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"Sinto-me
feliz todas as noites quando assisto ao noticiário. Porque, no noticiário
da Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz".
General Garrastazu Médici, em 1972.
Na
quarta-feira, dia 06 de agosto, morreu talvez o homem mais poderoso
do Brasil neste último quarto de século. Como não poderia deixar
de ser, a Globo melecou a programação inteirinha com uma saraivada
de reportagens, matérias e o diabo a quatro sobre a vida do maior
empreendedor das comunicações da história brasileira - Roberto Marinho.
A forçação
de barra foi tão grande que colocaram até umas carpideiras ao lado
do caixão do sujeito. Não sei se é mania de brasileiro, geralmente
choramos por quem morreu como se o infeliz fosse o mais infeliz
dos homens só porque deixou este vale de lágrimas direto para o
além, mesmo que, durante sua vida, o tenhamos olhado com tremenda
indiferença, descaso até. Bem, no caso de Roberto Marinho, a Globo
até tentou transformá-lo em um Ayrton Senna da imprensa, pra provocar
uma comoçãozinha nacional. Isso é bom, né. Até o Lula decretou luto
oficial por três dias pela morte do jornalista. Ele era realmente
jornalista? Ah, deixa pra lá. Isso deve ser o que menos interessa
agora.
Se
por um acaso Roberto Marinho criou uma fundação e é um grande incentivador
das artes, construiu um império de comunicações que é o maior da
América Latina e dizem que, pessoalmente, era um sujeito elegante
e polido, não faz muito sentido transforma-lo em um anjinho logo
depois de sua morte. Sempre esteve ao lado dos poderosos, das elites,
bajulou e lambeu a bota de militares para conseguir privilégios.
Não hesitou em vilipendiar a ética ao omitir notícias sobre a campanha
das Diretas Já, o maior movimento popular da história do país. Ajudou
explicitamente a eleição de um psicótico à Presidência da República.
Sustentou e apoiou durante oito anos o desastroso governo de FHC.
A balança pende para quê lado? Leia esta matéria da Carta
Capital e tire suas próprias conclusões.
Bem,
ser conservador ou ser de direita ou o que quer que seja não é o
problema aqui. O problema está em monopolizar a informação. E, até
muito recentemente, a Globo não era apenas o primeiro lugar da audiência,
mas era praticamente a única referência entre as redes de televisão
no país. Até hoje sabemos muito bem que a Globo é, disparado, a
maior rede de televisão do Brasil e, embora tenha perdido proporcionalmente
participação no mercado publicitário pelo natural crescimento das
concorrentes, continua inconteste em primeiro lugar.
A Globo
usa de sua posição para informar da forma que quer, do jeito que
bem entender. Essa política absurda de concessão de emissoras de
tevê transforma os seus donos em coronéis da notícia, que controlam
verdadeiros currais, onde as pessoas quase sempre têm acesso somente
ao que eles permitem. E estes, numa troca de favores, estão sujeitos
a um ou outro político, que se utiliza das emissoras para manter
sua base eleitoral.
Frente
ao poder de Roberto Marinho, não havia alternativas. E mesmo sendo
lícito a ele expor e defender as idéias que acreditava (democracia
é liberdade de expressão), não hesitava em omitir e manipular (dois
verbos mais "leves", que encobrem um terceiro verbo, esse mais direto,
"mentir") fatos. Democracia é ter o direito de se expressar, e não
usar desse direito para sufocar outras manifestações, que lhe sejam
contrárias. Marinho sempre agiu nos bastidores para manter o seu
monopólio e seus interesses incólumes.
Uma
sociedade democrática precisa de uma imprensa livre e verdadeiramente
democrática, onde haja uma saudável discordância de linhas editoriais
e o público tenha a opção de buscar referências em outros meios,
outras revistas, outros telejornais. Não existe democracia onde
há controle da informação, onde ela é devidamente "filtrada" e "maquiada"
por interesses de uns e de outros, mesmo que de forma pouco perceptível.
Temos que ter opções, temos que buscar outras referências, porque
somente uma pessoa consciente do que ocorre ao seu redor se torna
cidadã. E isso se adquire com o questionamento sobre a realidade
que nos cerca.

Pretendo
voltar a este tema nas próximas colunas. Peço desculpas a meus estimados
leitores pela minha ausência nesse espaço por tão longo tempo,
o que espero não voltar a acontecer. Na semana que vem, vou falar
sobre a mostra de cinema Indie 2003, que estou acompanhando no Usina
Unibanco de Cinema, fazendo um apanhado geral sobre o evento e um
comentário rápido sobre os filmes que assisti. E na semana seguinte
volto a falar sobre imprensa e manipulação. Vai a dica: comparem
as reportagens da Veja e da Carta
Capital sobre o atentado à sede da ONU e a morte de Sérgio
Vieira de Mello (a matéria da Veja só pode ser lida na revista
impressa - revista "boa" é isso aí...).
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