|
A FolhaTeen
da semana passada deu suas dicas para você se tornar um crítico
musical. Milhares de e-mails entopem a caixa postal do ABACAXI ATÔMICO
com a mesma dúvida: "Como? Oh Deus! Como me tornar o novo crítico
musical indie descolado?" Esqueça o "Escuta Aqui". Preparamos umas
dicas básicas que realmente vão te fazer chegar lá:
1)
Essencial: para ser um crítico de música não é preciso ouvir música.
Bobagem. Perda de tempo. A internet está cheia de gente que já fez
o serviço por você. Ler algumas resenhas é bem mais fácil que ouvir
discos. Decore o nome das bandas novas, escute o hit e mande bala.
Não dê bola pros grupos antigos em especial. Basta saber que Velvet
Undergound foi uma banda de um pessoal que usava óculos escuros
e que Jesus And Mary Chain não é uma seita religiosa. Faça uns elogios
e diga que influenciaram muita gente, mas que a música pop está
cheia de novidades e não dá pra perder tempo com velharia.
2)
Leia o Álvaro Pereira Júnior, o Lúcio Ribeiro e, no máximo, mais
um site cabeça a sua escolha. Basta. Eles lêem a NME pra
você. Se eles falaram das bandas é porque deve ser legal. Evite
os livros, principalmente clássicos e longos. Fuja dos russos, em
especial. Essa coisa de estilo é bobagem. Monte um blog e use os
termos paulistanos modernos do Lúcio Ribeiro mesmo que você more
na Paraíba.
3)
Engane no inglês. Como eu disse, o Lúcio Ribeiro já leu a NME
por você. Veja no máximo as figurinhas. Sempre tem uma foto da Mariah
Carey com pouca roupa.
4)
Você é o máximo. Nada, desde Paulo Francis, é tão contestador quanto
seu site, seu zine ou sua coluna no jornal. Quando for conversar
com amigos fora de moda, dispare um monte de nomes de bandas que
você conhece. Não precisa ter escutado não. Se não lembrar, invente
uma com nomes bacanas. Faça combinações do tipo: "Ah cara, o Kings
of a System e o SuperHot são tudo. Como você não conhece?". Se seu
amigo replicar com bandas que você nunca viu e nem ouviu mais gordas,
não desanime. Um "acho que eles precisam amadurecer o som" ou um
"ah não sei, acho que estão entrando num lance muito comercial"
pode resolver. Seja um racista musical e chame de estúpido qualquer
um que não conheça suas bandas preferidas. Lembre-se de clichês
do tipo "pagode fede" e "Tiririca é coisa de gente burra".
5)
Seja amigo dos músicos. Essa é uma das mais importantes. A camaradagem
com bandas é essencial. Distribua elogios, rasgue seda, diga que
as bandas da sua cidade são realmente ótimas. Se a baixista gostosa
daquela bandinha indie te de um fora, não pense duas vezes; chame
o grupo de medíocre, comercial, o que for. Se ela te deu bola, o
discurso muda e a menina pode se candidatar ao cargo da Kim Gordon.
6)
Pratique a crítica útil. Chute cachorro morto e dê vivas aos novos
gênios da nossa música. Se a gravadora não te mandou aquele cd bacana,
meta bala. Se mandou, não custa dar uma ajudinha. Entre no esquema
sem medo. Vá nas coletivas, nas apresentações de discos, encha a
cara e dê tapinha nas costas dos figurões, produtores, engenheiros
de som. Na hora de escrever, copie os releases e assine a matéria.
Seja gente boa com o pessoal das rádios. Numa dessas eles falam
de você durante as transmissões. O que importa é a amizade. Ter
alguém com quem tomar cerveja depois do expediente é fundamental.
7)
Prepare-se para um mundo de glamour nas redações. Existe espaço
de sobra para crítica musical. Você pode inclusive resenhar um cd
depois de fechar aquelas oito matérias policiais. Seu chefe vai
adorar. Coloque os cds em volume alto. Todos vão amar. Afinal de
contas, você é um crítico musical, cabeça, cool e descolado. Peça
tempo para escrever sobre shows. Não ligue para prazos e exija que
derrubem o espaço do noticiário de política para sua matéria que,
afinal de contas, é arte. Você não precisa bolar legendas, nem fazer
títulos e nem diagramar. Não no seu plantão, pelo menos.
|