q

Página principal de Nossos Colunistas
Adicione o ABACAXI ATÔMICO aos seus Favoritos. Faça do ABACAXI ATÔMICO a sua página inicial. Cadastre-se!
Mande o seu recado!
Beagá, 30 de junho de 2003 d.C.
 
Curitiba é rock? O Terminal Guadalupe acha que sim
Por Henry Chinaski
 

Curitiba é tema recorrente nas minhas colunas aqui neste espaço. Seja na literatura ou na música, premio o leitor com colunas baseadas na minha opinião sobre a cidade e seus habitantes. A capital das araucárias nunca consegue descanso nesta coluna. Autofágica por natureza, caipira metida à européia, Curitiba soa bonita nos ouvidos de gente de fora. Não raro, paulista, cariocas, mineiros e por aí vai elogiam a cidade, sua organização, sua limpeza, seu povo. Nós curitibanos, meio sem graça, damos uma risadinha amarela e respondemos. "Não. Não é tão assim. Comparada com São Paulo, com o Rio, é uma coisa. Aí é muito grande né. Aqui é menor. Ainda como cidade pequena. Padrão de vida diferente". Exemplo tipicamente curitibano que não consegue falar de sua cidade sem comparar com outra. "Na questão da violência somos melhores que o Rio, não temos praia é verdade, mas São Paulo também não tem e nós temos um monte de praças. Certo, Porto Alegre pode ter uma educação mais forte, mas nosso transporte coletivo..."

Esses mesmos mineiros, cariocas, paulistas, gaúchos e pernambucanos volta e meia questionam sobre Curitiba e seu rock. O frio da cidade, a chuva chata e uma frivolidade histórica sustentam um certo charme (um charme discutível, meio fake, mas ainda assim um charme) europeu. Curitiba, portanto, teria tudo para ser a capital brasileira do rock . "É frio e as pessoas ficam em casa tomando vinho e escutando rock", chegou a relatar uma matéria da Veja. "Curitiba é a Seattle brasileira", propagandeou a MTV e a Showbizz no começo da década de 90, quando um monte de bandas pipocaram no circuito underground e havia um monte de lugares para se tocar na cidade. Woyzeck, Magog, Relespública Boi Mamão, entre outras, estavam ali para estourar. A Seattle brasileira ficou de lado e os holofotes apontaram para Recife e seu mangue beat. A preferência da indústria não impediu que bandas boas continuassem a nascer na cidade. Mas é como se o tempo de Curitiba houvesse passado.

A teoria é minha e ninguém precisa aceitá-la, mas desde então os grupos de garagem da terra do leite quente compraram com fervor a idéia do underground. A opção dividiu o rock de Curitiba em cover fácil e mauricinho e isolamento undeground completo. Isolamento esse que pode ser o dos headbangers do Largo da Ordem, o isolamento dos indies do James, do Korova e do Camorra. Isolamento de uma cidade que consegue exportar uma das melhores bandas de psychobilly do mundo, mas não consegue exportar um grupo de rock, no sentido pop honesto da palavra. Isolamento proposital que faz o grande público torcer o nariz para as bandas curitibanas. "Fazem música estranha", dizem os menos avisados com certa razão. A música estranha no caso pode ser linda, competente, rock pra c******, como muitas das bandas daqui conseguem fazer. Só que tudo é muito, muito e propositalmente distante em um discurso incapaz de se entendido pelo seu vizinho, por aquele cara que joga bola com você e pelo meu primo. Sem problemas. Opção é opção e muita gente boa já desistiu do sonho de atingir todo Brasil. Muitos dos caras das bandas antigas trabalham como jornalistas, publicitários e advogados e se divertem tocando o que gostam nos finais de semana, sendo convidados para festivais esporádicos e recebendo elogio em um ou outro site.Tocam o que querem, gostam e não estão nem aí para quem nunca ouviu Nick Cave.

