Em meio à passagem dos 60 anos
do fim da II Guerra Mundial na Europa, percebi que houve muita farra,
muita festa, muitas paradas e desfiles, inaugurações
de monumentos e discursos de políticos oportunistas, exaltando
o heroísmo dos soldados, a abnegação do povo
e a superação das nações. E muito pouca
reflexão sobre aquele momento histórico, sobre a guerra
em si e, principalmente, sobre todo o sofrimento que provocou em
milhões e milhões de pessoas, especialmente os civis.
Certo, houve a inauguração em Berlim de um monumento
ao holocausto, mas a atenção da mídia se dirigiu
mais às polêmicas em torno da construção
da obra, criticada por ser extremamente abstrata e homeagear apenas
os judeus perseguidos e mortos durante o III Reich - isso sem falar
que uma das empresas responsáveis pela construção
do memorial forneceu gás para campos de concentração
nazistas.
Também podemos mencionar os 60 anos de libertação
de Auschwitz, o mais terrível campo de concentração,
lembrados em janeiro último. Houve cerimônias e homenagens
várias, além dos discursos de praxe, mas pouca discussão
em si sobre o que provocou tantas mortes e tanta destruição.
Penso que a tarefa de discutir este tema tão espinhoso e
doloroso da história recente não deveria estar restrita
aos historiadores profissionais e aos pensadores e doutores das
mais diversas disciplinas das ciências humanas e sociais,
ou ainda aos filósofos de plantão. E por um motivo
óbvio: pensar e raciocinar faz muito bem à cabeça
de qualquer cidadão.
Escrevo isto porque toda vez que penso e reflito a respeito da
II Guerra Mundial, questões muito importantes me vêm
à cabeça. A primeira pergunta, para mim, é
a seguinte: qual o papel de Adolf Hitler na eclosão do conflito?
O senso comum diz que Hitler foi o grande culpado pela guerra.
O assassino sangüinário responsável pela morte
de mais de 40 milhões de pessoas na Europa. Ou seja, a encarnação
de Satanás, o anti-Cristo - tem gente até que jura
que ele é a besta do Apocalipse, uma bobagem bestial, aliás.
Por essa análise, Hitler foi o arquiteto da guerra, e seu
nome se confunde com os massacres patrocinados pelos nazistas.
Entretanto, essa visão me parece um sério entrave
ao entendimento do que foi a II Guerra Mundial e ao assassinato
sistemático de milhões de pessoas, principalmente
(mas não exclusivamente) de judeus. Não concordo com
a idéia simplista de satanizar Hitler e colocá-lo
simplesmente como um monstro disposto a saciar sua fome de poder
com o sangue de inocentes. Isso é um baita reducionismo.
Pra começar: qual a diferença entre Hitler e outras
figurinhas carimbadas (Mao Tsé Tung, Stalin, Idi Amin...)?
Os caras "maus" que a gente vê na Linha Direta,
por exemplo? Uma das diferenças é que Hitler se tornou
o dirigente de um dos países mais desenvolvidos e civilizados
de seu tempo, bem no centro do continente europeu. E isso aconteceu,
pasmem, pela via democrática normal, pelas regras vigentes
no sistema político alemão da época. Ele não
deu um golpe, empenhou armas ou tomou o poder pela força.
Seu partido, o Nacional Socialista, compôs em janeiro de 1933
um governo de coalizão (onde Hitler era o chanceler, cargo
semelhante ao de um primeiro-ministro) com outros setores da direita
do país, a esta altura apavorados com o crescimento dos comunistas
no Reichstag (Assembléia Nacional). Em março
do mesmo ano, os nazistas conquistaram maioria em novas eleições
e em 1934, com a morte do presidente Hindenburg, Hitler assumiu
todos os poderes de fato na Alemanha, acumulando as funções
de chefe de Estado e de Governo. Foi realizado um plebiscito onde
90% da população alemã se manifestou a favor
esta mudança.
Certo, você poderá levantar dúvidas sobre a
lisura dessas eleições e dos pleitos, questionando
a manipulação das informações divulgadas
pelos nazistas em suas propagandas, o incêndio do Reichstag
a uma semana das eleições de março de 1933
e as restrições à liberdade de imprensa que
se seguiram. Mas daí eu pergunto: onde estava a oposição
a Hitler e ao seu famigerado Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores
Alemães?
Em linhas gerais, podemos dizer que, com medo dos comunistas e
mergulhado numa terrível crise econômica e política,
o povo daquele país fez uma aposta, dando apoio a esse maluco.
Mas mesmo o sujeito de bigodinho não estava sozinho: por
volta de 1929, ano da crise da bolsa de Nova Iorque, o Partido Nazista,
em baixa, contava com mais de 100 mil membros. Além disso,
a Europa e o mundo silenciaram todos, no decorrer dos anos 30, quando
Hitler sistematicamente descumpriu as cláusulas do Tratado
de Versailles e restringiu progressivamente os direitos dos judeus
residentes na Alemanha (*).
O que quero dizer é: Hitler não surgiu do nada. Esteve
inserido num contexto político extremamente complexo e não
apenas os alemães podem ser responsabilizados por sua ascenção
política. Colocar Hitler como o grande culpado pela guerra,
um demônio em forma de gente, um tirano terrível e
nada mais é, na minha opinião, esvaziar o debate em
torno do conflito, e impede que possamos responder satisfatoriamente
uma pergunta: o que gerou Hitler? Como o regime que ele liderou
pôde cometer tantas barbaridades? Como arregimentou tantos
seguidores para suas idéias delirantes? Essas perguntas não
podem ser respondidas satisfatoriamente se não considerarmos
as questões contingenciais envolvidas. E menos ainda se negarmos
a sua humanidade, porque Hitler era, pelo que se sabe, um indivíduo
da espécie Homo Sapiens sapiens, assim como eu e
você.
(continua...)
* Exceção a ser mencionada foi a Igreja Católica,
com a publicação da encíclica Mit Brennender
Sorge (Com Ardente Preocupação) em março
de 1937 pelo papa Pio XI, que criticava a ideologia nacional-socialista
- curiosamente, esta encíclica teve como um de seus redatores
o cardeal Eugenio Pacelli, futuro papa Pio XII e vez ou outra acusado
de ter sido conivente com o holocausto (esta discussão fica
para outra oportunidade). Se alguns sabichões acusam a encíclica
de ser "anódina" e de não criticar explicitamente
o Nacional-Socialismo (a encíclica foi divulgada originalmente
em alemão!, pra bom entendedor...), é bom lembrar
que o texto foi proibido na Alemanha e o governo do país
mandou um protesto formal ao Vaticano, que foi rejeitado pela Igreja,
criando um sério atrito entre os nazistas e os católicos.
|