda prestando vestibular pra jornalismo no começo de 96, tocando
baixo em um misto de atitude punk, tesão e inocência de adolescente
. Os três acordes de "Que País e Este?" saíam nervosos, sujos, sinceramente
mal tocados. A mesma vontade seria impossível de ser ver com o Jota
Quest e com o LS Jack e com as bandas que já davam as caras como
Raimundos, Skank e afins. "Terceiro mundo se for / Piada no exterior.."
fluía com uma sinceridade devastadora. Inocente sim, afinal que
seria do rock se não fosse a inocência. A lembrança me fez até procurar
no fundo do armário meus cds da Legião.
Hoje
é certo, eles perderam muito da força e do sentido pra mim. Do Descobrimento
do Brasil pra depois, tudo da banda lembra grupo de auto-ajuda
para homossexuais. Mas os cincos primeiros discos têm músicas fudidamente
ligadas às cagadas de minha puberdade e adolescência. Dezenas de
histórias de amores, desamores, começos e finais diferentes e iguais
aos de todo mundo. Micheles, Maíras, Anas, Fernandas, meninas do
segundo grau, do cursinho e da minha rua. "Daniel na Cova dos Leões",
"Eu Era um Lobisomem Juvenil", "Andréa Doria", "Ainda é Cedo', "A
Montanha Mágica" e "Que País é Este?", como música de protesto.
Renato ainda diz muito, mesmo inocente, adolescente e até infantilmente
rebelde. Não é culpa dele que ninguém tenha mais nada para dizer
no rock brasileiro. Até a MPB letrada passou a gravar o rapaz, enquanto
o rock virou coisa de macho. Depois daquela fita, eu não ataco mais
os fãs de Legião. Afinal, tudo começou com o Renato e uma entrevista
dele despertou minha curiosidade pra nomes como Jesus And Mary Chain
e Smiths, que ele tanto falava. A lembrança ficou com Renato. O
tesão do rock agora tem vários nomes, de várias bandas. Mas ele
sempre, sempre pode cantar junto:
And
the way I feel tonight
I could die and I wouldn't mind
And there's something going on inside
Makes you wanna feel Makes you wanna try...
Obs:
não poderia deixar de responder essa pergunta do Rafael. Minhas
cinco músicas preferidas para se escutar com a namorada. Ou para
se escutar a dois, no caso de não se ter namorada:
Mogway
- "Tame me Somewhere Nice"
Morrisey - "Every day is like Sunday"
Nirvana - "Dumb"
Placebo - "Without You I Am Nothing"
Pixies- "Hey".
Vou
colocar seis para não dar uma de Rob Flemming:
Interpol
- "Say Hello To The Angels".
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