Ao contrário do que algumas
pessoas afirmam com veemência, a faculdade serve, sim, para
se aprender algumas coisas. Outras pessoas diriam que ela serve
mais para apreender, mas isso não vem ao caso, enfim.
O negócio é que eu costumo priorizar o meu sono,
ainda por cima quando os assuntos que eu ouço de manhã
se relacionam com um cara mau com orelhas de abano, pessoas sendo
perversamente conduzidas para um abismo de imbecilidade devido a
um aparelho eletrônico e autores que usam "não
obstante" ao invés de "entretanto".
Não obstante tudo isso, numa bela quarta-feira, estando
a minha pessoa - e não exatamente eu - acordada, ouvi uma
história deveras divertida. Tinha alguma coisa a ver com
Wall Street e aqueles caras de terno que cheiravam cocaína
escutando Devo e bebendo água Perrier. Em suma, o negócio
é que um sujeito desses resolveu verificar a composição
do solvente após constatar um gosto levemente azedo no mesmo.
O resultado foi que uma quantidade ínfima e inocente de benzeno
levou um conglomerado empresarial fresco-francês a retirar
TODAS as garrafas de Perrier das prateleiras do mundo.
Mudando de assunto, vivemos, no atual estado das coisas, um período
de incertezas e sufocamento, de grupos sem identidade e pessoas
buscando respostas no misticismo oriental, no Tao e nas letras profundas
e inconseqüentes dos Strokes. Seres humanos se agrupam, assim
como elefantes e hienas, em manadas efêmeras e, a cada estação
do ano, mudam a combinação dos tons de suas vestimentas.
Não farei análises sociologicamente completas destes
grupos, nem tentarei classificá-los como vítimas do
meio ou da falta da leitura de Mad em suas formações
intelectuais; na verdade, aqueles caras - não os de Nova
York - que me falaram na faculdade são muito mais competentes
do que eu para dizer se precisamos ou não de uma bomba. O
fato é que uma coisa nunca muda: faça sol ou uma nevasca
horrível, sempre estarão lá, com seus óculos
quadrados, seus cabelos lambidos, tomando cappucinos e lendo "A
Morte Em Veneza" com uma camisa do Sonic Youth. Descobrirão,
de forma virótica, bandas esquisitas do interior da Groenlândia.
Um dia, você vai estar em uma boate que parece um calabouço,
verá um cara com 5 blusas suando em bicas e tentando disfarçar,
colocando seus cedês preferidos pra tocar e se auto-intitulando
DJ.
Mas aí você vem e me pergunta: qual é a dos
malas em Nova York com a tal da Perrier? O fato é que eles
estão em NY e bebem Perrier, e vivem nos maravilhosos e inesquecíveis
anos 80. Tudo o que esse pessoal aí sonha, mas, infelizmente,
estes estão num país pobre e fedido, vinte anos após
toda essa coisa aí.
Indie? Não, eu prefiro ser um índio e ficar
o dia inteiro deitado coçando minha barriga. Mas se você
quer um conselho, tudo bem: olhe bem para esse seu capuccino. Ou
você não quer deixar sua marca na história?
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