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Beagá, 15 de agosto de 2005 d.C.
 
A esquerda e as regras do jogo (Quem me viu, quem me vê)
Por Cajabis Cannabis
 

"Se eu ganhasse a Presidência para fazer o mesmo que o Fernando Henrique Cardoso está fazendo, preferiria que Deus me tirasse a vida antes. Para não passar vergonha. Porque sabe o que acontece? Tem muita gente que tem o direito de mentir, o direito de enganar. Eu não tenho. Há uma coisa que tenho como sagrada: é não perder o direito de olhar nos olhos de meus companheiros e de dormir com a consciência tranqüila de que a gente é capaz de cumprir cada palavra que a gente assume."

Luiz Inácio Lula da Silva, novembro de 2000, em entrevista à revista Caros Amigos.

Eu não vou neste artigo perder meu tempo e me irritar ainda mais descrevendo o ridículo ocaso de um governo que nem chegou a começar e se traduz na maior farsa da nossa história republicana. Comecei na verdade a escrever este artigo sobre a esquerda brasileira assim que me deparei com a seguinte notícia, publicada na Folha Online:

PSOL quer plebiscito para decidir sobre continuidade de Lula no cargo

A Executiva do PSOL se reúne na próxima semana para aprovar uma proposta para a realização de um plebiscito para o povo decidir sobre a manutenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no cargo.

A deputada Luciana Genro (PSOL-RS) disse que é inaceitável defender a proposta de impeachment nesse momento. "Seria o mesmo que aceitar [o vice-presidente José] Alencar ou Severino [Cavalcanti, presidente da Câmara] na presidência do país. Nenhum deles foi escolhido nas urnas para presidir o país."

Como assim, "nenhum deles foi escolhido nas urnas para presidir o país"? Que papo é esse? José Alencar é vice de Lula. Avisem a falastrona aí que quando a gente vota pra presidente do Brasil, também vota no vice. E que, pela Constituição Federal (talvez ela saiba o que seja isso), em caso de vacância do cargo de presidente, o vice assume. Ao votar em Lula, portanto, o povo brasileiro automaticamente também votou no candidato a vice-presidente, José Alencar, que, em caso de morte, impedimento ou renúncia do titular, deve assumir o cargo de presidente, conforme manda a lei máxima do país. E, como está previsto pela própria Constituição, se nenhum dos dois puder exercer a função de presidente do país, o presidente da câmara dos deputados deve assumir e convocar eleições.

É o que está definido na lei. Essas são, portanto, as regras do jogo democrático. E, se você entrou neste jogo, deve cumpri-las. Propor qualquer mudança, com o jogo em andamento, é golpe. O PSOL se porta hoje da mesma forma, com o mesmo oportunismo, que o PSDB quando este impôs goela abaixo do Congresso a nefasta emenda constitucional para possibilitar a reeleição do então presidente Fernando Henrique Cardoso - alguém aí ainda se lembra do escândalo da compra de votos?

Este exemplo só serve para ilustrar que a esquerda, representada aqui pelo PSOL da Heloísa Helena, é autoritária e arrogante, então de vez em quando aparece com uma proposta de "mobilização", desde que, é claro, essa mobilização possa vir a atender seus próprios interesses. Esse pessoal não sabe fazer política, são incompetentes, nunca deram certo em lugar nenhum do mundo, nunca conseguiram emplacar um projeto político em qualquer lugar do mundo - não através das vias democráticas. E depois ainda vêm falar de Cuba.

O naufrágio do governo do PT é apenas a demonstração cabal de que, para a esquerda (o PT é partido de esquerda sim, lamento muito), os fins realmente justificam os meios. A esquerda é auto-suficiente, não divide o poder, não pensa num projeto de país, mas sim na implementação de um projeto de se manter no poder, custe o que custar. A postura dos movimentos políticos de esquerda é a de existir como um fim em si mesmos. Daí você pega um cargo aqui, uma verbazinha ali, e vai se mantendo. São militantes partidários, sindicalistas, gente dos movimentos negro, feminista, de direitos humanos, de defesa dos deficientes, a turma GLS, o escambau. Essa turma toda (ou praticamente quase toda) tem orientação (ou desorientação, seria melhor dizer) de esquerda, marxista, proselitista, panfletária. Daí enchem o peito pra se dizerem defensores da causa e o escambau, mas na hora que ganham um cargozinho na máquina pública nos governos do PT (sejam municipais, estaduais ou mais recentemente no governo federal) ficam mansinhos, mansinhos. Uma beleza, todos amestrados - e muitos tirando proveito através de falcatruas, verbas do FAT, do governo, beneficiando ONGs com contratos milionários e por aí vai.