A coisa começou a ficar perigosa quando as bandas novas da cidade passaram a adotar esse mesmo discurso. Curitiba tem algumas bandas de gente muito boa que deveriam estar fazendo de tudo para aparecer, para tocar para um público cada vez maior, assinar um contrato e fazer sucesso pra cacete. Só que, perigosamente, o underground virou sinônimo único de sinceridade e honestidade. Muitas das bandas novas continuam levando sua vida de brit kids da província, tocando para o público indie do indie, sem conseguir e sem fazer a mínima força para sair do círculo de jornalistas, amigos, bares indies e blogs indies. Como se a genialidade independente e um certo ar blasé de honestidade alternativa fosse chamar a atenção de um grande gravadora e mostrar às massas incautas que rock bom é aquela mistura de Spiritualized e Morphine que aqueles meninos fazem lá em Curitiba. Como se o Brasil fosse a Inglaterra e Curitiba fosse Manchester, onde os empresários assediam as bandas que só tem o trabalho de tocar e encher a cara.

Hoje em dia, fugindo desse esquema temos somente duas bandas: os Faichecleres, de raízes gaúchas e que, segundo consta, vão adotar Porto Alegre, e o Terminal Guadalupe. O primeiro conseguiu, talvez pela cara-de-pau herdada do Rio Grande do Sul, conquistar um respeitável público feminino, que por sua vez trouxe o masculino, que gostou da energia dos rapazes ao vivo.

Já o Terminal Guadalupe tem menos de um ano e já faz muito barulho. A história da banda é pequena, mas desde já cativante. Depois do fim do Lorena Vou Embora, grupo que recebeu rasgados elogios da imprensa carioca, o vocalista e letrista Dary Júnior procurou o Poléxia (da qual falo depois). Do encontro, nasceu O Terminal Guadalupe, que é responsável pela trilha sonora do filme Burocracia Romântica. Da trilha nasceu o cd, que Dary carrega embaixo do braço, levando com carinho para os grandes centros. A exibição do clip homônimo que está (estava) programado para estrear nessa semana na MTV é prova de que o Terminal está no caminho certo: banda curitibana disposta a ganhar o Brasil. E o som para isso? Pode acreditar que ouvir TG é dar um sorriso de satisfação. Pop de qualidade, oitentista, pontuado de referências britânicas e cantado em português. Não vou comentar faixa por faixa, até porque no site da banda a coisa já está feita com muito mais propriedade.

Acho que por aqui basta dizer que Burocracia Romântica é fodidamente sincero com todos os "mas" que isso pode trazer. Muita coisa pode não te agradar, eu mesmo acho que um pouquinho mais da urgência do Lorena, por exemplo, poderia estar presente, e acho que algumas faixas são Renato Russo demais (aposto que alguns críticos vão cair de pau em cima disso). Problema dos críticos e problema meu, Burocracia Romântica é um disco consistente. De letras inteligentes, de instrumental competente, de canções que você escuta e sai cantarolando no ônibus. Canções que (aposto eu) seu vizinho, aquele cara do seu futebol e meu primo também vão cantar e comentar depois: Curitiba é rock.

Terminal Guadalupe é nome de um terminal de ônibus da cidade. Localizado em uma das partes mais sujas de Curitiba, o terminal faz a ligação da capital com os municípios da Região Metropolitana.

Burocracia Romântica é dedicada ao escritor Jamil Snege.

Terminal Guadalupe

 
Henry Chinaski é jornalista bebum e, quando está sóbrio, envia lá de Curitiba suas matérias para o ABACAXI ATÔMICO. E-mail: chinaski@abacaxiatomico.com.br.

 

 

©Todos os direitos reservados
Melhor visualizado com Internet Explorer em 800X600

 
ÚLTIMAS MATÉRIAS
A melhor banda do Brasil
Pico na Veia
Cemitério de Elefantes
Invisível em Curitiba
Curitiba Pop Festival: foi bom, mas...
Confira textos mais antigos...