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Escrever
sobre certas bandas é perigoso. Você corre o risco de parecer óbvio
demais para os fãs e inelegível para quem não conhece o grupo. Escrevo
do My Bloody Valentine e acho que o risco vale a pena. Se alguma
alma leitora desse espaço se dignar a procurar alguma coisa deles
na internet, para mim está de bom tamanho. Se eu parecer repetitivo
para os indies candidatos a Kevin Shields, paciência. Vamos nós.
O grupo
surgiu a partir de amigos entediados com o frio e com a chatinha
Dublin. O nome veio de um filme B e as primeiras gravações trazem
uma mistura de rock gótico e punk parecido com Cramps. É com a entrada
da guitarrista e vocalista Bilinda Butcher que o som do grupo se
define. Eles lançam o álbum Isn't Anything e causam um misto
de admiração e estranheza na mídia e no público, mas é em Loveless
que a banda atinge o auge. Vocais quase inaudíveis, guitarras sujas,
sujas e lentas, bateria e baixos climáticos lembrando por vezes
Cocteau Tiwns, Velvet e Jesus. A mistura produz climas soturnos,
introspectivos em verdadeiras muralhas de barulho. Loveless
é a afirmação de um som completamente inovador. A postura tímida-blasé
da banda origina o rótulo "shoegazer" (aquele que olha
para os próprios pés).O My Bloody ganha milhares de seguidores em
todo mundo e o estilo Kevin Shields de tocar torna-se referência
para centenas de bandas. Depois de Loveless, o grupo entra
em ostracismo e Shields contribui com algumas coisas no Primal Scream.
Os fãs falam em volta mas os boatos não se confirmam. A banda acaba,
mas o legado dos garotos de Dublin não.

"Only
Shallow": início pesado. Cartão de visitas de Kevin Shields que
abusa de distorção e alavanca. Primeira música de um disco que misturou
Jesus e Velvet e fez da mistura algo tão brilhante quanto os originais.
Coloque bem alto e provoque os ouvidos de seu irmão fã de hardcore
melódico.
"Loomer":
a guitarra inicial parece Sonic Youth fase Evol. Depois entra
o vocal característico de Blinda e os barulinhos de Shields.
"Touched":
56 segundos de estranhamento. Dá a impressão que saiu de algum disco
do Pink Floyd.
"To
Here Know When": uma das mais difíceis e anticomerciais. A muralha
de guitarras entra no seu ouvido e arranha seu cérebro. "Vire sua
cabeça e volte aqui quando souber".
"When
you Sleep": "When I look at you. Oh, I dont know what's (true).
Once in a while. And you make me laugh". Uma das melhores bases
de Kevin Shields. Uma das minhas preferidas. Dá pra dançar e, de
vez em quando, até toca nos bares alternativos aqui de Curitiba.
"I
Only Said": a primeira música que eu escutei do My Bloody. Até gostei
das guitarras, mas tive de perguntar por que a vocalista cantava
tão baixo. Hoje, é uma das minhas preferidas.
"Come
in Alone": Kevin Shields mostra porque é Kevin Shields. Introdução
típica do My Bloddy Valentine. Em um documentário do Eurochannel
sobre o Blur, Graham Cox, ex-guitarrista da banda, dizia ser um
purista indie que queria tocar guitarra como Kevin Shields. Essa
música explica porque o Blur ficou tão chato sem Graham.
"Sometimes":
balada única. Final arrepiante com camadas de guitarras, baixo distorcido
e o característico vocal sussurrado.
"Blow
a Wish": uma da melhores letras do disco. "Shoegazer"
até a medula. "When you (come down) blue. But I do, I do, I do.
Oh, I come back to the one who calls my name out. What you want?
Let me know that I'm alive. Then I go back to you. And then you
make (him go inside)".
"What
you want": mais agressão sonora. Tente contar quantas guitarras
tem na música. Tente adivinhar o que é guitarra, o que é backing.
"Soon":
para fechar o único, inovador e indispensável Loveless. O
único clipe que eu vi deles na MTV. Letra simples e linda. "Wake
up. Don't fear. I want to love you".
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