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Beagá, 14 de julho de 2003 d.C.
 
Enganando o telemarketing
Por Henry Chinaski
 

É uma constatação meio deprimente. Cruel até. Mas a historinha do toda merda tem um lado bom guarda lá alguma verdade. Estou eu em casa, segunda-feira, sem muito o que fazer e sem muita vontade de fazer o que deveria fazer. Toca o telefone e mais uma operadora telefônica me oferece o melhor serviço de ADSL do planeta. Segundo a mocinha, eu vou voar na rede, pagando muito pouco, com débito em conta apenas no terceiro mês e mais não sei quanto de espaço para e-mail, serviço de vídeo-conferência e assistência técnica 24 horas. Não consigo nem memorizar todas as vantagens que eu vou ganhar.

O treinamento desses operadores de telemarketing deve ser mesmo fantástico. Ela meio que acaba e pergunta se eu estou interessado. Digo que não. Ela pergunta se tenho computador. Digo que sim. Ela pergunta se já tenho conexão. Digo que tinha e acabo a conversa. "Não tenho dinheiro. Estou desempregado". Ela dá uma risadinha sacana e me deseja sorte. Pede para que eu guarde um número e ligue assim que tiver arranjado um emprego. Obviamente não guardo o telefone. Desligo e penso que descobri uma tática infalível para afugentar os rapazes e moças do telemarketing. Devo agradecer a meu estado de desempregado. Afinal, se eu falasse que não tinha dinheiro apenas, não colaria. Por mais irrisório que fosse o meu salário, a vendedora insistiria e inventaria um super-ultra desconto tão fora de série que eu me obrigaria a aceitar. Estando desempregado, o papo se encerra.

Talvez devido a um respeito moral ou a alguma convenção judaico-cristã que desconheço. "Ele tá fodido mesmo", deve pensar a mocinha. A tática já deu certo em três vezes anteriores. Em uma das amostras mais absurdas de cara-de-pau do mundo, me ligam da American Express às 21h de sábado. A vontade imediata é mandar o cara tomar no XXXXX, mas logo contorno a situação com um "estou desempregado". Nesse caso, o vendedor fugiu ainda mais rápido. Foi como se a situação tivesse se invertido e ele tivesse ficado com medo de que eu insistisse pra ter o cartão mesmo desempregado. Será? Isso eu ainda não descobri. Quem sabe, ficando mais três meses parado eu descubro. Talvez eu arme uma situação e processe a empresa por propaganda enganosa. Prometeram cartão de crédito independente da fonte de renda mas não aceitaram desempregados. Ou até lá, o governo Lula consegue estimular a geração de parte dos 10 milhões de empregos que ele prometeu. Ou me chamam pra trabalhar no New York Times. Ou da próxima vez que ligarem, vou direto ao ponto: "Não, não. Não estou interessado em abrir conta aí. Mas tem vaga, por acaso?"

Errata: na coluna sobre o Los Hermanos, eu escrevi que "Conversa de Botas Batidas" encerrava o disco Ventura. Erro grosseiro. A última música é "De Onde vem a Calma".

O Sukrilius falou o eu que ia falar. A turma de jornalistas baba-ovo que endeusa qualquer bandinha que aparece na NME aumenta a cada dia. O hype em cima do Yeah Yeah Yeahs é coisa impressionante. Vi resenhas dizendo que a atitude de palco da vocalista Karen e de outros integrantes é comparável apenas a de Iggy Pop. Aham. Balançar a cabeça e cuspir no público qualquer bandinha punk de Curitiba faz. E o som do Yeah Yeah Yeahs é ruim, fake, do tipo "o produtor mandou e eu fiz assim".

Escute isso!!!

Em tempos de salvação do rock, com três trilhões de bandas surgindo a cada minuto, escutar clássicos é sempre bom. Não, não vou falar do Dire Straits: falo de Hold That Tiger do Sonic Youth, cd ao vivo, importado, que comprei na minha boa fase de trabalhador que ganhava hora extra. O disco está cheio de clássicos da banda que mudou o conceito de noise no rock. Largue os Yeahs da vida e ouça a sessão pancadaria com "Schizophrenia", "Tom Violence", "Brother James" e "Death Valley 69". Algumas músicas ficam ainda mais dramáticas, densas, ao vivo. Thurston Moore e Kim Gordon cantam como se nada valesse a pena fora dos palcos e longe dos microfones. De quebra, eles tocam quatro músicas do Ramones.

www.deprimeira.blogger.com.br
Eu, o colega Obdulio e mais alguns senhores escrevemos nesse espaço. Pelo menos em teoria. Com pouco mais de uma semana já iniciamos campanha para derrubar o Celso Roth, para eleger o Citadini vereador e para rebaixar o Grêmio.

 
Henry Chinaski é jornalista, um exemplo de profissional sério e sóbrio. E está procurando emprego. Enquanto não arruma, manda lá de Curitiba sinais de vida para o ABACAXI ATÔMICO. E-mail: chinaski@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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