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Beagá, 27 de junho de 2005 d.C.
 
Os doidão da música contemporânea
Por Índio Raipe
 

Eu sei que os leitores deste site e outras pessoas nem tanto assíduas querem me matar. Os últimos não me importam. Não sei se os assíduos também, porém explicarei em duas letras minha abstenção de mais de um mês desta coluna: PT.

Partido dos Trabalhadores, Beto Jefferson e o presidente, opa, ministro renunciando. Não, meu caro, não é a isso que me refiro, notícias saturadas realmente não me interessam muito como pauta. Enfim, o PT a que me refiro define-se como Perda Total no jargão automobilístico. É, um caminhão entrou no lado do passageiro do meu carro. Ninguém teve nada, mas não é isso que importa; o que realmente interessa é que eu fiquei sem transporte para entregar minhas colunas datilografadas à mão ao chefe, e ele não aceitou as que chegaram pelo velho e bom correio.

Abobrinhas à parte, estava eu silenciosamente meditando no meu canto no metrô quando escutei uma conversa interessante de dois caras com franja. Eles falavam alguma coisa sobre aquele cara muito doidão da banda das colméias que fuma drogas e dá guitarradas nos outros e o velhote que trocou o sangue inteiro por causa do fumo de drogas ou o malucão que tocou pelado e fumava tantas drogas que matou o guitarrista da banda dele ou até mesmo do outro guitarrista mais doidão ainda que fumou tantas e tantas drogas que não conseguia mais falar nem nada e lança cedês pra fumar mais drogas e faz barulhos muito loucos e tal porque o roquenrou é a maior loucura, cara, coisa de fumo de drogas.

Como um bom aluno do humorismo dialético, fui completamente dominado pelo espirro de BERTOLDO BRECHA, e só tive tempo de exclamar:

- VEEEEEEEEEEEEENHHHAAA!!!!

Pois de doidão tem muito mais na música erudita contemporânea, aquela que você acha que seus avós ouviam mas eles não tinham coragem disso. Enfim, se Beatles é lisérgico, defina, por favor, esses sujeitos:

John Cage (1912 - 1992)

Além de ter tido uma curta carreira como esmagador de ovos no já nostálgico Mortal Kombat, John Cage apresentou, em 1952, sua peça 4'33''. Dividida em três movimentos (I:30'', II: 2'23'' e III: 1'40''), consiste em 4 minutos e 33 segundos de absoluto silêncio. Ou seja, durante a apresentação, o intérprete senta-se ao piano durante esse período, realizando movimentos como abrir e fechar a tampa do instrumento. Segundo alguns, a escolha dos 4 minutos e 33 segundos é devido aos 273 segundos. Na escala Kelvin de temperatura, -273º C corresponde a 0 K, que é o zero absoluto, ou seja, estado de repouso completo das moléculas. Explicado? Não tanto quanto isso: em 2002, o músico Michael Batt lançou um disco que continha a seguinte faixa, "Um minuto de silêncio". Enfim, a John Cage Trust descobriu, entrou com um processo e, ganhou. Ou seja, qualquer minuto meia boca que você vê antes de uma partida de futebol, ou em qualquer lugar, nada mais é que um plágio de 4'33''.

Além disso, o John Cage compôs uma peça intitulada "As slow as possible" (Tão lento quanto possível), que, normalmente tocada em 20 minutos, atualmente é executada num órgão em Halberstadt, na Alemanha, e a performance, que começou em 2001 tem previsões para terminar somente em 2640. Ou seja, ainda faltam 635 anos. As bizarre as possible?

Ahh, ele também compunha música randômica a partir do I-Ching, e utilizava rádios como instrumentos de suas orquestras. Ligados em freqüências normais, imprevisíveis.

