Descobrir coisas que estavam no fundo
da sua cabeça sempre é um acontecimento interessante.
Por exemplo, no meio de um número de telefone você
vai e disca outro que era de alguém que há muito tempo
atrás você jogava bola e hoje em dia tem vontade de
matar. Aí acontece toda aquela coisa maluca de sentidos misturados,
assim, ah pôxa, o cara era bacana, maior amigo meu e tudo
mais, e isso passa rapidamente para aquele escroto roubou meu cedê
do Mamonas Assassinas. Como naquele filme, que o máskara
esquece sua namorada no fundo do cérebro dele.
Mas tem uma coisa muito mais legal e menos trágica do que
isso: descobrir coisas que estavam perdidas na sua gaveta. Pelo
menos comigo, essas coisas rolam assim, de vez em quando, num espaço
de tempo que, utilizando como referência meu quarto e não
uma estrela inerte em Orion, é mais ou menos similar ao das
minhas colunas - essas aí, utilizando como referência
aquele cara doidão de óculos de armação
das bandas alternativas da coluna na internéte não-abacaxinatômica
aí.
Enfim, hoje eu redescobri, depois de ouvir durante um tempo vozes
na minha cabeça que não paravam de sussurrar “the
horror...” um cedê preto com um cara fora de foco, ou
melhor, em movimento, típico daquelas fotos das exposições
do Palácio das Artes que ninguém vai - fora os estudantes
de comunicação. Era nada mais nada menos que Paranoid,
que, se você não sabe de que banda é, eu temo
pelo futuro do mundo. Como o futuro do mundo é negro de qualquer
maneira, eu jogo na sua cara, enquanto você joga todos os
seus discos do Franz Ferdinand fora. Tudo bem, eles têm um
só, mas eu tenho certeza que você copiou 35 pra dar
de presente pra sua namorada moderna, seu professor de antropologia
e seus tios baladeiros. Vamos lá, música por música,
enquanto brasileiros são mortos em Londres com cinco tiros
na cabeça, eu vou fazendo também a minha parte para
disseminar o horror e a catástrofe.

“War Pigs”
“Agora, na escuridão, o mundo pára de girar”.
É isso aí, e tal. 1970, flowerpower de ressaca de
ayahusca, o papo-furado do paz e amor todo indo pelo ralo, junto
com os pentelhos sujos das hippies não-depiladas. Guerra,
guerra, gente morrendo, vocês todos vão morrer também,
doom, os porcos da guerra. O segundo riff mais pegajoso de sangue
de toda a história da música, Tony Iommy sem-ponta
dos dedos jogando todo mundo no poço, sem salvar ninguém.
É o dito do macrocosmos musical: intimista o carajo, enquanto
você chora sua namorada que te largou no colégio, seu
país pega fogo e vietcongues fazem roleta russa com seus
amigos. Fora de contexto? Tudo bem, você pode continuar chorando
aí sua namorada, enquanto gerações e gerações
seguidas de múmias alienadas são roubadas, humilhadas
e continuam achando que o futuro é furta-cor.
“Paranoid”
“O dia inteiro penso coisas, mas nada parece me satisfazer”.
Acorda, estuda, trabalha, come, dorme, faz sexo, trabalha, toma
esporro do chefe, compra, é despedido, trabalha de novo,
come, dorme, paga impostos, come, dorme, impostos, compra carro
do ano, trabalha, come, não dorme, paga impostos, não
dorme, não dorme, entra no orkut, liga a tv, não dorme,
morre. Freneticamente vivendo sem esperanças, os quatro junkies
de Birmingham transformam a robotização da vida humana
em música. Literalmente. Está lá, o andamento
mecânico da música, o solo em fuzz estourado, lembrando:
somos todos paranóicos, “i tell you to enjoy life,
i wish i could but it’s too late”. Tarde demais, tarde
demais, que tal um reality show pra salvar suas perspectivas?
“Planet Caravan”
“O olho escarlate do Grande Deus Marte, enquanto viajamos
pelo universo”. Os bongôs de Bill Ward como válvulas
de escape, a voz lisérgica de Ozzy e todo o transcendentalismo
remanescente reaparece. Reação, fuga, não importa.
Curta a viagem e olhe para cima. Liberdade? Não mais aqui
embaixo, amigo.
“Iron Man”
“Agora, é o tempo, para o Homem de Ferro espalhar o
medo.” Beavis morreu. Butt Head também. Mas nada os
impediu de cantar, durante suas curtas existências de açúcar
e masturbação, esse sim, O RIFF mais grudento de líquido
vital de toda a história do rock. Não espere mais
os que trarão as boas novas e salvarão a humanidade
da hecatombe final. Sentado no ponto de ônibus no centro da
cidade pela madrugada adentro, espere apenas o Homem de Ferro e
sua vingança contra a humanidade decadente. Ou talvez a própria
que, de tão decadente, nada tem mais a temer que sua própria
história.
“Eletric Funeral”
“Mentes robóticas de escravos robôs, levam os
homens para túmulos atômicos”. Pessoas amontoadas,
algumas morriam do nada, outras vomitavam as tripas, alguns corpos
decompunham ao léu. Famílias destruídas, crianças
cegas procurando os pais, peles escamando. Não, isso não
é ficção de segunda categoria. É apenas
o parque de Hiroshima, nas palavras de John Hersey, em agosto de
1945.
“Hand of Doom”
“Desilusão, crave a agulha, da vida você escapa.”
É tipo assim, você fuma sua droga maluca aí,
dá seus picos doidos. Beleza. Mas ao contrário dos
bichos-grilos, de ver o lado belo da vida por conseqüência
do uso de maluquices, a parada é: pra segurar a pressão,
pra conseguir viver nesse mundo caótico e ilógico,
como diria o camarada lá do medo
e delírio na micareta, fume sua droguinha. Mas não
se esqueça que do lado de cá tá tudo se quebrando
loucamente. Então curta a onda enquanto ela não for
pastar.
“Rat Salad/Fairies Wear Boots”
“Filho, você foi longe demais. Porque fumar e viajar
é o tudo o que você faz”. Sem comentários,
psicodelia irônica e descompromissada, fadas de botas e um
instrumental destruidor.
(...)
E tudo é assim, aquelas coisas que você esquece lá
dentro da sua cabeça acabam voltando normalmente, um dia,
desse jeito, e explodem na sua frente que nem buscapé de
festa junina. E se você acha que o disco dos computadores
do Amaral com vitiligo realmente mudou sua vida, talvez pancadas
como essa façam seu cérebro fritar de uma maneira
diferente. Caso isso não aconteça, ligue a televisão:
ele vai fritar do modo antigo, mas já é alguma coisa.
Quem sabe você não pega uma reprise de The Osbournes?
|