Eu sei que os leitores deste site e
outras pessoas nem tanto assíduas querem me matar. Os últimos
não me importam. Não sei se os assíduos também,
porém explicarei em duas letras minha abstenção
de mais de um mês desta coluna: PT.
Partido dos Trabalhadores, Beto Jefferson e o presidente, opa,
ministro renunciando. Não, meu caro, não é
a isso que me refiro, notícias saturadas realmente não
me interessam muito como pauta. Enfim, o PT a que me refiro define-se
como Perda Total no jargão automobilístico.
É, um caminhão entrou no lado do passageiro do meu
carro. Ninguém teve nada, mas não é isso que
importa; o que realmente interessa é que eu fiquei sem transporte
para entregar minhas colunas datilografadas à mão
ao chefe, e ele não aceitou as que chegaram pelo velho e
bom correio.
Abobrinhas à parte, estava eu silenciosamente meditando
no meu canto no metrô quando escutei uma conversa interessante
de dois caras com franja. Eles falavam alguma coisa sobre aquele
cara muito doidão da banda das colméias que fuma drogas
e dá guitarradas nos outros e o velhote que trocou o sangue
inteiro por causa do fumo de drogas ou o malucão que tocou
pelado e fumava tantas drogas que matou o guitarrista da banda dele
ou até mesmo do outro guitarrista mais doidão ainda
que fumou tantas e tantas drogas que não conseguia mais falar
nem nada e lança cedês pra fumar mais drogas e faz
barulhos muito loucos e tal porque o roquenrou é a maior
loucura, cara, coisa de fumo de drogas.
Como um bom aluno do humorismo dialético, fui completamente
dominado pelo espirro de BERTOLDO BRECHA, e só tive tempo
de exclamar:
- VEEEEEEEEEEEEENHHHAAA!!!!
Pois de doidão tem muito mais na música erudita contemporânea,
aquela que você acha que seus avós ouviam mas eles
não tinham coragem disso. Enfim, se Beatles é lisérgico,
defina, por favor, esses sujeitos:
John Cage (1912 - 1992)
Além
de ter tido uma curta carreira como esmagador de ovos no já
nostálgico Mortal Kombat, John Cage apresentou, em 1952,
sua peça 4'33''. Dividida em três movimentos (I:30'',
II: 2'23'' e III: 1'40''), consiste em 4 minutos e 33 segundos de
absoluto silêncio. Ou seja, durante a apresentação,
o intérprete senta-se ao piano durante esse período,
realizando movimentos como abrir e fechar a tampa do instrumento.
Segundo alguns, a escolha dos 4 minutos e 33 segundos é devido
aos 273 segundos. Na escala Kelvin de temperatura, -273º C
corresponde a 0 K, que é o zero absoluto, ou seja, estado
de repouso completo das moléculas. Explicado? Não
tanto quanto isso: em 2002, o músico Michael Batt lançou
um disco que continha a seguinte faixa, "Um minuto de silêncio".
Enfim, a John Cage Trust descobriu, entrou com um processo e, ganhou.
Ou seja, qualquer minuto meia boca que você vê antes
de uma partida de futebol, ou em qualquer lugar, nada mais é
que um plágio de 4'33''.
Além disso, o John Cage compôs uma peça intitulada
"As slow as possible" (Tão lento quanto possível),
que, normalmente tocada em 20 minutos, atualmente é executada
num órgão em Halberstadt, na Alemanha, e a performance,
que começou em 2001 tem previsões para terminar somente
em 2640. Ou seja, ainda faltam 635 anos. As bizarre as possible?
Ahh, ele também compunha música randômica a
partir do I-Ching, e utilizava rádios como instrumentos de
suas orquestras. Ligados em freqüências normais, imprevisíveis.
Arnold Schoenberg (1874 - 1951)
Inventor
da dodecafonia e do atonalismo - o tipo de música sem centros
tonais que você normalmente ouve e fala: "olha lá
que música de gente maluca" -, Schoenberg era, segundo
alguns, um cara muito antipático. Deu aula para John Cage
e sofria de triskaidekaphobia, ou seja, medo do número treze.
