"Se eu ganhasse a Presidência
para fazer o mesmo que o Fernando Henrique Cardoso está fazendo,
preferiria que Deus me tirasse a vida antes. Para não passar
vergonha. Porque sabe o que acontece? Tem muita gente que tem o
direito de mentir, o direito de enganar. Eu não tenho. Há uma
coisa que tenho como sagrada: é não perder o direito
de olhar nos olhos de meus companheiros e de dormir com a consciência
tranqüila de que a gente é capaz de cumprir cada palavra
que a gente assume."
Luiz Inácio Lula da Silva, novembro
de 2000, em entrevista à revista
Caros Amigos.
Eu não vou neste artigo perder meu tempo e me irritar ainda
mais descrevendo o ridículo ocaso de um governo que nem
chegou a começar e se traduz na maior farsa da nossa história
republicana. Comecei na verdade a escrever este artigo sobre a
esquerda brasileira assim que me deparei com a seguinte notícia,
publicada na Folha
Online:
PSOL quer plebiscito para decidir sobre continuidade de Lula no
cargo
A Executiva do PSOL se reúne na próxima semana para
aprovar uma proposta para a realização de um plebiscito
para o povo decidir sobre a manutenção do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva no cargo.
A deputada Luciana Genro (PSOL-RS) disse que é inaceitável
defender a proposta de impeachment nesse momento. "Seria o
mesmo que aceitar [o vice-presidente José] Alencar ou Severino
[Cavalcanti, presidente da Câmara] na presidência do
país. Nenhum deles foi escolhido nas urnas para presidir
o país."
Como assim, "nenhum deles foi escolhido nas urnas para presidir
o país"?
Que papo é esse?
José Alencar é vice
de Lula. Avisem a falastrona aí que quando a gente vota
pra presidente do Brasil, também vota no vice. E que, pela
Constituição Federal (talvez ela saiba o que seja
isso), em caso de vacância do cargo de presidente, o vice
assume. Ao votar em Lula, portanto, o povo brasileiro automaticamente
também votou no candidato a vice-presidente, José Alencar,
que, em caso de morte, impedimento ou renúncia do titular,
deve assumir o cargo de presidente, conforme manda a lei máxima
do país. E, como está previsto pela própria Constituição,
se nenhum dos dois puder exercer a função de presidente do país,
o presidente da câmara dos deputados deve assumir e convocar eleições.
É o que está definido na lei. Essas são,
portanto, as regras do jogo democrático.
E, se você entrou neste jogo, deve cumpri-las. Propor qualquer
mudança, com o jogo em andamento, é golpe. O PSOL
se porta hoje da mesma forma, com o mesmo oportunismo, que o PSDB
quando este impôs goela abaixo do Congresso a nefasta
emenda constitucional para
possibilitar
a reeleição do então presidente Fernando Henrique
Cardoso - alguém aí ainda se lembra do escândalo
da compra de votos?
Este exemplo só serve para ilustrar que a esquerda, representada
aqui pelo PSOL da Heloísa
Helena, é autoritária
e arrogante, então de vez em quando aparece com uma proposta
de "mobilização", desde que, é claro,
essa mobilização possa vir a atender seus próprios
interesses. Esse pessoal não sabe fazer política,
são incompetentes, nunca deram certo em lugar nenhum do
mundo, nunca conseguiram emplacar um projeto político em qualquer
lugar do mundo - não através das vias democráticas. E depois ainda
vêm
falar de Cuba.

O naufrágio do governo do PT é apenas a demonstração
cabal de que, para a esquerda (o PT é partido de esquerda sim,
lamento muito), os fins realmente justificam os meios. A esquerda é auto-suficiente,
não
divide o poder, não pensa num projeto de país, mas
sim na implementação de um projeto de se manter no poder, custe
o que
custar. A postura dos movimentos políticos de esquerda é a
de existir como um fim em si mesmos. Daí você pega
um cargo aqui, uma verbazinha ali, e vai se mantendo. São
militantes partidários, sindicalistas, gente dos movimentos
negro, feminista, de direitos humanos, de defesa dos deficientes,
a turma GLS, o escambau. Essa turma toda (ou praticamente quase
toda) tem
orientação
(ou desorientação, seria melhor dizer) de esquerda,
marxista, proselitista, panfletária. Daí enchem o
peito pra se dizerem defensores da causa e o escambau, mas na hora
que
ganham
um cargozinho
na
máquina
pública nos governos do PT (sejam municipais, estaduais
ou mais recentemente no governo federal) ficam mansinhos, mansinhos.
