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Beagá, 02 de maio de 2005 d.C.
 
Me Salve, Tio Eddie
Por Índio Raipe
 

Este fim de semana eu fiz uma coisa bem legal. Não, eu não conversei com extraterrestres ou fiz sexo com trigêmeas. Eu simplesmente fui para a sala e me deliciei como há muito tempo não fazia com o incrível VAN HALEN I. Microfonias, riffs destruidores, solos e mais solos e o mais importante: vontade de dirigir um Lamborghini conversível vermelho na Califórnia com duas loiras de biquínis estampados com a bandeira dos EUA.

Porque eu não me importo com músicas que me lembrem de quanto eu sou insignificante para o planeta. Na verdade, algumas até são bem legais, o que me faz lembrar que eu não tenho nada contra elas. Eu tenho é contra aquelas pessoas que viram para mim e falam:

- Mas o que é isso? Que coisa horrível! São guitarras!

Antes de utilizar meu amplificador e estourar os tímpanos do infeliz, para que nunca mais a música seja ferida por interpretações tão equivocadas, leio meu agradável discurso de trezentas e vinte cinco páginas sobre o assunto. E ele começa assim: “Músicas com guitarras limpas e sem solos fedem”.

Cá entre nós, ou entre os outros: guitarras limpas não são guitarras. O negócio começa a funcionar quando um cara pega e coloca o overdrive lá no talo. Provavelmente, se o guitarrista do The Kinks, o mestre Hendrix ou tantos outros não estivessem sacrificado seus amplificadores para conseguirem chiados incrivelmente divertidos, não haveria tantos decibéis bacanas no mundo.

Mas o importante de toda essa baboseira é deixar bem claro o quanto o mundo está se engayzando e ficando cada vez mais triste. Ou seja: as pessoas TÊM MEDO DE GUITARRAS. Hoje, quando um moleque houve uma guitarra, ele grita, chora, esperneia. Não, ele não quer ouvir um cara se contorcendo loucamente com seu instrumento e extraindo dali notas e mais notas com mulheres loucas a seus pés. Ele só quer um depressivo com um violão falando sobre amores perdidos. E deixando bem claro o quanto é um perdedor.

Então, vamos lá ao supra-sumo de todo esse raciocínio: o quanto mais as pessoas renegam guitarras, o quanto mais o mainstream for invadido por pianos, mais e mais perdedores serão considerados gênios. E isso está muito errado. Fodão, na minha época, era aquele cara que comia todo mundo e era preso. Fodão, hoje, é o cara que perdeu a namorada. Ou seja: eu, você, seu irmão e sua tia.

Bom, dá pra perceber que não é possível funcionar um mundo onde caras como nós são considerados heróis. Existirão mais e mais funcionários públicos, os pedreiros não mais assobiarão para as gostosas, e sim sentarão e chorarão a sua inacessibilidade. Então, mexa esse seu traseiro gordo e vá, correndo, proteger a sua família. Porque, como diria o gênio mais gênio de todos, aquele mesmo, o do bigode: minha guitarra quer matar a sua mãe!

 
Índio Raipe estuda jornalismo, foi demitido da revista de cavalos onde trabalhava, acha que toca guitarra, finge ser DJ e ainda por cima tem um blog. Lamentável. E-mail: indioraipe@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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