Arnold Schoenberg (1874 - 1951)

Inventor da dodecafonia e do atonalismo - o tipo de música sem centros tonais que você normalmente ouve e fala: "olha lá que música de gente maluca" -, Schoenberg era, segundo alguns, um cara muito antipático. Deu aula para John Cage e sofria de triskaidekaphobia, ou seja, medo do número treze. Nasceu no dia 13 de setembro e morreu no dia 13 de julho. Um de seus maiores medos era fazer 76 anos (7+6=13), mais seu maior temor era em relação ao dia 13 de julho de 1951, a primeira sexta-feira treze de seus 76 anos. Esperando que iria morrer, ficou na cama o dia inteiro. Morreu surpreendentemente às 11h47 da noite do mesmo dia. Treze minutos antes da meia-noite.

Karlheinz Stockhausen (1922 - )

Stockhausen possui três mulheres. Segundo ele, veio da galáxia de Sirius. Possui três mansões em uma montanha: uma para si mesmo, uma para suas mulheres e outra para proteger suas obras de uma possível hecatombe.

Um de seus maiores interesses é o vôo. Criou um projeto para fazer seus instrumentistas "voarem" a partir de cordas instaladas em suas cadeiras, que ficariam balançando pelo palco. Com a peça "Helikopter-Streichquartett", posicionou os músicos de um quarteto de cordas em quatro helicópteros diferentes, voando acima do teatro. Os sons eram transmitidos ao teatro e mixados com o barrulho dos helicópteros, e havia também a imagem dos músicos ao vivo. Foi executada diversas vezes.

Para terminar, a partitura de Zyklus pode ser lida de baixo para cima, cima pra baixo, esquerda pra direita ou vice-versa, assim como o executor quiser. Também possui uma peça cuja partitura é circular, ou seja, possui o roquenroumente conhecido refrão.

Sun Ra (1914 - 1993)

Sun Ra, ao contrário de todos os outros músicos citados anteriormente, não era um "compositor clássico". Era o líder de uma banda de jazz, talvez a primeira a utilizar sintetizadores no estilo - ou mesmo fora dele. Mas pertencia ao mesmo grupo de malucos, tendo inclusive um fantástico álbum com John Cage (John Cage Meets Sun Ra).

Sun Ra não nasceu em 1914. Segundo ele, não era humano, mas sim da Raça Angelical de Saturno, que chegou à terceira pedra depois do Sol no citado ano. Dizia que a música era um elemento universal que unia as raças e servia para disseminar a paz - ou alguma coisa do tipo, o que fez o movimento hippie curvar-se a ele. Vestia trajes que misturavam malhas metálicas espaciais e Egito antigo andrógeno. Sonhava em tocar nas pirâmides e fez um show com sua Arkhestra (a banda) na Disneylândia. Entre outras coisas, era assexuado e tinha um passado completamente desconhecido.

Gyorgy Ligeti (1923 - )

Compositor húngaro, suas bizarrices eram circunscritas somente à esfera musical. Compôs as 11 peças de piano Musica Ricercata, cuja primeira peça é composta apenas por notas lá oitavadas e um ré no final. Nas outras 10, as notas são adicionadas solitariamente e gradativamente em cada peça, chegando a todas as doze na 11ª peça. Escreveu parte da trilha sonora de 2001: Uma Odisséia No Espaço (não a música principal, mas outros temas), usada sem sua permissão. Desenvolveu uma espécie de música que alguns dizem não possuir ritmo, e a peça "Atmosphères" começa com um dos maiores acordes já tocados, com as doze notas oitavadas cinco vezes tocadas ao mesmo tempo.

Enfim, tudo bem, você ainda acha que cuspir sangue no palco, comer morcegos e beber mijo é muito mais doidão que o que esses caras fazem, então eu lhe digo: mais vale um cérebro doidão do que um doidão sem cérebro.

Para terminar, Elvis não morreu, e eu tenho a prova. Segundo esse site, ele está vivo e irá morrer segunda-feira, dia 26 de fevereiro de 2035, de pressão alta. Melhor que eu, que serei comido por um tubarão em 27/01/2022.

 
Índio Raipe estuda jornalismo, pediu demissão da revista de cavalos onde trabalhava, acha que toca guitarra, finge ser DJ e ainda por cima tem um blog. E-mail: indioraipe@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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