|
No
último dia 11 de abril, o governo de Cuba executou sumariamente
três homens que na mesma semana haviam seqüestrado uma
balsa para tentarem chegar aos Estados Unidos. A repressão
do governo da ilha aos oposicionistas vem se tornando mais dura
nos últimos meses, quando 75 dissidentes foram condenados
à prisão sob a esdrúxula acusação
de estarem participando de um complô contra o Comandante Fidel.
Alguma prova? Bem... não precisa, né? Fidel falou,
tá falado.
No
caso específico dos três infelizes que foram para o
"paredón", é chocante constatar que o direito
à defesa dos acusados foi solenemente ignorado. Onde está
o Código de Direito? Fidel enrolou as páginas do livro
e fumou como charuto? Onde está a legalidade? É verdade
que seqüestro é um crime terrível, aqui, ali
ou em qualquer lugar; mas todo criminoso tem direito à defesa,
e não é preciso ser nenhum juiz do Supremo Tribunal
Federal para reconhecer isso. Não há dúvidas
que esse lamentável episódio e o seu desfecho servem
para comprovar a natureza tirânica e ditatorial de Fidel Castro.
Uma
das reações contrárias mais contundentes à
execução dos seqüestradores e que mais repercutiu
no cenário internacional foi a do escritor português
José Saramago. O prêmio Nobel de literatura, um dos
mais respeitados intelectuais da esquerda, se posicionou de encontro
à repressão do regime cubano e publicou os seguintes
dois parágrafos no jornal espanhol El País,
tornando público seu rompimento com Cuba:
"Cheguei
até aqui. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho e eu fico.
Divergir é um direito que se encontra e se encontrará inscrito com
tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos passadas,
presentes e futuras. Divergir é um ato irrenunciável de consciência.
Pode ser que divergir conduza a traição, mas isso sempre tem que
ser demonstrado com provas irrefutáveis. Não acredito que se tenha
agido sem deixar margem à duvidas no julgamento recente de onde
sairam condenados a penas desproporcionais os cubanos dissidentes.
E não se entende, se houve conspiração, porque não foi expulso o
encarregado da Seção de Interesses dos EUA em Havana, a outra parte
da conspiração.
Agora
chegam os fuzilamentos. Sequestrar um barco ou um avião é um crime
severamente punível em qualquer país do mundo, mas não se condena
a morte os sequestradores, principalmente tendo em conta que não
houve vítimas. Cuba não ganhou nenhuma batalha heróica fuzilando
esses três homens, mas perdeu minha confiança, quebrou minhas esperanças,
traiu meus sonhos. Cheguei até aqui."
Em
1959, Fidel Castro e sua guerrilha heroicamente botaram pra correr
a corrupta e imoral ditadura de Fulgêncio Batista, sustentada
pelos Estados Unidos havia mais de 20 anos. Logo, o novo governo
alinhou-se à antiga União Soviética, tornando-se
um expoente do comunismo em pleno quintal norte-americano. Além
de afrontar o imperialismo ianque, a revolução socialista
em Cuba promoveu uma série de incontestáveis conquistas
sociais, tais como um avanço notável na saúde,
na urbanização, na educação. A expectativa
de vida saltava a níveis de primeiro mundo, o mesmo se podendo
dizer dos índices de mortalidade infantil. Cuba virou uma
espécie de vitrine para o pessoal da esquerda latino-americana,
uma coisa do tipo "tá vendo, ali deu certo e a utopia
da igualdade se concretizou!"
Esses
fatos são incontestáveis, em Cuba todo mundo tem casa,
comida, educação, saúde, enfim direitos garantidos
pelo Estado. Em troca, ninguém tem o direito de ser dissidente...
Mas a situação do país começou a se
complicar com a crise da União Soviética e o colapso
do socialismo: o regime cubano perdeu a sua mesada (recebia petróleo
e vendia cana-de-açúcar para os camaradas a preços
bastante vantajosos), e não pôde mais contar com o
forte apoio econômico e político dos russos.
As
vozes de descontentamento se agudizaram à medida em que os
efeitos do bloqueio econômico imposto à ilha pelos
Estados Unidos se fizeram sentir mais fortes. A crise é terrível,
a situação econômica do país é
desoladora. Junte-se a isso as restrições às
liberdades individuais e temos um caldo explosivo. E
isso explica em parte a recente onda de prisões ordenadas
por Fidel Castro, que cresce junto com o (velado) descontentamento
popular. Também há aqueles que apostam que Fidel está
aproveitando o momento em que a opinião pública mundial
está muito ocupada em xingar o George W. Bush, não
prestando atenção em mais nada que lhe acontece em
volta. Daí, resolveu baixar o cacete sem que ninguém
perceba.
Mas
o histórico do ditador é bem antigo. O regime comunista
imposto aos cubanos há mais de quarenta anos é cruel,
se impôs na base da força bruta, perseguindo dissidentes
e toda e qualquer voz que (ainda que pacificamente) se colocasse
contra o governo. Não há liberdade de expressão,
não há direito de ir e vir, imprensa livre é
ficção. Ninguém pode ousar contestar o estado
das coisas, os líderes da oposição que ainda
não foram presos são vigiados de maneira agressiva
e intimidatória. Julgamentos injustos, parciais, sem que
haja garantias processuais para os acusados, são uma constante.