Uma beleza, todos amestrados - e muitos tirando proveito através
de falcatruas, verbas do FAT, do governo, beneficiando ONGs com
contratos milionários e por aí vai.
O mais interessante é que as administrações
do PT raramente investem contra as raízes dos problemas
que afligem o país, sempre se utilizando da mesma desculpa
esfarrapada: "mudar
o Brasil leva tempo". Isso é que se ouve há décadas
dos burocratas de plantão, os petistas entraram na burocracia estatal
e agora repetem o mesmo discurso. Os projetos vão
desde melhoria da qualidade de vida em favelas, ops, aglomerados
(para
utilizar
o
termo que
essa
turminha
do politicamente
correto tanto gosta) até investimento no ensino profissionalizante.
Não
interessa se traficantes continuam aliciando crianças para
o tráfico numa favela mais urbanizada, ou que, após
concluir seu curso de aperfeiçoamento na escola, a possibilidade
do ex-aluno encontrar um emprego seja mínima. Mas daí os
petistas enchem o peito e bradam aos quatro ventos "esse projeto
foi premiado pela ONU", grande coisa. A miséria não é atacada
de frente nesse país porque é uma indústria
muito lucrativa: políticos demagogos podem se promover muito
bem à custa de restaurantes populares, onde a refeição
custa um real - não interessa se a fila é enorme,
fazendo você perder quase meia hora de seu horário
de almoço, pobre tem é que agradecer a Deus por não
morrer de fome, obrigado prefeitura do PT! Não interessa
muito se as mesmas pessoas vão almoçar naquele restaurante
pelo resto de suas vidas, e que provavelmente seus filhos também
não vão ter outro lugar para comer. É assim
que os miseráveis são devidamente adestrados, o PT
aprendeu isso muito bem com a direita.
Falando sério, vocês acham que esses caras querem
mudar a realidade? Não, eles querem é se beneficiar
dela. O povo negro sofrido? Claro, é importante, mas primeiro
eu vou arrumar a minha vida e a dos meus amigos. Consigo um cargo
aqui e daí uso da minha influência para que um amigo
meu de luta ganhe uma licitação ali, liberando uma
verba pra um projeto descolado que vai ajudar muito o povo negro
sofrido. Que parte desse dinheiro escoe pelo ralo durante o caminho
já não é problema meu, estou fazendo a minha
parte, estou ajudando o povo negro sofrido, mas antes estou resolvendo
a minha vida, é claro, e de meus amigos também, afinal
eles também fazem parte deste povo negro sofrido. E que
a relevância deste projeto seja mínima, isso também
não importa, o que vale é a luta, a intenção, e o povo negro
sofrido continua tão sofrido, mas eu vou continuar sempre lutando
por ele - por isso, ele tem mais é que continuar sofrido e sofrendo,
senão não vou ter por quem lutar e, principalmente, não vou mais
ter emprego como militante profissional.
A republiqueta sindical montada pelo PT em Brasília prova
que a esquerda almeja impor-se não pela viabilidade de suas
idéias e coerência de suas práticas, como os
defensores da ética e da cidadania, mas pela costumeira
prática da corrupção, filha esta do autoritarismo
e inimiga mortal da democracia - não esta democracia
de farsa em que vivemos, que apenas serve para sustentar o mito
de que somos um país verdadeiramente livre, com oportunidades
iguais para todos (entre tantas outras falácias).
O Brasil não consegue se livrar de sua tradição
autoritária, onde a participação popular é volúvel
e os interesses de grupos se impõem em patéticos
confrontos políticos nas assembléias. O PT não
representa o interesse do povo brasileiro, representa sim interesses
de sindicalistas e intelectuais que se utilizam da causa por um
país mais justo apenas para proveito próprio, para
assumir um poder sem reparti-lo e sem promover as mudanças
estruturais que nosso país tanto necessita - porque, afinal
de contas, essas mudanças não lhes interessam. O
PT não tem um projeto de nação, não
se mostrou uma alternativa viável para a construção
de um futuro melhor para este país assolado por contradições
que agravam cada vez mais sua crise social.
O PT é uma grande farsa. A esquerda é um mito, como
outros mitos que mais se parecem com fantasmas que com idéias.
Como o próprio Lula, para ficar apenas neste (triste) exemplo.
Quem me viu, quem me vê,
entusiasmado e esperançoso
com a eleição de Lula para a presidência da
república,
agora bastante desiludido com os políticos em geral - e
com o próprio presidente, em particular.
 Peço desculpas aos leitores, ao interromper minha série
de artigos sobre a II Guerra Mundial. Pretendo retomar o assunto
em breve.
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