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Beagá, 09 de maio de 2005 d.C.
 
Reflexões sobre a II Guerra - 60 anos depois (I)
Por Cajabis Cannabis
 

Em meio à passagem dos 60 anos do fim da II Guerra Mundial na Europa, percebi que houve muita farra, muita festa, muitas paradas e desfiles, inaugurações de monumentos e discursos de políticos oportunistas, exaltando o heroísmo dos soldados, a abnegação do povo e a superação das nações. E muito pouca reflexão sobre aquele momento histórico, sobre a guerra em si e, principalmente, sobre todo o sofrimento que provocou em milhões e milhões de pessoas, especialmente os civis.

Certo, houve a inauguração em Berlim de um monumento ao holocausto, mas a atenção da mídia se dirigiu mais às polêmicas em torno da construção da obra, criticada por ser extremamente abstrata e homeagear apenas os judeus perseguidos e mortos durante o III Reich - isso sem falar que uma das empresas responsáveis pela construção do memorial forneceu gás para campos de concentração nazistas.

Também podemos mencionar os 60 anos de libertação de Auschwitz, o mais terrível campo de concentração, lembrados em janeiro último. Houve cerimônias e homenagens várias, além dos discursos de praxe, mas pouca discussão em si sobre o que provocou tantas mortes e tanta destruição.

Penso que a tarefa de discutir este tema tão espinhoso e doloroso da história recente não deveria estar restrita aos historiadores profissionais e aos pensadores e doutores das mais diversas disciplinas das ciências humanas e sociais, ou ainda aos filósofos de plantão. E por um motivo óbvio: pensar e raciocinar faz muito bem à cabeça de qualquer cidadão.

Escrevo isto porque toda vez que penso e reflito a respeito da II Guerra Mundial, questões muito importantes me vêm à cabeça. A primeira pergunta, para mim, é a seguinte: qual o papel de Adolf Hitler na eclosão do conflito?

O senso comum diz que Hitler foi o grande culpado pela guerra. O assassino sangüinário responsável pela morte de mais de 40 milhões de pessoas na Europa. Ou seja, a encarnação de Satanás, o anti-Cristo - tem gente até que jura que ele é a besta do Apocalipse, uma bobagem bestial, aliás. Por essa análise, Hitler foi o arquiteto da guerra, e seu nome se confunde com os massacres patrocinados pelos nazistas.

Entretanto, essa visão me parece um sério entrave ao entendimento do que foi a II Guerra Mundial e ao assassinato sistemático de milhões de pessoas, principalmente (mas não exclusivamente) de judeus. Não concordo com a idéia simplista de satanizar Hitler e colocá-lo simplesmente como um monstro disposto a saciar sua fome de poder com o sangue de inocentes. Isso é um baita reducionismo.

Pra começar: qual a diferença entre Hitler e outras figurinhas carimbadas (Mao Tsé Tung, Stalin, Idi Amin...)? Os caras "maus" que a gente vê na Linha Direta, por exemplo? Uma das diferenças é que Hitler se tornou o dirigente de um dos países mais desenvolvidos e civilizados de seu tempo, bem no centro do continente europeu. E isso aconteceu, pasmem, pela via democrática normal, pelas regras vigentes no sistema político alemão da época. Ele não deu um golpe, empenhou armas ou tomou o poder pela força. Seu partido, o Nacional Socialista, compôs em janeiro de 1933 um governo de coalizão (onde Hitler era o chanceler, cargo semelhante ao de um primeiro-ministro) com outros setores da direita do país, a esta altura apavorados com o crescimento dos comunistas no Reichstag (Assembléia Nacional). Em março do mesmo ano, os nazistas conquistaram maioria em novas eleições e em 1934, com a morte do presidente Hindenburg, Hitler assumiu todos os poderes de fato na Alemanha, acumulando as funções de chefe de Estado e de Governo. Foi realizado um plebiscito onde 90% da população alemã se manifestou a favor esta mudança.

Certo, você poderá levantar dúvidas sobre a lisura dessas eleições e dos pleitos, questionando a manipulação das informações divulgadas pelos nazistas em suas propagandas, o incêndio do Reichstag a uma semana das eleições de março de 1933 e as restrições à liberdade de imprensa que se seguiram. Mas daí eu pergunto: onde estava a oposição a Hitler e ao seu famigerado Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães?

Em linhas gerais, podemos dizer que, com medo dos comunistas e mergulhado numa terrível crise econômica e política, o povo daquele país fez uma aposta, dando apoio a esse maluco. Mas mesmo o sujeito de bigodinho não estava sozinho: por volta de 1929, ano da crise da bolsa de Nova Iorque, o Partido Nazista, em baixa, contava com mais de 100 mil membros. Além disso, a Europa e o mundo silenciaram todos, no decorrer dos anos 30, quando Hitler sistematicamente descumpriu as cláusulas do Tratado de Versailles e restringiu progressivamente os direitos dos judeus residentes na Alemanha (*).

O que quero dizer é: Hitler não surgiu do nada. Esteve inserido num contexto político extremamente complexo e não apenas os alemães podem ser responsabilizados por sua ascenção política. Colocar Hitler como o grande culpado pela guerra, um demônio em forma de gente, um tirano terrível e nada mais é, na minha opinião, esvaziar o debate em torno do conflito, e impede que possamos responder satisfatoriamente uma pergunta: o que gerou Hitler? Como o regime que ele liderou pôde cometer tantas barbaridades? Como arregimentou tantos seguidores para suas idéias delirantes? Essas perguntas não podem ser respondidas satisfatoriamente se não considerarmos as questões contingenciais envolvidas. E menos ainda se negarmos a sua humanidade, porque Hitler era, pelo que se sabe, um indivíduo da espécie Homo Sapiens sapiens, assim como eu e você.

(continua...)

* Exceção a ser mencionada foi a Igreja Católica, com a publicação da encíclica Mit Brennender Sorge (Com Ardente Preocupação) em março de 1937 pelo papa Pio XI, que criticava a ideologia nacional-socialista - curiosamente, esta encíclica teve como um de seus redatores o cardeal Eugenio Pacelli, futuro papa Pio XII e vez ou outra acusado de ter sido conivente com o holocausto (esta discussão fica para outra oportunidade). Se alguns sabichões acusam a encíclica de ser "anódina" e de não criticar explicitamente o Nacional-Socialismo (a encíclica foi divulgada originalmente em alemão!, pra bom entendedor...), é bom lembrar que o texto foi proibido na Alemanha e o governo do país mandou um protesto formal ao Vaticano, que foi rejeitado pela Igreja, criando um sério atrito entre os nazistas e os católicos.

 
Cajabis Cannabis é professor de história, psicólogo, músico, estudioso de parapsicologia, ex-poeta, webmaster, cinéfilo, entre outras coisas inúteis. Se você está tendo algum problema paranormal, mande um e-mail para cajabis@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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