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Beagá, 19 de setembro de 2005 d.C.
 
Jardim dos caminhos que não se bifurcam
Por Índio Raipe
 

Eu gosto de música. Assim, desde pequeno eu me lembro de ouvir música. Música que eu digo pode ser considerada esse negócio que normalmente tem uma base, composta de baixo e bateria e um cara cantando palavras - ou não, enfim, envolve instrumentos que fazem sons dentro de uma freqüência captável pelo ouvido humano. Desde pequeno, também, eu moro numa região central, assim, quase no centro de belorizonte, onde passam carros malucos, pessoas bêbadas, garrafas quebradas e caminhões de lixo cacófonos às quatro e meia da manhã de terça-feira. Então assim, na minha cabeça infantil, eu separava muito bem essas coisas: música de barulho. Mas aí eu comecei a escutar Metallica e Black Sabbath e essas coisas malignas e Jimi Hendrix também (sempre o Hendrix) e a linha começou a ficar cada vez mais tênue, até se fundir num imenso conjunto, daqueles das aulas de matemática da segunda série, com muitos elementos esquisitos.

Com a crítica musical parece ser a mesma coisa. Eu não sei se o que eu falo pode ser considerado crítica musical (na maioria das vezes eu classifico com asneira mesmo), mas o fato é que as pessoas adoram enquadrar as coisas. Como por exemplo, o roque. Todo mundo escuta roque, eu, você, essas pessoas aí que estão do seu lado e na sua cabeça. Quando três pessoas roqueiras estão juntas alguém pergunta "e aí, o que você ouve" (porque sempre alguém vai ter de perguntar isso, em algum momento ou outro), os três respondem coisas diferentes, mesmo se os três ouvirem heavy metal da Bay Area do começo dos anos 80. Mas diria Yung Burnstein, inventor dos carros movidos a asfalto, "eu tenho de me prender a alguns conceitos". E aí começa toda a problemática: quais conceitos? aonde encontrá-los? quem são eles? por que eu ainda perco meu tempo pensando sobre isso?

A última pergunta tem uma resposta fácil: o simples fato de eu não ganhar nada fazendo isso. Pois é simples e esquemático: qualquer trabalho remunerado, seja ele mental, manual ou telepático, é um pé no saco. Eu até cheguei a desenvolver todo um novo sistema político-econômico, onde as pessoas pagariam para desempenhar funções divertidas, invertendo a pirâmide social ao colocar as camadas mais baixas como capitalistas, mas o desenvolvimento de todo o projeto me pareceu muito similar à idéia de uma labuta, e isso o fez ficar chato. Enfim, é essas coisas que me fazem ter a certeza de se um dia eu virar um músico profissional ou um jogador de tênis eu iria achar tudo isso muito pedante. E também me faz crer que todos esses críticos são muito chatos por receberem dinheiro para fazer isso, menos o Rubens Ewald Filho, esse aí é de nascença mesmo.

E a conclusão dessa análise esquisita é que as coisas são muito melhores quando você paga por elas. Por isso você tem uma coleção imensa de cedês da década passada que ninguém pode meter a mão, sabe de cor a letra de todas as músicas, a ordem, os produtores, a ordem das músicas dos produtores, etc, mas não lembra nem o nome do artista que você baixou. Você não pagou por isso. Talvez seja uma lógica inconsciente que nos persiga desde os tempos imemoriais, aqueles em que todos tínhamos cabelos por todo o corpo e usávamos roupas coloridas e óculos esquisitos. De qualquer maneira, talvez o mal-estar do século seja esse: viver em tempos onde o dinheiro é tão desnecessário que só precisamos dele para virarmos umas malas e conseguirmos escrever colunas que façam algum sentido.

 
Índio Raipe estuda jornalismo, pediu demissão da revista de cavalos onde trabalhava, acha que toca guitarra, finge ser DJ e ainda por cima tem um blog. E-mail: indioraipe@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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