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Beagá, 25 de agosto de 2003 d.C.

 
Os mentirosos (I)
Por Cajabis Cannabis
 

"Sinto-me feliz todas as noites quando assisto ao noticiário. Porque, no noticiário da Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz".
General Garrastazu Médici, em 1972.

Na quarta-feira, dia 06 de agosto, morreu talvez o homem mais poderoso do Brasil neste último quarto de século. Como não poderia deixar de ser, a Globo melecou a programação inteirinha com uma saraivada de reportagens, matérias e o diabo a quatro sobre a vida do maior empreendedor das comunicações da história brasileira - Roberto Marinho.

A forçação de barra foi tão grande que colocaram até umas carpideiras ao lado do caixão do sujeito. Não sei se é mania de brasileiro, geralmente choramos por quem morreu como se o infeliz fosse o mais infeliz dos homens só porque deixou este vale de lágrimas direto para o além, mesmo que, durante sua vida, o tenhamos olhado com tremenda indiferença, descaso até. Bem, no caso de Roberto Marinho, a Globo até tentou transformá-lo em um Ayrton Senna da imprensa, pra provocar uma comoçãozinha nacional. Isso é bom, né. Até o Lula decretou luto oficial por três dias pela morte do jornalista. Ele era realmente jornalista? Ah, deixa pra lá. Isso deve ser o que menos interessa agora.

Se por um acaso Roberto Marinho criou uma fundação e é um grande incentivador das artes, construiu um império de comunicações que é o maior da América Latina e dizem que, pessoalmente, era um sujeito elegante e polido, não faz muito sentido transforma-lo em um anjinho logo depois de sua morte. Sempre esteve ao lado dos poderosos, das elites, bajulou e lambeu a bota de militares para conseguir privilégios. Não hesitou em vilipendiar a ética ao omitir notícias sobre a campanha das Diretas Já, o maior movimento popular da história do país. Ajudou explicitamente a eleição de um psicótico à Presidência da República. Sustentou e apoiou durante oito anos o desastroso governo de FHC. A balança pende para quê lado? Leia esta matéria da Carta Capital e tire suas próprias conclusões.

Bem, ser conservador ou ser de direita ou o que quer que seja não é o problema aqui. O problema está em monopolizar a informação. E, até muito recentemente, a Globo não era apenas o primeiro lugar da audiência, mas era praticamente a única referência entre as redes de televisão no país. Até hoje sabemos muito bem que a Globo é, disparado, a maior rede de televisão do Brasil e, embora tenha perdido proporcionalmente participação no mercado publicitário pelo natural crescimento das concorrentes, continua inconteste em primeiro lugar.

A Globo usa de sua posição para informar da forma que quer, do jeito que bem entender. Essa política absurda de concessão de emissoras de tevê transforma os seus donos em coronéis da notícia, que controlam verdadeiros currais, onde as pessoas quase sempre têm acesso somente ao que eles permitem. E estes, numa troca de favores, estão sujeitos a um ou outro político, que se utiliza das emissoras para manter sua base eleitoral.

Frente ao poder de Roberto Marinho, não havia alternativas. E mesmo sendo lícito a ele expor e defender as idéias que acreditava (democracia é liberdade de expressão), não hesitava em omitir e manipular (dois verbos mais "leves", que encobrem um terceiro verbo, esse mais direto, "mentir") fatos. Democracia é ter o direito de se expressar, e não usar desse direito para sufocar outras manifestações, que lhe sejam contrárias. Marinho sempre agiu nos bastidores para manter o seu monopólio e seus interesses incólumes.

Uma sociedade democrática precisa de uma imprensa livre e verdadeiramente democrática, onde haja uma saudável discordância de linhas editoriais e o público tenha a opção de buscar referências em outros meios, outras revistas, outros telejornais. Não existe democracia onde há controle da informação, onde ela é devidamente "filtrada" e "maquiada" por interesses de uns e de outros, mesmo que de forma pouco perceptível. Temos que ter opções, temos que buscar outras referências, porque somente uma pessoa consciente do que ocorre ao seu redor se torna cidadã. E isso se adquire com o questionamento sobre a realidade que nos cerca.

Pretendo voltar a este tema nas próximas colunas. Peço desculpas a meus estimados leitores pela minha ausência nesse espaço por tão longo tempo, o que espero não voltar a acontecer. Na semana que vem, vou falar sobre a mostra de cinema Indie 2003, que estou acompanhando no Usina Unibanco de Cinema, fazendo um apanhado geral sobre o evento e um comentário rápido sobre os filmes que assisti. E na semana seguinte volto a falar sobre imprensa e manipulação. Vai a dica: comparem as reportagens da Veja e da Carta Capital sobre o atentado à sede da ONU e a morte de Sérgio Vieira de Mello (a matéria da Veja só pode ser lida na revista impressa - revista "boa" é isso aí...).

 
Cajabis Cannabis é professor de história, finalista do curso de psicologia, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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