Um
senhor festival
Por
Henry Chinaski
Primeiro:
o Curitiba Pop Festival é um tesão. Trazer o Pixies
para seu único show na América Latina não é
para qualquer um. E, descontado o estresse da venda de ingressos,
a organização foi exemplar e a escolha das bandas
bem razoável. O CPF também manteve aquele clima de
festão indie, com lojinhas vendendo cds, demos, camisetas,
livros e tudo mais. Segundo: o Breeders foi um bom aperitivo. O
Pixies foi um tesão. Vamos lá, no banda a banda...
Primeiro
Dia
(Obviamente só passa falar das bandas que eu vi...)
Heel
On Wheels
Gostei. Lembra algo de Sonic Youth. O vocalista mandou bem e a baixista
podia ter aparecido mais. Canta bem a moça.
Teenage
Fanclub
Belo show. Os hits estavam lá, “Near You”, “About
You”, “fofos”, como disse o Caboclo Alaranjado.
Não tocaram “Alcoholiday” (Alaranjado me corrija
se eu estiver errado), a primeira música que eu escutei do
Teenage e a que eu mais gosto. O Teenage é infinitamente
melhor que a maioria dos hypes tristonhos que andam surgindo.
Segundo
Dia
Pelebrói
Não Sei
Um puta show. Punk Rock ramônico com sotaque gaúcho
e coração curitibano.
Ludov
Legalzinho, mas por um momento achei que fosse o Monokini, que tocou
no festival passado.
Relespública
Complicado falar do Reles. Show para consagrar. “Garoa e Solidão”,
“Notícias” e “Marcianos”. Os sucessores
do Ira!
Mombojó
Eu estava na fila da comida durante o show, mas não me pareceu
ruim, mas também não me pareceu muito bom. Talvez
num lugar menor, sem tensão pré-Pixies dê certo.
Wander
Wildner, Flu, Frank Jorge
Afudê. O melhor nacional do festival e só não
foi melhor que o Pixies porque Wander Wildner não canta “Where
is my Mind?”.
Pins
Ups
Quando eu ainda era estudante de jornalismo, começando a
escutar sons alternativos, eu me lembro de um Pins Ups bacaninha
e de uma mistura legal de vocais de um rapaz e de uma garota. Pois
bem, o show deles não lembrou em nada esse Pins Ups. O vocalista
é um dos mais chatos que eu já vi em toda minha vida.
Pixies
Eles não deram nem oi e nem tchauzinho. Francis Black, cínico,
esquizofrênico, indiferente e por vezes insano, liderava a
banda no palco com olhares curtos, cochiços suspeitos e com
os mesmos gritos que estão nos discos. Vários dessses
gritinhos estavam lá em “Bone Machine”, música
que abriu o show. E aí meu amigo, foda-se que ele não
conversou e nem disse que caipirinha era uma delícia. “You're
so pretty when you're unfaithful to me. You're so pretty when you're
unfaithful to me”, berra Francis Black com a marcação
de baixo mais simples e rock and roll de todos os tempos. Kim Deal,
aliás, merece um capítulo à parte. A baixista
de voz infantil sorri inocente como uma moça caipira assustada
com uma pedreira tomada de fãs. Foi por causa dela que os
Pixies vieram para Curitiba e só por esse motivo ela já
ocupa um lugar de destaque na minha galeria de heroínas do
rock. Fumando seus cigarros, ela toca “Gigantic” e “Debaser”
no bis. O jogo de vozes - angelical de Deal e ensandecida de Black
- é exatamente aquela que me fez ouvir os Pixies e que deve
ter feito todo mundo ouvir os Pixies. Em “Debaser” o
esporro de guitarras me deixa com aquela vontade de sair dali e
montar uma banda. Pra fechar, ainda tem “Planet Sound”.
São 28 músicas em uma hora e meia. Os Pixies não
devem gravar mais nada e se juntaram para faturar uma grana a mais.
Mas, dos anos 90 para cá, devem existir umas três ou
quatro bandas que ainda conseguem fazer um show tão rock
and roll.

(Foto
de Théo Marques para o site O
Bule)
Frieza
ou pedantice?
Por Caboclo Alaranjado
Seis meses atrás eu tive um sonho bem vivo,
daqueles que você acorda lembrando de cada detalhe. Através
de uma descida, eu chegava num lugar grande e aberto. O cenário
era bonito. Um paredão de pedras, um céu estrelado,
um palco enorme, muita luz vinda de lá e os Pixies tocando.
Era um show grandioso, daqueles que as gravadoras até mandam
filmar pra fazer um DVD ao vivo. Gente pra caramba. Laser e pirotecnia.
Músicas sensacionais. O riff da introdução
de “Where is My Mind” ecoando no meu subconsciente e
arrepiando os pêlos do meu braço como se eu estivesse
de fato ouvindo aquela canção.
