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Mnemosine, a deusa grega
da memória. Quadro de Dante Gabriel Rossetti. Disponível
aqui. |
No início do mês passado, o bendito HD de meu computador
deu defeito e demorei algum tempo para voltar ao ar. Fiquei duas
semanas isolado do mundo. Eis que consegui recuperar o bichinho,
embora ele esteja funcionando sabe-se lá como (aceito doações
para a compra de um HD novo), mas perdi todas as informações
gravadas no disco. Bem, não havia nada assim de muito importante,
ao menos à primeira vista. Eram alguns vídeos da PJ
Harvey e do Wilco que eu baixei na internet. Para todo o resto,
eu tinha feito um backup.
Entretanto, eu tinha me esquecido de um detalhe. Não havia
feito cópias das mensagens gravadas em meu outlook. E foi
tudo pro saco. Perdi toda a lista de assinantes do ABACAXI ATÔMICO
(mais de 1500 emails...), minha lista particular de contatos. Eu
sei, eu sei, foi um baita vacilo. Mas o que deixou mais sentido
foi perder algumas correspondências de valor inestimável.
Perdi emails enviados por amigos na época em que minha mãe
faleceu, um email muito bacana de um amigo relembrando nossos velhos
tempos nos anos 80 quando estudávamos juntos e praticamente
todas as cartas trocadas entre eu e uma amiga muito querida ao longo
de mais de três anos de amizade.
Tudo se perdeu para sempre.
E é engraçado que a tecnologia que dispomos não
necessariamente protege a informação a ser arquivada.
Se tivesse guardado essas correspondências em papel, arquivado
à moda antiga, certamente gastaria muito mais espaço
físico, mas elas provavelmente estariam bem mais protegidas.
Dependemos muito hoje em dia da tecnologia, mas o velho papel rabiscado
ainda está longe de perder seu espaço, tendo em vista
esses imprevistos da informática.
Por incrível que pareça, o que está no papel
está mais bem protegido contra o ataque do tempo, esse inimigo
inexorável das lembranças, do que as mídias
digitais. Isso porque quem guarda seus dados nessas mídias
tem que ficar esperto com os riscos que esses materiais se estraguem,
o que acontece mais cedo ou mais tarde. Daí tem que migrar
esses dados para novas mídias, num processo constante. E
se essas mídias se tornarem impossíveis de serem lidas
com o desenvolvimento de novas tecnologias? O papel com a escrita
continuará tendo suas informações sendo acessadas
por aqueles que souberem ler (basta conservar o material), mas tente
abrir algum arquivo de texto que esteja gravado num jurássico
disquete de cinco polegadas. E o que era um disquete desses quinze
anos atrás?
Esta discussão sobre armazenamento de informações
me leva a uma questão: por que afinal nos apegamos tanto
a memórias, lembranças, recordações?
Por que ansiamos tanto por guardar coisas que nos remetam a sentimentos
vividos num passado que sempre tende a se tornar cada vez mais longínquo?
É pra manter esse passado intacto, indelével? É
para se agarrar a um pedaço da vida contida ali, naquelas
informações, na esperança de transcender à
morte sempre iminente? Deixar um legado de nós mesmos ao
futuro, para que sobrevivamos ao nosso próprio desaparecimento
físico?
Nossas lembranças são coisas que não existem
mais? Certamente, mas conscientemente não nos damos conta
disso. Aquela emoção, aquele sentimento, aquela experiência
jamais se repetirão. Uma das maiores bobagens que alguns
incautos repetem à exaustão é a de que "a
história se repete como farsa". Nada mais falso. Cada
novo dia é uma experiência nova e dinâmica, cabe
a cada um de nós dar sentido a essa experiência. E,
para isso, talvez seja melhor desapegarmos um pouco de nossas memórias
para que possamos, livres das algemas do passado, nos atirarmos
de cabeça num futuro que só será promissor
se realmente acreditarmos nele.
Lembramos de coisas das quais por si próprias já
não existem. Por que essa insistência? Porque isso
nos faz esquecer um pouco de nossa pequenez e transitoriedade. Afinal,
o passado é o que fomos, e ainda somos algo deste passado
porque o carregamos conosco. E se não nos tornarmos escravos
de nosso passado, de nossas lembranças, elas nos serão
muito úteis, porque é impossível amadurecer
sem ter o passado como referência. Entretanto, é impossível
construir coisas novas tendo apenas o que já aconteceu como
parâmetro, sem olhar para frente e sonhar, planejar, acreditar.
Conversando com esta minha amiga, contei a ela não sem esconder
a minha tristeza sobre o fato de ter perdido nossas correspondências.
Ela me disse então que eu poderia colocar aquilo como um
novo marco em minha vida. Uma nova vida se iniciaria ali, com novos
planos, novos projetos, novas experiências e novos papos gostosos
com ela. Novas cartas, risadas, puxões de orelha mútuos,
conversas francas, lágrimas. Nossa amizade recomeçou.
Mas não do "ponto zero", afinal de contas ainda
que não tenha mais o conteúdo físico daquelas
centenas de correspondências eletrônicas trocadas em
mais de três anos, certamente essas cartas estão guardadas
em nossos corações. Em nossas memórias pessoais.
O ser humano guarda as coisas com pertinácia exagerada porque...
bem, porque é um ser eminentemente teimoso. É da natureza
das coisas que elas próprias se percam, se destruam, se transformem.
É a lei da decadência, da morte. Tudo se acaba, nós
é que não nos conformamos com isso. Daí tentamos
guardar todas as informações que podemos e dispomos,
mas a luta contra o tempo é feroz, sempre estaremos em desvantagem,
esforçando-nos freneticamente e tolamente para arquivarmos
em papéis, telas, celulóide, mídia digital
sentimentos, expressões, arte... vida. Vida que não
pode ser contida nessa matéria tosca, destinada a ser engolida
pela poeira das décadas e dos séculos. Vida que transcende
à matéria, ao menos em nosso desejo pleno de sermos
imortais.
Seria o sonho humano de participar da eternidade um indício
de nossa sobrevivência à morte? Honestamente, acredito
que sim. E, mais do que acredito, espero, às vezes com misto
de ansiedade e curiosidade. Feliz ano novo para todos.

Essa coluna é dedicada ao amigo Pablo Villaça. Força
aí, cara.
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