O mais interessante é que as administrações do PT raramente investem contra as raízes dos problemas que afligem o país, sempre se utilizando da mesma desculpa esfarrapada: "mudar o Brasil leva tempo". Isso é que se ouve há décadas dos burocratas de plantão, os petistas entraram na burocracia estatal e agora repetem o mesmo discurso. Os projetos vão desde melhoria da qualidade de vida em favelas, ops, aglomerados (para utilizar o termo que essa turminha do politicamente correto tanto gosta) até investimento no ensino profissionalizante. Não interessa se traficantes continuam aliciando crianças para o tráfico numa favela mais urbanizada, ou que, após concluir seu curso de aperfeiçoamento na escola, a possibilidade do ex-aluno encontrar um emprego seja mínima. Mas daí os petistas enchem o peito e bradam aos quatro ventos "esse projeto foi premiado pela ONU", grande coisa. A miséria não é atacada de frente nesse país porque é uma indústria muito lucrativa: políticos demagogos podem se promover muito bem à custa de restaurantes populares, onde a refeição custa um real - não interessa se a fila é enorme, fazendo você perder quase meia hora de seu horário de almoço, pobre tem é que agradecer a Deus por não morrer de fome, obrigado prefeitura do PT! Não interessa muito se as mesmas pessoas vão almoçar naquele restaurante pelo resto de suas vidas, e que provavelmente seus filhos também não vão ter outro lugar para comer. É assim que os miseráveis são devidamente adestrados, o PT aprendeu isso muito bem com a direita.

Falando sério, vocês acham que esses caras querem mudar a realidade? Não, eles querem é se beneficiar dela. O povo negro sofrido? Claro, é importante, mas primeiro eu vou arrumar a minha vida e a dos meus amigos. Consigo um cargo aqui e daí uso da minha influência para que um amigo meu de luta ganhe uma licitação ali, liberando uma verba pra um projeto descolado que vai ajudar muito o povo negro sofrido. Que parte desse dinheiro escoe pelo ralo durante o caminho já não é problema meu, estou fazendo a minha parte, estou ajudando o povo negro sofrido, mas antes estou resolvendo a minha vida, é claro, e de meus amigos também, afinal eles também fazem parte deste povo negro sofrido. E que a relevância deste projeto seja mínima, isso também não importa, o que vale é a luta, a intenção, e o povo negro sofrido continua tão sofrido, mas eu vou continuar sempre lutando por ele - por isso, ele tem mais é que continuar sofrido e sofrendo, senão não vou ter por quem lutar e, principalmente, não vou mais ter emprego como militante profissional.

A republiqueta sindical montada pelo PT em Brasília prova que a esquerda almeja impor-se não pela viabilidade de suas idéias e coerência de suas práticas, como os defensores da ética e da cidadania, mas pela costumeira prática da corrupção, filha esta do autoritarismo e inimiga mortal da democracia - não esta democracia de farsa em que vivemos, que apenas serve para sustentar o mito de que somos um país verdadeiramente livre, com oportunidades iguais para todos (entre tantas outras falácias).

O Brasil não consegue se livrar de sua tradição autoritária, onde a participação popular é volúvel e os interesses de grupos se impõem em patéticos confrontos políticos nas assembléias. O PT não representa o interesse do povo brasileiro, representa sim interesses de sindicalistas e intelectuais que se utilizam da causa por um país mais justo apenas para proveito próprio, para assumir um poder sem reparti-lo e sem promover as mudanças estruturais que nosso país tanto necessita - porque, afinal de contas, essas mudanças não lhes interessam. O PT não tem um projeto de nação, não se mostrou uma alternativa viável para a construção de um futuro melhor para este país assolado por contradições que agravam cada vez mais sua crise social.

O PT é uma grande farsa. A esquerda é um mito, como outros mitos que mais se parecem com fantasmas que com idéias. Como o próprio Lula, para ficar apenas neste (triste) exemplo. Quem me viu, quem me vê, entusiasmado e esperançoso com a eleição de Lula para a presidência da república, agora bastante desiludido com os políticos em geral - e com o próprio presidente, em particular.

Peço desculpas aos leitores, ao interromper minha série de artigos sobre a II Guerra Mundial. Pretendo retomar o assunto em breve.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, psicólogo, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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