Minha repulsa à figura de Hitler
pode ser exemplificada pelo simples fato de eu, como editor deste
site, me recusar a publicar uma foto dele ou da suástica
nazista para ilustrar estes artigos sobre a II Guerra. Dito isto,
espero ter deixado bem claro que não estou a escrever aqui
para defendê-lo em nenhuma hipótese. Muito pelo contrário.
Mas é interessante notar como sua figura se confunde com
o próprio mal. Em nossos dias, ser qualificado com o adjetivo
"nazista" é uma ofensa. A imagem do bigodinho do
Führer é pichada em fotos de rostos de políticos
em protestos - e isso já diz tudo, a comparação
é imediatamente associada pelo público. A ideologia
nazista é proibida mesmo de ser divulgada em vários
países. O princípe Harry vestiu-se de nazista em uma
festa à fantasia e foi um escândalo para a família
real britânica; o papa Bento XVI serviu à Juventude
Hitlerista e isso serviu de combustível para críticas
ferozes por parte de opositores da Igreja Católica.
E por aí vai. E o nazismo foi relegado ao papel de seita
satânica ou qualquer coisa parecida. E isso esvazia seu sentido
político e descontextualiza sua horrível trajetória.
Essa é uma discussão que deveria se impor nos dias
atuais, tendo em vista o recrudescimento da extrema-direita na Europa,
a xenofobia e o ódio aos imigrantes que vêm se manifestando
cada vez com maior intensidade no Velho Continente. Porque, com
velhos discursos e novas roupagens, idéias ultranacionalistas
ganham terreno e conquistam adeptos em vários setores da
população, notadamente nos lugares mais afetados pelo
desemprego, como no lado oriental da Alemanha unificada - não
custa lembrar que aquele pessoal viveu numa ditadura entre 1933
e 1990, desde Hitler até a queda do muro de Berlim. Ou seja,
se a democracia significou desesperança, crise moral, desemprego
e falta de perspectivas, não é muito difícil
cair no falatório de algum espertalhão a prometer
o retorno "aos velhos tempos", onde havia prosperidade,
trabalho e bla-bla-bla.
O esvaziamento do debate político em nossos dias pode ter
conseqüências funestas: a confiança em políticos
aventureiros demagogos, a exacerbação do discurso
contra minorias sociais, a desconfiança em relação
à democracia. E, com o fracasso do "socialismo real",
uma guinada à direita seria o passo mais conveniente com
a conjuntura econômica atual.
Não estou dizendo que há risco de que surja um novo
Hitler ou qualquer coisa parecida, mesmo porque não acredito
muito na conversa de que "a história se repete como
farsa". A história é algo muito mais dinâmico
e imprevisível do que desejariam alguns. Mas as idéias
de Hitler estão por aí, as teorias megalomaníacas
que ele concebeu e seu pensamento são acessíveis a
qualquer pessoa. E, pelo visto, o que ele disse ainda seduz a muitos.
Meu temor pessoal é o de que, ao relegarem o nazismo e Hitler
a um papel mítico, como se fossem a emanação
do mal, as pessoas se esqueçam do contexto de crise econômica
e social no qual essas idéias brotaram e produziram frutos
nefastos (há uma propaganda nazista dos anos 30 em que Hitler
é representado
como um semeador... semeando a paz no mundo!) e não façam
a relação necessária com a extrema-direita
de hoje, xenófoba, racista, nacionalista, intolerante. Ou
seja: os nazistas pertencem a um passado distante, inalcançável,
do qual as pessoas vão se esquecendo aos poucos.
E sem reflexão, os erros do passado tendem a se repetir.
Embora em outras circunstâncias e sob diferentes situações,
partidos considerados neonazistas e políticos de linha-dura
alcançam cada vez mais espaço na cena política
européia. Isso demonstra que o Nazismo não foi um
fenômeno político isolado e de causas fortuitas, mas
que teve uma série de condições históricas
para brotar e se fortalecer em sua época, a tal ponto que
suas idéias ainda parecem ser coerentes para muitos.
Se ao menos no discurso esses líderes de extrema-direita
dizem não aceitar a Hitler e negam o caráter totalitário
de suas idéias, é de se suspeitar a semelhança
do que pregam com o que o Nacional-Socialismo alemão ensinava.
E seria bom que todos se assustassem com a possibilidade, ainda
que remota, de que algum desses políticos chegassem ao poder
da mesma forma que Hitler chegou, ou seja, através da via
democrática - fato que provoca espanto em qualquer observador
racional e já comentado em meu texto
anterior. Fico então com uma constatação:
a possibilidade de que pessoas como Hitler apareçam na cena
política, e, através de sua oratória e seu
carisma, conquistem o poder, demonstra não a ineficácia
da democracia, mas sua fragilidade, quando não há
instituições democráticas suficientemente organizadas
e estabelecidas para garantir o funcionamento do próprio
sistema político de um país e sua estabilidade.
Para isto, é imperativo uma imprensa verdadeiramente livre,
uma efetiva participação e interesse popular e a liberdade
de organização das pessoas. A grande virtude da democracia
é que ela pode defender-se de si própria. Por isto,
ruim com ela, pior em outro regime. Mas o que aconteceu com a democracia
alemã, por que o sistema permitiu a chegada de Hitler ao
poder?
(continua...)
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