Premonição ou não, aquelas
imagens puderam ser comprovadas por mim - ou não - duas semanas
atrás. Primeiro - Pixies no Brasil. Segundo - Pedreira Paulo
Leminski, o lugar aberto, grande, que começa com uma descida
e tem um paredão de pedras embelezando o ambiente. A única
coisa que não me foi alertada pelo sonho foi o frio. Usando
o meu chutômetro térmico, acredito que estava fazendo
uns 11 ou 12 graus.
As 11 e meia da noite de sábado, 8 de maio,
eu estava tão apreensivo quanto se fosse fazer uma prova
de vestibular em alguns minutos. Estava tremendo por dentro, de
frio e de nervoso. Por mais que todo o Curitiba Pop Festival até
então tivesse sido perfeito (Teenage Fanclub me emocionando
mais uma vez, Hell On Wheels como boa surpresa, ótimos shows
nacionais no segundo dia), AQUELE era o grande momento. À
minha vista, os ponteiros do relógio andavam no compasso
dos passos dos roadies que montavam o equipamento da banda no palco.
As luzes se apagam. A música mecânica
pára. O público grita eufórico. Lá vêm
Frank Black (desnecessário dizer que ele está bem
gordo), Kim Deal (cada vez mais de cara inchada), Joey Santiago
(talvez o mais jovial dos quatro) e David Lovering (envelhecido,
cabeludo e simpático). Êxtase, apesar de nenhum deles
dar sequer um “good night” ou ensaiar uma palavrinha
em português, no mais batido clichê de turnês
brasileiras. “Bone Machine” é a primeira música,
seguida por “Cactus”. O público está em
transe, mas para mim a hipnose é digna de mágico de
aniversário barato. Começa uma seqüência
de canções daquelas rapidinhas, do jeito que eu não
gosto dos Pixies. E a frieza cada vez maior, especialmente de Frank
Black, começa a me irritar. Em alguns intervalos entre músicas,
ele cochicha algo no ouvido de Kim Deal. Meu nascente sentimento
de desencanto me faz pensar que não é coisa boa que
ele fala.
Acabo dando uma segunda chance depois de três
músicas que me fariam esgoelar em condições
normais: “Monkey Gone To Heaven”, “Hey”
e “I Bleed”, todas do Doolittle, meu disco favorito.
Mas não bate aquela química que eu esperava. Mal acostumado
com a simpatia do Teenage Fanclub nos dois shows deles que vi, fui
cada vez mais me contaminando com a má impressão que
tive no início. A frieza dos Pixies, a meus olhos, foi se
transformando em pedantice das brabas. Os meus heróis de
roda de pogo viravam, aos poucos, bandidos mercenários, piratas
da música pop. Impossível não perceber que
eles estavam ali tão burocraticamente como uma prostituta
que se veste assim que o cliente goza.
Daí pra frente fui conduzido pela inércia
da euforia dos demais e também pelo momento histórico.
Por pior que fosse o show, eu tinha que ter alguma impressão
pra contar pra todo mundo depois. Afinal, eram os Pixies. E sabia
que ainda tinham êxtases em potencial por vir, pelo menos
quatro na minha expectativa. “Wave of Mutilation” foi
o primeiro. Até que deu pro gasto. “Here Comes Your
Man” foi nada além de brochante. Andamento mais lento,
o pouco tesão visível nas caras dos músicos
e o som nitidamente mais baixo. Foi como se tivessem metido a mão
no botão master de volume na mesa de som. Triste. Logo em
seguida, a música do meu sonho, “Where is My Mind”.
Penso que ali a noite poderia se salvar, mas me engano em poucos
segundos. A lentidão parece até preguiça. Dá
a impressão de nem ser a mesma música. Antes do compasso
final, Frank Black levanta o braço direito e balança
em adeus. É a última música e, em 1 hora e
meia, nenhum dos quatro fez uma saudação à
platéia, tirando o baterista David Lovering na hora em que
está indo para o camarim. Sinto-me aviltado, roubado, enganado,
afanado. Decepcionado.
Mas
ainda tinha bis. Ainda tinha “Debaser”, que foi cantada
à capela por dezenas de fanáticos na primeira fila.
Talvez no maior hit da carreira, os Pixies pudessem se salvar. Confesso
que nem tinha mais boa vontade para mudar de opinião. O resto
do público até que pode ter se empolgado e eu até
que pulei junto, mas juro que nas festas do Café com Arte
em Belém eu já pulei bem mais ao som de “Debaser”.
“Into the White” e “Planet of Sound” encerraram
a noite, que para mim ficou aquém da expectativa. Com muita
bondade, dou uma nota 7 para o show, mais pelo conjunto da obra
do que pelo que vi. O sonho de seis meses atrás tinha sido
bem mais emocionante. É por isso que às vezes é
melhor a gente continuar dormindo.
Site oficial:
www.curitibapopfestival.com.
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