| |
| Beagá,
Terça, 04 de dezembro de 2001 d.C. |
| E-mail para esta coluna: cajabis@abacaxiatomico.com.br Alguma coisa... Nenhuma banda conseguiu o que os Beatles conseguiram: transformar padrões de comportamento e marcar toda a geração dos anos 60. Claro, começaram como quatro rapazes bem apessoados, vestindo roupas comportadas, um penteado meio "rebelde", levando adiante o rock'n roll dos anos 50 de Little Richard, Elvis Presley e etc. Neste ponto, não interessa tanto a qualidade musical da banda, mas o que ela representou. A partir daquele som rebelde (não contestador, ao menos na fase "iê-iê-iê") os caras promoveram uma revolução, promovida pela mídia que os transformou no primeiro grande produto artístico de massa do século XX. Há quem diga que os Beatles não teriam sido os Beatles se não fosse... a fita cassete. E essa afirmação tem lógica! A popularização dos cassetes (você se lembra deles?) nos anos 60 levou a uma maior exposição dos artistas daquela época, e as fitas eram a grande novidade entre a galera. E quem gravava uma fita de um artista pra entrar na onda, ia até a loja e comprava o disco do sujeito. No caso dos Beatles, a televisão e o cinema também foram fortíssimos aliados. A tietagem das fãs extrapolou tudo o havia antes: as garotas suspiravam por Frank Sinatra, por exemplo, mas a histeria coletiva que os ingleses provocaram não tinha precedentes na história da música. A partir de 66, os Beatles pararam de fazer shows e deram uma guinada na carreira. Revolver, um dos álbuns mais extraordinários de todos os tempos, foi o sinal claro de que a revolução que queriam promover estava na música e passava pelos costumes. Paul, George, John e Ringo não sabiam por onde iam, mas sabiam que queriam algo novo. O álbum seguinte, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, elevou o rock'n'roll e o pop a um status antes inimaginado: aquilo é rock ou o que é, então? Que tipo de arte é essa? Ficava claro nesses dois álbuns, em faixas como "Tomorrow Never Knows" e "She's Leaving Home", entre outras, o que estava acontecendo naqueles idos: drogas, liberdade (em todos os sentidos), ruptura com tradições e antigos valores, outrora incontestáveis. "Taxman" (de George Harrison) protesta contra os altos impostos - aqueles garotos, protestando? O mito dos Beatles se construiu, portanto, em cima dos seus méritos enquanto artistas (claro), mas também em cima da turbulenta época em que atuaram e pela mídia, que começava a ganhar força na época. O mais interessante é como eles acabaram tendo o seu discurso inovador e de caráter contestatório totalmente incorporado. Cantar "All You Need Is Love" (nº 1 nas paradas...) soa bastante hipócrita para uma banda onde os componentes são podres de ricos. Amor é tudo?... Se o amor vence tudo, como não pode vencer as brigas e as dissidências internas, cada vez mais evidentes na banda a partir de 1968? Trata-se do clássico caso de "o sucesso subiu à cabeça": Paul, George, John e Ringo se transformaram em mitos, transcenderam a eles próprios. Isso foi algo que fugiu ao controle deles, pessoas de carne e osso, mas que acabaram dotadas de uma inabalável aura de santidade pop. São imortais - ou, pelo menos, deveriam ser. E a dissolução da banda, decretada oficialmente em 1970, ajudou a eternizar esse mito - daí o trocadilho "Beatles 4ever". Em apenas oito anos, um vendaval passou pela música pop e até hoje sentimos seus efeitos. E cada um foi pro seu lado, com carreiras solo em geral muito pouco significativas - ainda mais se compararmos com o que os quatro fizeram juntos. Paul McCartney está pra lá de certo em admitir que deve aos Beatles todo o que é, hoje. Ele afirmou isso em uma entrevista à revista Seleções, do