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Beagá, 25 de abril de 2005 d.C.
 
Thurston Moore e o fim do Sonic Youth
Por Índio Raipe
 

Ao contrário do que algumas pessoas afirmam com veemência, a faculdade serve, sim, para se aprender algumas coisas. Outras pessoas diriam que ela serve mais para apreender, mas isso não vem ao caso, enfim.

O negócio é que eu costumo priorizar o meu sono, ainda por cima quando os assuntos que eu ouço de manhã se relacionam com um cara mau com orelhas de abano, pessoas sendo perversamente conduzidas para um abismo de imbecilidade devido a um aparelho eletrônico e autores que usam "não obstante" ao invés de "entretanto".

Não obstante tudo isso, numa bela quarta-feira, estando a minha pessoa - e não exatamente eu - acordada, ouvi uma história deveras divertida. Tinha alguma coisa a ver com Wall Street e aqueles caras de terno que cheiravam cocaína escutando Devo e bebendo água Perrier. Em suma, o negócio é que um sujeito desses resolveu verificar a composição do solvente após constatar um gosto levemente azedo no mesmo. O resultado foi que uma quantidade ínfima e inocente de benzeno levou um conglomerado empresarial fresco-francês a retirar TODAS as garrafas de Perrier das prateleiras do mundo.

Mudando de assunto, vivemos, no atual estado das coisas, um período de incertezas e sufocamento, de grupos sem identidade e pessoas buscando respostas no misticismo oriental, no Tao e nas letras profundas e inconseqüentes dos Strokes. Seres humanos se agrupam, assim como elefantes e hienas, em manadas efêmeras e, a cada estação do ano, mudam a combinação dos tons de suas vestimentas.

Não farei análises sociologicamente completas destes grupos, nem tentarei classificá-los como vítimas do meio ou da falta da leitura de Mad em suas formações intelectuais; na verdade, aqueles caras - não os de Nova York - que me falaram na faculdade são muito mais competentes do que eu para dizer se precisamos ou não de uma bomba. O fato é que uma coisa nunca muda: faça sol ou uma nevasca horrível, sempre estarão lá, com seus óculos quadrados, seus cabelos lambidos, tomando cappucinos e lendo "A Morte Em Veneza" com uma camisa do Sonic Youth. Descobrirão, de forma virótica, bandas esquisitas do interior da Groenlândia. Um dia, você vai estar em uma boate que parece um calabouço, verá um cara com 5 blusas suando em bicas e tentando disfarçar, colocando seus cedês preferidos pra tocar e se auto-intitulando DJ.

Mas aí você vem e me pergunta: qual é a dos malas em Nova York com a tal da Perrier? O fato é que eles estão em NY e bebem Perrier, e vivem nos maravilhosos e inesquecíveis anos 80. Tudo o que esse pessoal aí sonha, mas, infelizmente, estes estão num país pobre e fedido, vinte anos após toda essa coisa aí.

Indie? Não, eu prefiro ser um índio e ficar o dia inteiro deitado coçando minha barriga. Mas se você quer um conselho, tudo bem: olhe bem para esse seu capuccino. Ou você não quer deixar sua marca na história?

 
Índio Raipe estuda jornalismo, trabalha numa revista de cavalos (interprete isso como quiser), acha que toca guitarra, finge ser DJ e ainda por cima tem um blog. Lamentável. E-mail: indioraipe@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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