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Beagá, 02 de janeiro de 2006 d.C.
 
Memórias
Por Cajabis
 
Mnemosine, a deusa grega da memória. Quadro de Dante Gabriel Rossetti. Disponível aqui.

No início do mês passado, o bendito HD de meu computador deu defeito e demorei algum tempo para voltar ao ar. Fiquei duas semanas isolado do mundo. Eis que consegui recuperar o bichinho, embora ele esteja funcionando sabe-se lá como (aceito doações para a compra de um HD novo), mas perdi todas as informações gravadas no disco. Bem, não havia nada assim de muito importante, ao menos à primeira vista. Eram alguns vídeos da PJ Harvey e do Wilco que eu baixei na internet. Para todo o resto, eu tinha feito um backup.

Entretanto, eu tinha me esquecido de um detalhe. Não havia feito cópias das mensagens gravadas em meu outlook. E foi tudo pro saco. Perdi toda a lista de assinantes do ABACAXI ATÔMICO (mais de 1500 emails...), minha lista particular de contatos. Eu sei, eu sei, foi um baita vacilo. Mas o que deixou mais sentido foi perder algumas correspondências de valor inestimável. Perdi emails enviados por amigos na época em que minha mãe faleceu, um email muito bacana de um amigo relembrando nossos velhos tempos nos anos 80 quando estudávamos juntos e praticamente todas as cartas trocadas entre eu e uma amiga muito querida ao longo de mais de três anos de amizade.

Tudo se perdeu para sempre.

E é engraçado que a tecnologia que dispomos não necessariamente protege a informação a ser arquivada. Se tivesse guardado essas correspondências em papel, arquivado à moda antiga, certamente gastaria muito mais espaço físico, mas elas provavelmente estariam bem mais protegidas. Dependemos muito hoje em dia da tecnologia, mas o velho papel rabiscado ainda está longe de perder seu espaço, tendo em vista esses imprevistos da informática.

Por incrível que pareça, o que está no papel está mais bem protegido contra o ataque do tempo, esse inimigo inexorável das lembranças, do que as mídias digitais. Isso porque quem guarda seus dados nessas mídias tem que ficar esperto com os riscos que esses materiais se estraguem, o que acontece mais cedo ou mais tarde. Daí tem que migrar esses dados para novas mídias, num processo constante. E se essas mídias se tornarem impossíveis de serem lidas com o desenvolvimento de novas tecnologias? O papel com a escrita continuará tendo suas informações sendo acessadas por aqueles que souberem ler (basta conservar o material), mas tente abrir algum arquivo de texto que esteja gravado num jurássico disquete de cinco polegadas. E o que era um disquete desses quinze anos atrás?

Esta discussão sobre armazenamento de informações me leva a uma questão: por que afinal nos apegamos tanto a memórias, lembranças, recordações? Por que ansiamos tanto por guardar coisas que nos remetam a sentimentos vividos num passado que sempre tende a se tornar cada vez mais longínquo? É pra manter esse passado intacto, indelével? É para se agarrar a um pedaço da vida contida ali, naquelas informações, na esperança de transcender à morte sempre iminente? Deixar um legado de nós mesmos ao futuro, para que sobrevivamos ao nosso próprio desaparecimento físico?

Nossas lembranças são coisas que não existem mais? Certamente, mas conscientemente não nos damos conta disso. Aquela emoção, aquele sentimento, aquela experiência jamais se repetirão. Uma das maiores bobagens que alguns incautos repetem à exaustão é a de que "a história se repete como farsa". Nada mais falso. Cada novo dia é uma experiência nova e dinâmica, cabe a cada um de nós dar sentido a essa experiência. E, para isso, talvez seja melhor desapegarmos um pouco de nossas memórias para que possamos, livres das algemas do passado, nos atirarmos de cabeça num futuro que só será promissor se realmente acreditarmos nele.

Lembramos de coisas das quais por si próprias já não existem. Por que essa insistência? Porque isso nos faz esquecer um pouco de nossa pequenez e transitoriedade. Afinal, o passado é o que fomos, e ainda somos algo deste passado porque o carregamos conosco. E se não nos tornarmos escravos de nosso passado, de nossas lembranças, elas nos serão muito úteis, porque é impossível amadurecer sem ter o passado como referência. Entretanto, é impossível construir coisas novas tendo apenas o que já aconteceu como parâmetro, sem olhar para frente e sonhar, planejar, acreditar.

Conversando com esta minha amiga, contei a ela não sem esconder a minha tristeza sobre o fato de ter perdido nossas correspondências. Ela me disse então que eu poderia colocar aquilo como um novo marco em minha vida. Uma nova vida se iniciaria ali, com novos planos, novos projetos, novas experiências e novos papos gostosos com ela. Novas cartas, risadas, puxões de orelha mútuos, conversas francas, lágrimas. Nossa amizade recomeçou. Mas não do "ponto zero", afinal de contas ainda que não tenha mais o conteúdo físico daquelas centenas de correspondências eletrônicas trocadas em mais de três anos, certamente essas cartas estão guardadas em nossos corações. Em nossas memórias pessoais.

O ser humano guarda as coisas com pertinácia exagerada porque... bem, porque é um ser eminentemente teimoso. É da natureza das coisas que elas próprias se percam, se destruam, se transformem. É a lei da decadência, da morte. Tudo se acaba, nós é que não nos conformamos com isso. Daí tentamos guardar todas as informações que podemos e dispomos, mas a luta contra o tempo é feroz, sempre estaremos em desvantagem, esforçando-nos freneticamente e tolamente para arquivarmos em papéis, telas, celulóide, mídia digital sentimentos, expressões, arte... vida. Vida que não pode ser contida nessa matéria tosca, destinada a ser engolida pela poeira das décadas e dos séculos. Vida que transcende à matéria, ao menos em nosso desejo pleno de sermos imortais.

Seria o sonho humano de participar da eternidade um indício de nossa sobrevivência à morte? Honestamente, acredito que sim. E, mais do que acredito, espero, às vezes com misto de ansiedade e curiosidade. Feliz ano novo para todos.

Essa coluna é dedicada ao amigo Pablo Villaça. Força aí, cara.

 
Cajabis é professor de história, psicólogo, estudante de cinema, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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