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Beagá, 23 de maio de 2005 d.C.
 
Reflexões sobre a II Guerra - 60 anos depois (II)
Por Cajabis Cannabis
 

Minha repulsa à figura de Hitler pode ser exemplificada pelo simples fato de eu, como editor deste site, me recusar a publicar uma foto dele ou da suástica nazista para ilustrar estes artigos sobre a II Guerra. Dito isto, espero ter deixado bem claro que não estou a escrever aqui para defendê-lo em nenhuma hipótese. Muito pelo contrário.

Mas é interessante notar como sua figura se confunde com o próprio mal. Em nossos dias, ser qualificado com o adjetivo "nazista" é uma ofensa. A imagem do bigodinho do Führer é pichada em fotos de rostos de políticos em protestos - e isso já diz tudo, a comparação é imediatamente associada pelo público. A ideologia nazista é proibida mesmo de ser divulgada em vários países. O princípe Harry vestiu-se de nazista em uma festa à fantasia e foi um escândalo para a família real britânica; o papa Bento XVI serviu à Juventude Hitlerista e isso serviu de combustível para críticas ferozes por parte de opositores da Igreja Católica.

E por aí vai. E o nazismo foi relegado ao papel de seita satânica ou qualquer coisa parecida. E isso esvazia seu sentido político e descontextualiza sua horrível trajetória.

Essa é uma discussão que deveria se impor nos dias atuais, tendo em vista o recrudescimento da extrema-direita na Europa, a xenofobia e o ódio aos imigrantes que vêm se manifestando cada vez com maior intensidade no Velho Continente. Porque, com velhos discursos e novas roupagens, idéias ultranacionalistas ganham terreno e conquistam adeptos em vários setores da população, notadamente nos lugares mais afetados pelo desemprego, como no lado oriental da Alemanha unificada - não custa lembrar que aquele pessoal viveu numa ditadura entre 1933 e 1990, desde Hitler até a queda do muro de Berlim. Ou seja, se a democracia significou desesperança, crise moral, desemprego e falta de perspectivas, não é muito difícil cair no falatório de algum espertalhão a prometer o retorno "aos velhos tempos", onde havia prosperidade, trabalho e bla-bla-bla.

O esvaziamento do debate político em nossos dias pode ter conseqüências funestas: a confiança em políticos aventureiros demagogos, a exacerbação do discurso contra minorias sociais, a desconfiança em relação à democracia. E, com o fracasso do "socialismo real", uma guinada à direita seria o passo mais conveniente com a conjuntura econômica atual.

Não estou dizendo que há risco de que surja um novo Hitler ou qualquer coisa parecida, mesmo porque não acredito muito na conversa de que "a história se repete como farsa". A história é algo muito mais dinâmico e imprevisível do que desejariam alguns. Mas as idéias de Hitler estão por aí, as teorias megalomaníacas que ele concebeu e seu pensamento são acessíveis a qualquer pessoa. E, pelo visto, o que ele disse ainda seduz a muitos.

Meu temor pessoal é o de que, ao relegarem o nazismo e Hitler a um papel mítico, como se fossem a emanação do mal, as pessoas se esqueçam do contexto de crise econômica e social no qual essas idéias brotaram e produziram frutos nefastos (há uma propaganda nazista dos anos 30 em que Hitler é representado como um semeador... semeando a paz no mundo!) e não façam a relação necessária com a extrema-direita de hoje, xenófoba, racista, nacionalista, intolerante. Ou seja: os nazistas pertencem a um passado distante, inalcançável, do qual as pessoas vão se esquecendo aos poucos.

E sem reflexão, os erros do passado tendem a se repetir. Embora em outras circunstâncias e sob diferentes situações, partidos considerados neonazistas e políticos de linha-dura alcançam cada vez mais espaço na cena política européia. Isso demonstra que o Nazismo não foi um fenômeno político isolado e de causas fortuitas, mas que teve uma série de condições históricas para brotar e se fortalecer em sua época, a tal ponto que suas idéias ainda parecem ser coerentes para muitos.

Se ao menos no discurso esses líderes de extrema-direita dizem não aceitar a Hitler e negam o caráter totalitário de suas idéias, é de se suspeitar a semelhança do que pregam com o que o Nacional-Socialismo alemão ensinava. E seria bom que todos se assustassem com a possibilidade, ainda que remota, de que algum desses políticos chegassem ao poder da mesma forma que Hitler chegou, ou seja, através da via democrática - fato que provoca espanto em qualquer observador racional e já comentado em meu texto anterior. Fico então com uma constatação: a possibilidade de que pessoas como Hitler apareçam na cena política, e, através de sua oratória e seu carisma, conquistem o poder, demonstra não a ineficácia da democracia, mas sua fragilidade, quando não há instituições democráticas suficientemente organizadas e estabelecidas para garantir o funcionamento do próprio sistema político de um país e sua estabilidade.

Para isto, é imperativo uma imprensa verdadeiramente livre, uma efetiva participação e interesse popular e a liberdade de organização das pessoas. A grande virtude da democracia é que ela pode defender-se de si própria. Por isto, ruim com ela, pior em outro regime. Mas o que aconteceu com a democracia alemã, por que o sistema permitiu a chegada de Hitler ao poder?

(continua...)

 
Cajabis Cannabis é professor de história, psicólogo, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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