Nasceu no dia 13 de setembro e morreu no dia 13 de julho. Um de
seus maiores medos era fazer 76 anos (7+6=13), mais seu maior temor
era em relação ao dia 13 de julho de 1951, a primeira
sexta-feira treze de seus 76 anos. Esperando que iria morrer, ficou
na cama o dia inteiro. Morreu surpreendentemente às 11h47
da noite do mesmo dia. Treze minutos antes da meia-noite.
Karlheinz Stockhausen (1922 - )
Stockhausen
possui três mulheres. Segundo ele, veio da galáxia
de Sirius. Possui três mansões em uma montanha: uma
para si mesmo, uma para suas mulheres e outra para proteger suas
obras de uma possível hecatombe.
Um de seus maiores interesses é o vôo. Criou um projeto
para fazer seus instrumentistas "voarem" a partir de cordas
instaladas em suas cadeiras, que ficariam balançando pelo
palco. Com a peça "Helikopter-Streichquartett",
posicionou os músicos de um quarteto de cordas em quatro
helicópteros diferentes, voando acima do teatro. Os sons
eram transmitidos ao teatro e mixados com o barrulho dos helicópteros,
e havia também a imagem dos músicos ao vivo. Foi executada
diversas vezes.
Para terminar, a partitura de Zyklus pode ser lida de baixo para
cima, cima pra baixo, esquerda pra direita ou vice-versa, assim
como o executor quiser. Também possui uma peça cuja
partitura é circular, ou seja, possui o roquenroumente conhecido
refrão.
Sun Ra (1914 - 1993)
Sun
Ra, ao contrário de todos os outros músicos citados
anteriormente, não era um "compositor clássico".
Era o líder de uma banda de jazz, talvez a primeira a utilizar
sintetizadores no estilo - ou mesmo fora dele. Mas pertencia ao
mesmo grupo de malucos, tendo inclusive um fantástico álbum
com John Cage (John Cage Meets Sun Ra).
Sun Ra não nasceu em 1914. Segundo ele, não era humano,
mas sim da Raça Angelical de Saturno, que chegou à
terceira pedra depois do Sol no citado ano. Dizia que a música
era um elemento universal que unia as raças e servia para
disseminar a paz - ou alguma coisa do tipo, o que fez o movimento
hippie curvar-se a ele. Vestia trajes que misturavam malhas metálicas
espaciais e Egito antigo andrógeno. Sonhava em tocar nas
pirâmides e fez um show com sua Arkhestra (a banda) na Disneylândia.
Entre outras coisas, era assexuado e tinha um passado completamente
desconhecido.
Gyorgy Ligeti (1923 - )
Compositor
húngaro, suas bizarrices eram circunscritas somente à
esfera musical. Compôs as 11 peças de piano Musica
Ricercata, cuja primeira peça é composta apenas
por notas lá oitavadas e um ré no final. Nas outras
10, as notas são adicionadas solitariamente e gradativamente
em cada peça, chegando a todas as doze na 11ª peça.
Escreveu parte da trilha sonora de 2001: Uma Odisséia
No Espaço (não a música principal, mas
outros temas), usada sem sua permissão. Desenvolveu uma espécie
de música que alguns dizem não possuir ritmo, e a
peça "Atmosphères" começa com um
dos maiores acordes já tocados, com as doze notas oitavadas
cinco vezes tocadas ao mesmo tempo.

Enfim, tudo bem, você ainda acha que cuspir sangue no palco,
comer morcegos e beber mijo é muito mais doidão que
o que esses caras fazem, então eu lhe digo: mais vale um
cérebro doidão do que um doidão sem cérebro.
Para terminar, Elvis não morreu, e eu tenho a prova. Segundo
esse
site, ele está vivo e irá morrer segunda-feira,
dia 26 de fevereiro de 2035, de pressão alta. Melhor que
eu, que serei comido por um tubarão em 27/01/2022.
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