Beagá, Terça, 30 de abril de 2002 d.C.

E-mail para esta coluna: cajabis@abacaxiatomico.com.br

Eu fico puto da vida

Eu fico puto da vida quando ligo a tevê e vejo alguma chamada para algum programa idiota, tipo a Casa dos Artistas ou a novela O Clone. Aliás, eu parei de assisti-la, não agüento mais as lamúrias da Jade, a Mel(da) aspirador de pó, o panaca do Lucas e o retardado do Léo... Isso cansa, né brinquedo não! Fora o ridículo que é a trama da novela, isso aí nem levo em conta.

Eu fico puto da vida quando estou assistindo telejornal e noticiam a crise entre palestinos e israelenses. Um assassino chamado Ariel Sharon é primeiro-ministro de Israel e a comunidade internacional se omite ao condenar o massacre de civis pelo exército comandado por ele.

Eu fico puto da vida assistindo televisão, e daí vejo a violência por aqui mesmo, debaixo do nosso nariz. Não precisa ir para o Oriente Médio, afinal de contas aqui no Brasil são quarenta mil homicídios por ano, número digno de uma guerra civil.

Eu fico puto da vida quando aparece qualquer menção a Xuxa. Na verdade, não tenho nenhuma simpatia por essa moça. Acho que ela é um câncer que detonou toda uma geração de crianças, transformando-as em imbecis como ela. O que essa mulher tem a oferecer a nossas crianças? Aliás, em qual país do mundo uma ex-atriz de filmes baixo nível se tornaria apresentadora de programas infantis? Quem falou que o Brasil não é um país cheio de oportunidades...

Eu fico puto da vida com a exploração da violência promovida pelas redes de televisão. Linha Direta, programa do João Kleber, Ratinho e outras porcarias banalizam a morte de uma forma assustadora. O que será que faz com que as pessoas assistam algo tão degradante quanto o desrespeito ao ser humano, ao outro, em rede nacional? Por que as pessoas se deixam rebaixar tanto?

Voltando à Casa dos Artistas, agora Globo e SBT lançam programas para produzir novos talentos na música. Mais porcaria pra tocar no rádio, para descer goela abaixo na garganta de um público cada vez mais acéfalo - a última foi a Kelly Key, é assim mesmo que se escreve? E milhares de garotas se inscreveram para serem famosas no programa do SBT. E para ser famoso vale tudo. Inclusive, ser um perfeito idiota, o que corresponde certamente a 98% das meninas que se inscreveram para o programa - não coloco 100% porque estou sendo bonzinho, mas concorrer no Popstars do SBT é indicativo de idiotia.

Vale-se o quanto se aparece, não o quanto se fala, se questiona, se trabalha, se esforça. Falar é dizer imbecilidades, como a Luana Piovani falando sobre sua própria bunda; questiona-se o corpo da Feiticeira e se a Syang deu ou não deu pro tal do supergêmeo; o trabalho é posar nu ou nua para uma revista alto nível como a G Magazine ou a Sexy e dizer que foi "estafante"; o esforço é para alcançar o "sucesso" a qualquer custo. Por mais que você seja um completo idiota e esteja fadado ao fracasso, pelo menos vão te usar até te transformar num produto de vendas viável, ou então descartá-lo, quando você deixar de ser uma novidade.

É por isso que eu cada vez menos assisto televisão.

O que não estou ouvindo, mas é muito bacana

The Doors é o primeiro disco da banda homônima, foi lançado em 1967 e foi o melhor momento da turma de Jim Morrison. A sua voz grave inconfundível e os tecladinhos viajantes de Ray Manzarek realmente marcaram época. Faz um tempinho que eu não escuto este cd, a dica vale também para mim mesmo... Aliás, a gente aqui no site gosta muito de pegar no pé dos fãs dos Doors - não é pela banda, é pelos caras mesmo, afinal não tem coisa mais chata que fãs de Doors, Raul Seixas e Deep Purple. Mas este disco, no caso, é muito bom - exceto a entediante "The End", aquela música épica com mais de onze minutos de duração que não há são Francisco que agüente. As melhores músicas do álbum são justamente as proscritas: "Twentieth Century Fox", "Alabama Song (Whiskey Bar)", "I Looked at You" - esta última soberba. Ouça estas canções e compare-as com os sucessos "Break on Through (To the Other Side)" e, especialmente, com a badalada "Light My Fire".

Cajabis Cannabis é professor de história e escreve neste espaço às terças-feiras.

 

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