Em
abril de 2001, o chanceler Felipe Pérez Roque afirmou que o governo
de Cuba, nesses anos de socialismo, jamais empregara a tortura.
Mentira. Vá até a locadora e assista ao filme Antes
do Anoitecer, com o ótimo Javier Bardem no elenco. Ele
interpreta o escritor Reinaldo Arenas, dissidente político
perseguido por Fidel. A violência psicológica a qual
ele é submetido é uma coisa de outro mundo. A cena
em que o personagem tenta emigrar para os Estados Unidos sendo humilhado
pelo funcionário do governo cubano em virtude de sua homossexualidade
desperta reações de indignação em qualquer
ser humano normal. Isso sem contar as condições físicas
das prisões em que esteve preso - a solitária é
algo inacreditável, tem que ver.
E Reinaldo
Arenas foi apenas um caso, quem quiser pode acessar o site da Anistia
Internacional e conferir as denúncias da entidade contra
Cuba por violações dos direitos humanos, eu encontrei
casos relatados no site desde o ano de 1993 até hoje. Não
apenas a Anistia Internacional, mas a Human Rights Watch (HRW) e
a Repórteres sem Fronteiras têm protestado frente à
repressão do regime cubano já faz um bom tempo.
A desculpa
da esquerda? Cuba tem vivido um "regime de exceção".
Nesse contexto, onde americanos estão ali na esquina, prontos
para o desembarque na Baía dos Porcos, as restrições
às liberdades individuais são necessárias.
Há mais de quarenta anos essa desculpa é repetida
à exaustão...
Em
entrevista
ao Portal Terra há alguns meses, o Secretário Nacional
de Estado dos Direitos Humanos (vejam bem, Direitos Humanos) Nilmário
Miranda (PT-MG) soltou essa pérola quando perguntado sobre
a situação dos direitos humanos em Cuba: "Cuba
tem uma maneira peculiar de ver os direitos humanos. Eles se orgulham
com o sistema prisional, infinitamente mais dignos e humanos que
dos países da América Latina". "Maneira peculiar?"
Ou seja: dou para vocês comida, casa, médico e vocês,
em troca, abaixem a cabeça. E já comentei sobre o
sistema prisional cubano, os processos jurídicos então...
Cuba
é uma ditadura, ponto final. E Fidel é diretamente
responsável pela enrascada em que colocou o seu país
e o seu povo, pois sempre escolheu o endurecimento ao diálogo
com seus opositores, e pela sua postura de enfrentamento com os
EUA parece que lucra com o bloqueio econômico à ilha,
pois assume o papel de vítima do governo americano, ganhando
assim simpatia internacional na América Latina ao mesmo tempo
em que mantém seu país alerta contra os inimigos -
os ianques e os dissidentes traidores da pátria, mercenários
conspiradores que estão contra a revolução,
segundo o já citado Perez Roque. Cadeia neles, sem papo.
E as críticas das organizações de direitos
humanos pela repressão? "Aqueles que criticam não
entendem a luta de Cuba por sua independência".
Saramago
parece que agora caiu da cama, depois de um longo sono profundo.
Depois de muitos anos apoiando incondicionalmente a "revolução"
(era amigo do comandante), o cara vai "ficar" (aonde?),
enquanto Cuba "seguirá seu caminho", segundo suas
declarações. Mas aonde ele estava enquanto tudo isso
acontecia na ilha de Fidel? No mês de fevereiro de 1999, em
declaração noticiada pela insuspeita Radio Havana,
Saramago havia afirmado que "o processo cubano não fracassou"
e "pedia ao Presidente cubano Fidel Castro" que continuasse
"defendendo a Revolução em seu pais". A
última declaração: "o processo que vem
decorrendo em Cuba se aproxima cada vez mais do ser humano."
Mudou
de idéia por causa desses últimos fuzilamentos? Assim,
de repente? De uma hora pra outra, Saramago descobriu que o regime
de Fidel Castro é repressor, passa por cima dos direitos humanos,
executa prisioneiros sumariamente, tortura encarcerados, prende
pessoas sem que elas tenham direito à legítima defesa... Olha só!
O "grande" escritor (não gosto de seu estilo literário,
mas isso é assunto para outro artigo) que escreveu Ensaio
Sobre a Cegueira é ele mesmo um cego! O que Fidel Castro fez
durante esses anos todos, desde que assumiu o poder? Será que todas
as "conquistas sociais" da "revolução" somente podem ser alcançadas
à custa do aniquilamento das liberdades individuais, das prisões
autoritárias, do silenciamento imposto aos opositores? Defender
o regime de Fidel Castro é e SEMPRE foi defender uma violenta e
repressora ditadura. E as outras viúvas vermelhas, que pelo
menos acordem também. O pior cego é aquele que não
quer ouvir, como dizem.
E antes
que eu encerre, só pra não deixar passar em branco:
o silêncio do governo brasileiro sobre o episódio do
fuzilamento sumário dos três seqüestradores cubanos
foi absolutamente lastimável.
|