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Curitiba
é tema recorrente nas minhas colunas aqui neste espaço. Seja na
literatura ou na música, premio o leitor com colunas baseadas na
minha opinião sobre a cidade e seus habitantes. A capital das araucárias
nunca consegue descanso nesta coluna. Autofágica por natureza, caipira
metida à européia, Curitiba soa bonita nos ouvidos de gente de fora.
Não raro, paulista, cariocas, mineiros e por aí vai elogiam a cidade,
sua organização, sua limpeza, seu povo. Nós curitibanos, meio sem
graça, damos uma risadinha amarela e respondemos. "Não. Não é tão
assim. Comparada com São Paulo, com o Rio, é uma coisa. Aí é muito
grande né. Aqui é menor. Ainda como cidade pequena. Padrão de vida
diferente". Exemplo tipicamente curitibano que não consegue falar
de sua cidade sem comparar com outra. "Na questão da violência somos
melhores que o Rio, não temos praia é verdade, mas São Paulo também
não tem e nós temos um monte de praças. Certo, Porto Alegre pode
ter uma educação mais forte, mas nosso transporte coletivo..."
Esses
mesmos mineiros, cariocas, paulistas, gaúchos e pernambucanos volta
e meia questionam sobre Curitiba e seu rock. O frio da cidade, a
chuva chata e uma frivolidade histórica sustentam um certo charme
(um charme discutível, meio fake, mas ainda assim um charme) europeu.
Curitiba, portanto, teria tudo para ser a capital brasileira do
rock . "É frio e as pessoas ficam em casa tomando vinho e escutando
rock", chegou a relatar uma matéria da Veja. "Curitiba é
a Seattle brasileira", propagandeou a MTV e a Showbizz no
começo da década de 90, quando um monte de bandas pipocaram no circuito
underground e havia um monte de lugares para se tocar na cidade.
Woyzeck, Magog, Relespública Boi Mamão, entre outras, estavam ali
para estourar. A Seattle brasileira ficou de lado e os holofotes
apontaram para Recife e seu mangue beat. A preferência da indústria
não impediu que bandas boas continuassem a nascer na cidade. Mas
é como se o tempo de Curitiba houvesse passado.
A teoria
é minha e ninguém precisa aceitá-la, mas desde então os grupos de
garagem da terra do leite quente compraram com fervor a idéia do
underground. A opção dividiu o rock de Curitiba em cover fácil e
mauricinho e isolamento undeground completo. Isolamento esse que
pode ser o dos headbangers do Largo da Ordem, o isolamento dos indies
do James, do Korova e do Camorra. Isolamento de uma cidade que consegue
exportar uma das melhores bandas de psychobilly do mundo, mas não
consegue exportar um grupo de rock, no sentido pop honesto da palavra.
Isolamento proposital que faz o grande público torcer o nariz para
as bandas curitibanas. "Fazem música estranha", dizem os menos avisados
com certa razão. A música estranha no caso pode ser linda, competente,
rock pra c******, como muitas das bandas daqui conseguem fazer.
Só que tudo é muito, muito e propositalmente distante em um discurso
incapaz de se entendido pelo seu vizinho, por aquele cara que joga
bola com você e pelo meu primo. Sem problemas. Opção é opção e muita
gente boa já desistiu do sonho de atingir todo Brasil. Muitos dos
caras das bandas antigas trabalham como jornalistas, publicitários
e advogados e se divertem tocando o que gostam nos finais de semana,
sendo convidados para festivais esporádicos e recebendo elogio em
um ou outro site.Tocam o que querem, gostam e não estão nem aí para
quem nunca ouviu Nick Cave.
A
coisa começou a ficar perigosa quando as bandas novas da cidade
passaram a adotar esse mesmo discurso. Curitiba tem algumas bandas
de gente muito boa que deveriam estar fazendo de tudo para aparecer,
para tocar para um público cada vez maior, assinar um contrato e
fazer sucesso pra cacete. Só que, perigosamente, o underground virou
sinônimo único de sinceridade e honestidade. Muitas das bandas novas
continuam levando sua vida de brit kids da província, tocando para
o público indie do indie, sem conseguir e sem fazer a mínima força
para sair do círculo de jornalistas, amigos, bares indies e blogs
indies. Como se a genialidade independente e um certo ar blasé de
honestidade alternativa fosse chamar a atenção de um grande gravadora
e mostrar às massas incautas que rock bom é aquela mistura de Spiritualized
e Morphine que aqueles meninos fazem lá em Curitiba. Como se o Brasil
fosse a Inglaterra e Curitiba fosse Manchester, onde os empresários
assediam as bandas que só tem o trabalho de tocar e encher a cara.
Hoje
em dia, fugindo desse esquema temos somente duas bandas: os Faichecleres,
de raízes gaúchas e que, segundo consta, vão adotar Porto Alegre,
e o Terminal Guadalupe. O primeiro conseguiu, talvez pela cara-de-pau
herdada do Rio Grande do Sul, conquistar um respeitável público
feminino, que por sua vez trouxe o masculino, que gostou da energia
dos rapazes ao vivo.
Já
o Terminal Guadalupe tem menos de um ano e já faz muito barulho.
A história da banda é pequena, mas desde já cativante. Depois do
fim do Lorena Vou Embora, grupo que recebeu rasgados elogios da
imprensa carioca, o vocalista e letrista Dary Júnior procurou o
Poléxia (da qual falo depois). Do encontro, nasceu O Terminal Guadalupe,
que é responsável pela trilha sonora do filme Burocracia Romântica.
Da trilha nasceu o cd, que Dary carrega embaixo do braço, levando
com carinho para os grandes centros. A exibição do clip homônimo
que está (estava) programado para estrear nessa semana na MTV é
prova de que o Terminal está no caminho certo: banda curitibana
disposta a ganhar o Brasil. E o som para isso? Pode acreditar que
ouvir TG é dar um sorriso de satisfação. Pop de qualidade, oitentista,
pontuado de referências britânicas e cantado em português. Não vou
comentar faixa por faixa, até porque no site
da banda a coisa já está feita com muito mais propriedade.
Acho
que por aqui basta dizer que Burocracia Romântica é fodidamente
sincero com todos os "mas" que isso pode trazer. Muita coisa pode
não te agradar, eu mesmo acho que um pouquinho mais da urgência
do Lorena, por exemplo, poderia estar presente, e acho que algumas
faixas são Renato Russo demais (aposto que alguns críticos vão cair
de pau em cima disso). Problema dos críticos e problema meu, Burocracia
Romântica é um disco consistente. De letras inteligentes, de
instrumental competente, de canções que você escuta e sai cantarolando
no ônibus. Canções que (aposto eu) seu vizinho, aquele cara do seu
futebol e meu primo também vão cantar e comentar depois: Curitiba
é rock.
Terminal
Guadalupe é nome de um terminal de ônibus da cidade. Localizado
em uma das partes mais sujas de Curitiba, o terminal faz a ligação
da capital com os municípios da Região Metropolitana.
Burocracia
Romântica é dedicada ao escritor Jamil
Snege.

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