Certa vez, Luís Fernando Veríssimo afirmou que pensar no Brasil leva, necessariamente, a pensar em bobagens. E é realmente muito difícil não pensar em alguma besteira quando pensamos na realidade de nosso país, no que ele representa para o resto do mundo e, ao menos para a maioria de seus habitantes, como é que vamos pagar as contas no final do mês. Gastamos, na verdade, muito tempo pensando em bobagens talvez porque o Brasil seja uma grande, imensa, descomunal bobagem.
E por falar em bobagens, domingo teve referendo. Fomos consultados à força (sim, porque o voto era obrigatório) para respondermos à seguinte pergunta: "o comércio de armas deve ser proibido no Brasil?" Pra começar, este referendo é uma consulta popular, mas é muito irônico que seja obrigatório responder a esta pergunta, tal como numa eleição. Você é obrigado a responder. O estado brasileiro é tão bonzinho que te obriga a pensar no que é melhor para você.
Estamos no meio de uma das maiores crises políticas da história do país, talvez a maior da nova república, provocada pelo insano projeto bolchevique petista de ocupar o poder e instaurar o "autoritarismo democrático" em nosso país. Não sei de vocês, mas estou farto de ligar a televisão e ver notícias de denúncias, deputados e senadores cínicos se defendendo e atacando, um presidente inepto se utilizando de pronunciamentos improvisados recheados com metáforas infantis, como que brincando com a inteligência do público.
Neste contexto, no último domingo decidimos se o comércio de armas de fogo deveria ou não ser proibido em nosso país. Se o comércio fosse proibido, haveria menos armas à disposição da população e haveria então queda nos índices de criminalidade? Talvez. A quantidade de armas em poder da população influencia nos índices de criminalidade? Talvez. A sensação de insegurança iria aumentar, tendo em vista que os bandidos continuariam tendo acesso a armas através do comércio ilegal e do contrabando? Talvez.
E por aí vai. O "cidadão de bem", tão evocado pelos dois lados, as frentes do "sim" e do "não", não podia confiar no que ouvia nas propagandas de rádio e televisão. Em quem acreditar, já que as duas frentes manipulavam estatísticas e depoimentos de outros "cidadãos de bem"? Os grupos do "Sim" e do "Não" pareciam mais interessados em defender interesses (e você não sabe precisar direito de quem) do que propriamente explicar, esclarecer, debater suas posições junto ao público. Propor um diálogo mais amplo junto à sociedade civil e a órgãos públicos (polícia, Congresso, o poder executivo em todas as instâncias) para buscarmos todos alternativas que sejam verdadeiramente eficazes no combate à violência parece ser algo impensável.
Assim vamos tocando nossa vidinha, no meio de muito falatório, defesa de interesses pessoais e corporativos travestidos de interesses públicos, intelectuais de merda incapazes de dialogar por absoluta falta de preparo para o debate - se meu oponente tem uma idéia diferente da minha, obviamente ele está errado e eu tenho que desqualificá-lo com minha retórica, ao invés de convidá-lo a construir uma alternativa que prejudique o menos possível a diferentes interesses. Aprender com ele? Mudar de opinião? Nem pensar, sou orgulhoso e medíocre demais para isso.
"Um Brasil sem armas" não necessariamente é um Brasil mais seguro, visto que quem já é proprietário de armas de fogo não será obrigado a se livrar delas, e "defender seus direitos" não implica o "direito" de ter um trabuco em casa e, num momento impensado, dar um tiro na fuça do meu vizinho de apartamento que está ouvindo Engenheiros do Hawaii no volume máximo.
Toda essa bobagem e os índices de violência continuam alarmantes, a polícia continua corrupta, mal equipada e mal treinada, os políticos ou são incompetentes ou são realmente mal intencionados, os ricaços preferem sonegar impostos e economizam pra gastar com sua segurança pessoal - andam de carro blindado, cercam-se de seguranças e moram em condomínios fechados. Vivemos num verdadeiro "salve-se quem puder" e agora nos perguntam se "o comércio de armas deve ser proibido no Brasil?", e ainda por cima somos obrigados a dar uma resposta? Vão pros quintos dos infernos. |