mês passado - se você é fã dos Beatles, descole essa revista. E quando morre um beatle, surge um sentimento irreparável de perda. Ao mesmo tempo que os mitos não morrem, são entidades eternas, eles são apenas seres humanos, que sentem raiva, prazer, ódio, fumam, usam drogas, enfiam o dedo na orelha, são assassinados por um fã enloquecido ou morrem de câncer. Mesmo já prevista pelo seu sabido estado de saúde, que já era grave há algum tempo, a morte de George Harrison nos lembra que os mitos se eternizam pela sua arte, não por si mesmos. Logo, os mitos morrem, também, e deveríamos nos acostumar com essa perda. Afinal de contas, "todas as coisas devem passar". É certo que os Beatles serão lembrados... Por quanto tempo? Será que no século 23 vão ouvir as músicas dos Quatro Fantásticos como hoje se ouve Mozart? No século 25 vão render-lhes homenagens por "Eight Days a Week", "Here Comes The Sun" ou "The Long and Winding Road"? O fato é que senti uma enorme nostalgia de um tempo que não vivi, uma tristeza não só por amar os Beatles, mas também porque seria um sonho poder vê-los juntos, e esse sonho é pra lá de impossível. Vi pela televisão todos aqueles fãs vestidos como eles, mais velhos, cabelos brancos, gente que viveu uma época e faz o possível para que ela ainda exista, de alguma forma. Se por um lado são ingênuos, são mais felizes, porque conseguem eternizar um sentimento por algo que não existe mais, a não ser em seus corações. E se alguém está vivo no coração de outra pessoa, aí é que esse alguém está mais vivo ainda, por mais contraditório que isso possa parecer. O mais fantástico nos Beatles é essa mistura de mito e realidade: quatro rapazes comuns que se tornaram ícones de um tempo e de uma cultura, mas que não puderam deixar de ser apenas quatro rapazes, que foram envelhecendo durante os anos que se passaram. Muito da solidão que Paul e Ringo devem estar sentindo agora é que o tempo é inexorável, e reduziu, agora pela metade, a maior instituição do pop em todos os tempos. São apenas dois beatles - o que parecia eterno, ao menos em nossos sonhos, se desvanece, aos poucos. E a gente não se acostuma com isso. Não nos acostumamos com a marcha desenfreada do tempo e nem com as mudanças tão aceleradas que acontecem. Não fomos feitos para tantas mudanças ou pensamos que o ontem era sempre melhor ("oh, I believe in yesterday...")? A mãe de um amigo meu, assistindo pela tevê as notícias sobre a morte de Harrison, comentou, com lágrimas nos olhos: "as coisas boas estão se acabando". É. E nós também. ***** Sou daqueles que acredita que "Something" é capaz de derreter qualquer coração gelado - e levei a maior tinta por isso, algum tempo atrás. Não, não é não, música nenhuma é capaz disso. Os meus impávidos e freqüentes leitores sabem porquê. Mas não adianta, eu não aprendo e não tenho a mínima vergonha de admitir isso: gostaria de fazer uma serenata pra uma garota bem legal tocando essa música. Ainda pretendo fazer isso. Falta só a garota...
Músicas de George Harrison, em sua homenagem... Semana que vem falo sobre o crássico jurássico All Things Must Pass. Esta semana vou curtir "I Need You", "While My Guitar Gently Weeps", "I Want to Tell You", "Long, Long, Long" (linda, linda, linda), "I Me Mine", etc. A produção de Harrison nos Beatles foi pequena e discreta, porém vigorosa. ***** Esta coluna é dedicada ao amigo Ydarci, que faleceu na sexta-feira, dia 23 de novembro. A essa hora, deve estar no céu, quem sabe curtindo um sonzinho do John com o George?... |
Cajabis Cannabis é professor de história e escreve neste espaço às terças-feiras. |
|
©
Todos os direitos reservados
Melhor visualizado em 800x600 Recomendamos Internet Explorer 4.0 ou superior |