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Beagá, 16 de maio de 2005 d.C.
 
Uma coluna sobre o nada
Por Índio Raipe
 

Então eu saí do meu emprego na revista de cavalos. É, aquele trampo que eu fazia que você normalmente ficava rindo no fim das minhas colunas e pensando "nossa, que sujeito fracassado, esse deve ter uma vida amarga e horrível". O amargo e horrível eu não vou colocar em pauta, mas o resto é o seguinte: minha vida nunca ficou tão ridícula frente aos meus colegas que adoravam essas piadas sobre cavalos e suas inúmeras relações com os símbolos capciosos da cultura hipermoderna. Inclusive, se você quiser, pode mandar algumas pro meu emeio, que (SIM), já está funcionando. Mas eu acho que não daria muito certo, já que eu me demiti do serviço de repórter eqüino, que, sim, pagava bem um bocado, e arrumei um negócio muito mais bacana. Mas isso eu não vou contar. Nem o porquê de largar uma revista de cavalos. Enfim, paremos por aqui que isso já está parecendo um blógue.

Realmente falando das coisas que tão rolando aí na vida, eu não sei de vocês, mas parece que eu sou o único nesse mundo que já viu o desenho Mission Hill. É uma puta série engraçada, uma espécie de Simpsons alternativo, ou seja, enquanto Simpsons consegue parodiar todo estilo de vida que as pessoas levam mas não gostam de levar - ou seja, o mundo pop antes de "mundo pop" virar sinônimo de alternativo -, Mission Hill faz piadas com toda essa coisa de rock underground, intelectualóides, pseudo-intelectualóides, anti-pseudolointelectualóides, ou seja, alguém com necessidade de ser diferente. Deixando bem claro: Andy, o protagonista, é um cartunista fracassado, que divide um apartamento com mais dois amigos e seu irmão nerd. Andy é vizinho de dois pintores, um casal de gays, é empregado de um cocainômano sem escrúpulos e tem o cabelo azul. Mas o que é mais legal em tudo é a animação, diferente do convecional e com um bocado de influência daqueles HQ's undergrounds do Robert Crumb. Enfim, o ponto que eu quero chegar é o tal: sim, provavelmente eu sou o único telespectador desse negócio, que passava uns 3 anos atrás na Warner, no horário de 11h30 da noite de sexta-feira, e hoje em dia passa às 1h30 da manhã no SBT. Invertendo os papéis: é, eu estou na lama.

Afogado até o pescoço. Quando você descobre que pra se divertir realmente não bastam lugares com cadeiras e cerveja, boates no subsolo, no sobresolo ou sinucas, alguma coisa está errada. Lugar-comum horrível e besta. Alguma coisa está errada desde que o primeiro homem-peludo viu o monolito de pedra. E também, acredito, não tem nada errado comigo. Mas sim com vocês, ridículos, que preferem dançar músicas dos anos 80 ao invés de ficar em casa vendo Misson Hill, muito mais legal.

Finalmente, partindo para o que interessa, só falta o Heavy Metal. É, aquelas guitarras pesadonas, bumbos-duplos, cabelos compridos crespos, caveiras e anéis. Deixe-me explicar mais especificamente, tem a ver com um negócio que até o pessoal daqui do Abacaxi escreveu nos últimos tempos: primeiro foi o hard rock, que fez nerds-descolados de óculos de aro grosso, cabelos partidos pro lado e camisas de botão se ridicularizarem mais - se era possível - e virarem posers a ponto de usar brilho e aqueles cintos com pedaços de metal horríveis. E, agora que saiu Some Kind Of Monster, o fim está próximo. Então amigo, Anthrax, Megadeth, Slayer, MetallicA (destaque no A maiúsculo) e Pantera, sim, estarão nos próximos Top 10 daquele cara estranho que discute absolutismo no Primeiro Reinado na fila de cinema de Tiradentes. E só uma coisa me resta de consolação: heavy metal vem de berço. Se você não aprende, não adianta, sua cara vai ficar que nem a da Menina de Plástico.

 
Índio Raipe estuda jornalismo, foi demitido da revista de cavalos onde trabalhava, acha que toca guitarra, finge ser DJ e ainda por cima tem um blog. Lamentável. E-mail: indioraipe@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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